O pobre cão

Ulisses e Argos

Certa noite, em tempos remotos, o homem despertou e viu a si mesmo.

Viu-se nu sob o cosmos, sem lar em seu próprio corpo. Todas as coisas se dissolveram diante de seus pensamentos, maravilhas sobre maravilhas, horrores sobre horrores se desdobraram em sua mente.

Então a mulher também despertou e disse que era hora de ir caçar. E ele pegou seu arco e flecha, fruto da união do espírito e da mão, e saiu sob as estrelas. Mas, quando as feras chegaram aos seus poços d'água, onde ele as esperava por hábito, não sentiu mais o sangue do tigre em suas veias, mas um grande salmo sobre a irmandade do sofrimento entre todos os seres vivos.

Naquele dia, ele não retornou com presa, e quando o encontraram na lua nova seguinte, estava sentado, morto, junto ao poço d'água.

A passagem acima foi escrita por Peter Wessel Zapffe, filósofo norueguês que volta e meia menciono. Apesar de pessimista, Zapffe não é exatamente schopenhaueriano. Contudo, esse trecho, que se encontra no começo do ensaio intitulado O último messias, expressa muito bem algo que se encontra na filosofia de Schopenhauer, a quem certamente Zapffe é devedor. Aliás, é algo que se encontra nos escritos de outros pessimistas dos quais vivo falando, também, como Cioran. A ideia que a passagem exprime é a seguinte: num dado momento, a consciência profunda que aflige o ser humano despertou num indivíduo de nossa espécie. Esse indivíduo, um arqueiro caçador, que até o momento vivia meio que no automático apesar da sua inteligência humana, passou a compreender o mundo de forma mais complexa. Enxergou todos os animais como irmãos sofredores dele próprio. Preferiu a morte a ter de continuar neste mundo em que a vida se entredevora a troco de absolutamente nada.

Eu poderia tentar fazer uma análise sociológica, econômica, política, psicológica, etc, do triste episódio do pobre cão Orelha, que vivia na praia em Florianópolis, Santa Catarina, sendo cuidado por moradores da região, e que foi espancado violentamente por adolescentes privilegiados de famílias abastadas, a ponto de sua massa encefálica ficar exposta e ele ter que ser sacrificado pelo veterinário. Poderia demonstrar raiva por conta de alguns dos pais desses adolescentes estarem coagindo e ameaçando testemunhas e pessoas que divulgaram o caso para a grande mídia, além de apontar o absurdo que é ver alguns desses adolescentes serem enviados para a Disney para passar alguns dias longe daqui, a fim de escaparem um pouco da repercussão. Poderia tentar apontar como esses mesmos adolescentes são suspeitos de tentarem matar outros cachorros de rua na cidade, além de como atitudes como essas podem indicar traços de psicopatia, tendo em vista a associação feita até mesmo pela cultura pop entre maus tratos aos animais e serial killers.

Mas não vou fazer nada disso. Já estamos saturados de perspectivas como essas. Além do que, estou de saco cheio dos que acham que tudo na existência se resume à política, condições materiais, história, geopolítica e questões mentais que, em tese, são resolvíveis através de algum tipo de tratamento. Essas coisas são importantes, claro, mas elas fazem parte da existência, elas não são o seu forro. Na vasta maioria do universo não existe política, condições materiais, história, geopolítica e problemas psicológicos, porque a vasta maioria do universo é inanimado, inorgânico; e não digo inorgânico no sentido puro da química inorgânica, mas no sentido mais amplo de não ter vida nenhuma. O universo é malignamente indiferente à vida, a ponto de quase ser hostil. Se pudéssemos atribuir a ele alguma característica antropomórfica, se pudéssemos falar de uma inteligência por trás do universo, estaríamos corretíssimos em dizer que ela é má. Conseguiu, ao menos num planeta, abarrotar o universo de incontáveis dores.

Como eu não justifico a existência, mas a condeno, não acho que esse estado de coisas é bom, correto, necessário ou o que quer que seja. Não aceito que seja assim. Se aceitasse, diria que a força faz o direito, e quem quer que consiga forçar violentamente sua vontade sobre os outros têm o direito de impor seus desejos em cima dos outros. A natureza funciona dessa forma, por mais que até hoje tentemos romantizá-la. A natureza é extremamente hostil, horrenda, brutal, apesar de bela de ver. Porém, os animais não entendem isso, já que vivem num eterno presente, sem formar conceitos da maneira como nós, infelizmente, formamos. Apesar de conscientes em diversos graus, uns mais e outros menos, eles não possuem a consciência profunda a que fomos condenados pela própria natureza, já que foi ela que nos pariu, assim como pariu os outros animais, nossos irmãos. Tivemos o azar de sermos separados pela própria natureza do resto dela. Azar não porque a natureza é maravilhosa, ela é horrível. O azar é que comemos da árvore do conhecimento do bem e do mal, para usar a mitologia.

