Adversus optimismus: contra o otimismo
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| A queda dos anjos rebeldes, de Luca Giordano |
Por que pessimismo? Por que não ver o mundo através dos olhos de quem enxerga nele uma ordem racional, necessária e boa, cujo fim último, apesar das dores, é bom, como ocorre no caso dos teístas, panteístas e outros tantos que apelam a diferentes teologias naturais disfarçadas de filosofia da história? Ou, ainda, já que não acredito nessas coisas, por que não ver o mundo de forma lúcida, sabendo que ele é grotesco, mas abraçando-o mesmo assim, apesar de não haver sentido em nada? Por que pessimismo e não otimismo? Para nos convencermos de que o pessimismo é, na filosofia, o caminho mais certo, são necessários alguns passos que, francamente, não são tão comuns, embora acredite que sejam mais comuns do que se imagina normalmente.
Não são razões puramente pessoais que convencem uma pessoa de que esse é o posicionamento filosófico correto a se ter, embora razões puramente pessoais possam ajudar a chegar na conclusão pessimista. Porém, de certa forma, mesmo razões impessoais também acabam se tornando pessoais através do estudo. O estudo, a educação e a leitura fazem do mundo algo pessoal, fazem com que nós nos importemos quando incêndios destroem as nossas casas e a dos nossos entes queridos, mas também quando destroem o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e a catedral de Notre Dame, em Paris. A educação torna o mundo pessoal, ou pelo menos deveria torná-lo, se ela não fosse instrumentalizada para servir a interesses supostamente tecnocráticos, que nada mais são do que subterfúgios para enriquecer ainda mais os donos dos meios de produção e seus amigos governantes.
É o acúmulo de conhecimento que serve como ponto de partida para se tornar pessimista. A ideia de que quanto mais educação, quanto mais conhecimento, maior a visão negativa da existência, não é nova. O livro de Eclesiastes capítulo 1, versículo 18, diz o seguinte sobre isso:
Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e quem aumenta a ciência, aumenta a dor.
Apesar de concordar com o espírito do versículo no geral, a verdade é que não é necessário se sentir pior após o entendimento de que o mundo é um lugar tenebroso e desprovido de sentido. A palavra mundo aqui refere-se ao universo, à existência, ao devir em si, não somente ao mundo humano, mundo capitalista ou qualquer outra limitação geográfica e histórica. Embora sistemas humanos sejam capazes de piorar a experiência de vida de bilhões de pessoas, além de piorá-la para bilhões de animais, a realidade é que eles não são a única causa do mundo ser um vale de lágrimas, muito menos a primeira causa de todo infortúnio sentido pelas criaturas que já rastejaram nesta Terra. É verdade que, no segundo volume de Parerga e Paralipomena, Arthur Schopenhauer escreveu:
O mundo é um verdadeiro inferno, e nele os seres humanos são as almas torturadas, por um lado, e os demônios, por outro.
Porém, o problema é estrutural, não no sentido de uma estrutura criada por nós e passível de ser alterada ou superada. Ela é o próprio mundo como tal. Schopenhauer mesmo reconhece isso. Não são apenas os seres humanos que são torturados por um lado e demônios por outro, a existência em si é que tortura todo mundo. Nós, como parte da existência, por vezes assumimos os papéis de torturados e demônios, mas a gênese de todo esse caos não se encontra em nós, pelo menos não como representações individuadas da vontade na filosofia schopenhaueriana.
Voltando ao versículo do Eclesiastes, a verdade é que não é preciso se sentir tão mal à medida em que se aumenta a ciência e se descobre que o mundo é terrível, pois muitos já se sentem mal antes. A crença de que a vida é um presente, uma dádiva da qual jamais poderíamos reclamar, crença que é tão internalizada em todos nós, ela causa um desconforto tremendo em muitos indivíduos. Há um descompasso entre essa crença enraizada e a realidade, num sentido básico. Nascemos para morrer. Entre o nascimento e morte passamos por circunstâncias hediondas e, vez ou outra, felicidades fugazes. Na melhor das hipóteses, ao invés de muitas coisas horríveis, temos a maior parte do tempo preenchido pelo tédio. Para piorar, toda essa empreitada não tem nenhuma razão de ser. Não é como se fôssemos uma peça essencial no universo. Nossa extinção é garantida, assim como a de todas as espécies. A maioria delas inclusive já foi extinta.