Numa longa passagem de A queda no tempo, Cioran escreve o seguinte sobre o homem e sua separação do resto da natureza:

Após ter destruído a unidade do Paraíso, ele se dedicou a destruir a da Terra, introduzindo um princípio de partição que aniquilaria sua ordem e seu anonimato. Até então, o homem morria, é claro, mas a morte, uma consumação na indistinção primordial, não possuía o significado que posteriormente adquiriu, nem estava carregada dos atributos do irreparável. Uma vez que o homem, separado tanto do Criador quanto da criação, tornou-se indivíduo — em outras palavras, fratura e fissura no Ser — e uma vez que aprendeu, assumindo seu nome a ponto de provocar, que era mortal, seu orgulho foi magnificado, tanto quanto sua confusão. Finalmente, ele estava morrendo à sua maneira — orgulhava-se disso; mas estava morrendo, morrendo completamente — e isso era humilhante. Não mais reconciliado com um desfecho outrora ardentemente desejado, ele se volta, enfim, e com saudade, para os animais, seus antigos companheiros: todos, vis e nobres, aceitam seu destino, desfrutam dele ou se resignam a ele; nenhum seguiu seu exemplo ou imitou sua rebeldia. As plantas, mais do que os animais, regozijam-se por terem sido criadas: a própria urtiga ainda floresce dentro de Deus; só o homem sufoca ali, e não é essa sensação de sufocamento que o levou a se manter à parte do resto da criação, um pária consensual, um rejeitado voluntário? Todos os outros seres vivos, pelo simples fato de serem idênticos em sua condição, possuem uma certa superioridade em relação a ele. E é quando os inveja, quando anseia por sua glória impessoal, que o homem compreende a gravidade de sua situação.

Os cães, apesar de serem fruto da seleção artificial praticada pelo homem durante milênios, estão muito mais próximos da inocência do estado de natureza — não porque eles sejam incapazes de infligir dor e morte como seus ancestrais lobos, alguns deles são plenamente capazes disso, mas porque eles não sabem o que fazem, não da mesma forma que nós. Eles trabalham por instinto e pela emoção. Eles são inteligentes, sim, mas não formam conceitos como nós, inclusive eles são incapazes de formar conceitos como a malícia e a maldade, que certamente são colocados em prática por aqueles que espancam cachorros por diversão. Mesmo cachorros selvagens que vivem da caça são incapazes de ficar ruminando de maneira complexa e maldosa sobre suas presas. O mal que existe ali não é culpa do animal, mas do todo que é construído pessimamente. O humano sozinho tem consciência e inteligência suficientes para entender que é parte de tudo, que é irmão, inclusive, dos cães, mesmo aqueles que moram em ruas e praias.

Enquanto que, para Kant, a moral se fundamenta na razão, enquanto que, para ele, só devemos agir se considerarmos que tal ação possa ser transformada em lei universal, para Schopenhauer, a moral se fundamenta no reconhecimento de si mesmo no outro que sofre, visto que, na sua filosofia, somos todos marionetes descartáveis na mão de uma vontade insaciável e imortal. Nós sofremos na luta pela existência em nome da vontade, matando, morrendo e nos reproduzindo para afirmá-la. O humano, por força do acaso, surge com um aparato cognitivo que lhe confere o poder de ver as coisas quase como que à parte de tudo, embora ele jamais esteja realmente à parte do resto da existência. Para o seu horror, ele entende o processo como um todo. A moral pessimista, portanto, vem perceber que estamos ligados numa irmandade de sofredores que são alimentados por uma ânsia de manifestação que está disposta a passar por cima de qualquer coisa para se afirmar, algo que entendemos que devemos diminuir ou negar dentro de nós mesmos.

Há quem se debata e esperneie dizendo que, antes de darmos a mínima para os animais, devemos nos importar com as pessoas, e que enquanto houver uma pessoa sofrendo não devemos perder o sono pensando no sofrimento dos animais. O problema de asserções como essa é que elas ignoram a realidade de que uma coisa dificilmente existe sem a outra. Sim, é mais comum haver o reconhecimento de si em pessoas próximas e da mesma espécie, mas quanto mais reconhecemos nós mesmos no diferente, mais morais somos, menos brutos. É por isso que Schopenhauer escreve em O mundo como vontade e como representação:

O homem nobre nota que a diferença entre si e outrem, que para o mau é um grande abismo, pertence apenas a um fenômeno passageiro e ilusório; reconhece imediatamente, sem cálculos, que o Em-si do seu fenômeno é também o Em-si do fenômeno alheio, a saber, aquela Vontade de vida constitutiva da essência de qualquer coisa, que vive em tudo: sim, que ela se estende até mesmo aos animais e à toda natureza, logo, ele também não causará tormento a animal algum.

Como pode o pessimista, que trata o fundamento do mundo como uma vontade arrasadora e indiferente, que trata a natureza como a fonte de todo caos e de toda dor, dizer que devemos tratar os outros seres naturais bem? Não é pela natureza como um todo, como uma entidade, que devemos tratar bem os outros seres que sofrem. Devemos tratá-los bem justamente porque eles sofrem, porque são vítimas da existência, porque foram colocados aqui sem nenhum aviso prévio, visto que não existiam, assim como nós fomos.

A mansidão e a santidade vêm da negação da nossa própria vontade, do nosso ego, do que quer que queira chamar. Ela não vem facilmente para todo mundo, pelo contrário. Mas a dificuldade não justifica a prática do horror, ainda mais quando se sabe que é horror. Não penso que os adolescentes que praticaram aquele terrível mal contra o cão Orelha devam ser torturados e mortos. Embora não falte vontade de amaldiçoá-los, não é o que o intelecto sabe ser o certo. Espero que eles compreendam o mal que fizeram e sejam capazes de mudar profundamente. Acho difícil, dado justamente questões de ordem secundária, como a sua criação, posição social e outras características. Apesar de não serem fundamentais, essas coisas são muito importantes. A história das religiões pessimistas, aquelas para as quais o mais santo é quem mais nega a vontade em si, é cheia de exemplos de santos que tiveram vidas pregressas horríveis e, num dado momento, arrependeram-se, inclusive de assassinatos. Arrependeram-se a ponto de negar a vontade dentro de si e se tornarem ascetas. Porém, mais uma vez, duvido muito que esse tipo de coisa ocorrerá com esses jovens, até porque o tipo de religião em voga atualmente neste país é completamente oposto a qualquer ideia de ascetismo, pelo contrário: ela prega que o correto é afirmar a vontade cada vez mais. 

Uma pena.


por Fernando Olszewski