Parece piada. Somos como peças descartáveis nas mãos de deuses que se divertem com a nossa confusão e dor. Essa é a realidade, e ela está em total desacordo com o otimismo inculcado em todos nós desde muito cedo na vida. Ir descobrindo aos poucos a sabedoria de que esta vida não passa de um infortúnio terrível e que teria sido melhor não ter existido em primeiro lugar pode ter um saldo positivo no caso de certas pessoas. Pode tirar um peso enorme de suas costas. Não podemos romantizar, também, e dizer que tudo são rosas depois disso para elas. Esse conhecimento é por vezes aterrador e desesperador. Mas penso que, no momento que a humanidade se encontra, o dogma da vida ser uma coisa maravilhosa da qual temos de ser gratos é tão atolado em nossas goelas que, depois de nos livrarmos dele, é possível respirar um pouco, e isso por si só já é um alento, embora o terror e o desespero também se façam presentes.
Nesses casos em que a descoberta causa um alívio, então, eu modificaria o dito do Eclesiastes da seguinte forma: quem mais aumenta a ciência, mais entende que o mundo é terrível — e isso, apesar de ser um conhecimento desagradável, pode, em determinadas circunstâncias, prover uma espécie de alívio. O alívio do qual falo vem de não ter mais que conviver com a dissonância entre a realidade nua e crua de que a existência sensível é uma desgraça completa e o dogma otimista de que a vida é boa e devemos nos ajoelhar perante ela. Apesar disso, devemos entender que, para muita gente, talvez a maioria, a dissonância não existe. Por alguma razão, elas não sentem o desconforto que tantos outros sentem, desconforto esse causado pelo descompasso entre a realidade e o que nos é ensinado sobre a suposta dádiva da existência.
Para toda essa gente, o dito do Eclesiastes, infelizmente, continua sendo muito literal. É por isso que elas vão sempre precisar de deuses ou ideais laicos. Sem essas coisas, elas não conseguiriam levantar da cama e, caso levantassem, não conseguiriam resistir ao impulso de acabar com tudo dando um fim em si mesmas ou, pior ainda, machucar e explorar os outros por se sentirem validadas em seu niilismo. Não tenho dúvida de que esse é o caso de pastores multimilionários. Eles não acreditam no deus que pregam, eles não acreditam em nada. No momento em que perceberam que o mundo é caos, eles optaram por afirmar sua própria vontade explorando a esperança daqueles que tem um déficit intelectual, a vasta maioria da população. Já o pessimista, embora entenda que não há deus e que os ideais laicos são incapazes de justificar o mundo, não opta pela afirmação de si em detrimento dos outros.
É, portanto, o aumento do conhecimento que faz de alguns pessimistas, por fazê-los entender que o mundo é péssimo, como dizia José Saramago. Mas, novamente, o mundo não é péssimo apenas porque o ser humano faz questão de que seja através de seu ardil, embora o homem não ajude muito. O mundo é péssimo porque ele é, no seu fundamento, desde a sua concepção, irrevogavelmente péssimo. E não há escapatória nenhuma, estamos presos nele do momento em que adquirimos consciência até o momento em que a perdemos pela última vez. No segundo tomo de O mundo como vontade e como representação, Schopenhauer escreve:
Enquanto uma pessoa pobre de pensamento sente-se atormentada só pela realidade, já a pessoa que pensa sobre o tormento da realidade, ainda acrescenta a perplexidade teórica ao perguntar por que um mundo e uma vida, afinal feitos para que sejamos neles felizes, adaptam-se tão mal aos seus fins? Essa perplexidade infla-se em suspiros: “Ó, por que tantas lágrimas sob a Lua?”, e outros semelhantes, o que traz em seguida escrúpulos inquietantes contra as hipóteses daqueles preconcebidos dogmas otimistas.
Porém, não basta o acúmulo de conhecimento. Ele é condição necessária, mas não suficiente. Creio que deva haver uma inclinação, que está conosco desde sempre ou, pelo menos, desde algum momento de nossas vidas. Essa inclinação é o que separa um Machado de Assis de um líder religioso milionário que explora a fé alheia. Além disso, a pessoa pode muito bem acumular bastante conhecimento previamente e nem por isso se tornar pessimista. Apesar do aumento na ciência, por muito tempo o indivíduo pode insistir na crença de que a vida é boa e que vale a pena lutar pelo mundo e nossa continuidade nele. Contudo, penso que uma hora a dissonância é demais de aguentar e muitos de nós admitimos derrota.
O mundo não é bom. Ele é não é mau. Ele é indiferente, mas não de uma forma puramente neutra que pode ser sempre aproveitada pelos seres sensíveis desde que eles sejam sagazes o suficiente. Quando um ser vivo estende a sua pata ao mundo, a resposta do mundo é malignamente fria. Como Peter Wessel Zapffe escreve em Sobre o trágico:
Nesse sentido, o universo é estranho a tudo que vive. Fogo e seca, tempestade e frio atingem sem piedade; cabe à vida se salvar da melhor maneira possível. Os termos dessa relação podem ser vistos na imagem de uma permissão de residência que pode ser revogada a qualquer momento em um país bárbaro e aterrorizante, onde a língua é estranha, que opera sob ordens de entidades desconhecidas e inacessíveis e onde se pode ser torturado e morto a qualquer momento.
A visão que Schopenhauer buscou sistematizar na sua filosofia foi certamente inspirada por pitadas de pessimismo filosófico encontradas em outros pensadores ao longo da história, muitos deles não associados ao pessimismo normalmente, outros sim. Eles vão do Buda Sakyamuni e Jesus Cristo até David Hume e Giacomo Leopardi. As pitadas se encontram em escritos diversos, da Sumyutta Nikaya e o Novo Testamento até os Diálogos sobre a religião natural e o Zibaldone. A visão pessimista é a de que o mundo é fundamentado de tal forma que o atrito sempre tira lascas de tudo aquilo que existe, até que o que existe retorne a estados mais elementares. Nem mesmo objetos físicos poderosos como buracos negros escapam dessa lógica. O drama dos seres vivos azarados o suficiente para serem capazes de sentir estímulos dolorosos se dá por conta disso: eles sentem as suas lascas sendo tiradas.
O universo comporta-se como sede de manifestação, o que Schopenhauer chama de vontade. Somos todos parte dele, somos todos ligados, filhos dessa sede. Mas manifestar-se no devir tem um preço. Quando pisamos no chão, pisamos em nós mesmos. Só que o chão, quando é desprovido de vida sensível, não sente nada. O problema moral surge no momento em que sujeitos se tornam vítimas desse processo, vítimas da existência em si. Ao ver esse estado de coisas, o pessimista rejeita a existência, trata ela como uma sentença a ser cumprida e não como um presente.
Outras respostas são possíveis, claro. A maioria das pessoas nem sequer pensa a respeito, abraça fantasias e toca o seu dia, tornando-se vítimas de pastores, líderes carismáticos e drogas diversas. Estão contentes, mesmo suas vidas sendo terríveis. Elas não percebem sua condição. Outros pensam a respeito e discordam do pessimismo, abraçando fantasias filosóficas mais elaboradas para justificar as desgraças, como as de que a história possui um propósito, como no caso de Hegel e seus vários derivados. No final, estão no mesmo barco daqueles que são vítimas de pastores, líderes carismáticos e drogas diversas; a única diferença é que proveem justificativas elegantes para os seus vícios. Outros concordam com o pessimismo, sabem que qualquer sentido é pura fantasia e que o mundo é um vale de lágrimas, mas dizem abraçar a vida mesmo assim — essa foi a resposta de Nietzsche e seus descendentes intelectuais.
Do ponto de vista do pessimismo, no entanto, as diferentes justificativas usadas para absolver o vale de lágrimas em que nos encontramos são variações de uma mesma perspectiva: o otimismo. Assim como no caso do pessimismo, não devemos pensar otimismo aqui no seu sentido comum. Otimistas existenciais ou metafísicos podem muito bem ser pessimistas com relação a diversas coisas. Por exemplo, ninguém diria que o pensador marxista Antonio Gramsci era, levado no todo de sua filosofia, um pessimista, muito embora ele fosse pessimista com relação a vários eventos históricos que ocorreram durante a sua vida. Sua visão filosófica era assumidamente otimista, isto é, ele acreditava que valia a pena existir. Aliás, a existência ser boa ou má era algo que, dada a sua cosmovisão filosófica, ele nem sequer questionava.
Uma frase coloquialmente usada para descrever essa atitude intelectual, que varre para debaixo do tapete as dores do mundo por considerar a existência um dado concreto além de qualquer questionamento, é a seguinte: a existência não é boa, nem má, ela só é. Sim, é verdade, inclusive disse algo parecido agora há pouco. Porém, tratar a existência dessa forma significa aprová-la implicitamente. Continua sendo otimismo com relação ao mundo, por mais que não seja um otimismo escancarado, explícito e ingênuo. Como disse anteriormente: o mundo não é bom e nem é mau, ele é indiferente; porém, sua indiferença não é neutra de uma forma romântica, ela não é neutra de uma maneira que pode ser aproveitada pela vida. Não é como se a vida pudesse florescer belamente desde que tenha coragem para lutar e vencer. Aliás, esse tipo de posicionamento soa como fala vazia de coach, onde tudo depende de nós e se fracassamos a culpa é somente nossa.
Pode parecer duro querer comparar filosofias complexas com discurso vagabundo de coach do século XXI, mas no final dá no mesmo. No final das contas, todos eles tentam justificar o injustificável. Como Schopenhauer escreve no segundo tomo de O mundo como vontade e como representação:
A este mundo, palco de seres atormentados e angustiados, que só conseguem subsistir se se entredevoram, mundo em que, portanto, cada animal voraz é a sepultura viva de milhares de outros e a própria autoconservação é uma cadeia de martírios, mundo em que a capacidade de sentir dor aumenta com o conhecimento, capacidade que, portanto, atinge o seu mais alto grau no humano, e tanto mais quanto mais inteligente ele é, — a este mundo, ia dizer, foi feita a tentativa de adaptar o sistema do otimismo e demonstrar tal mundo como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo é gritante. — Entrementes, um otimista me diz para abrir os olhos, olhar o mundo e ver como ele é belo sob a luz do sol, com suas montanhas, vales, cursos d'água, plantas, animais e assim por diante. — Mas, o mundo é então a projeção de uma caixa de lanterna mágica? As coisas são decerto belas de ver; porém ser uma delas é algo completamente diferente.
O universo é estranho a tudo o que vive, a ponto de ser hostil. A sobrevivência da vida, nas suas variadas formas e espécies, não depende de nós, mas do ambiente, que pode revogar nossa permissão de residência a qualquer momento. Pode, inclusive, nem sequer dar uma permissão de residência em primeiro lugar. A prova mais contundente disso talvez se encontre na realidade de que só achamos vida até agora aqui na Terra. Ao que tudo indica até o momento, não é comum haver vida fora daqui e, no caso de lugares como Marte, onde se especula poder ter tido vida no passado, ela teria desaparecido há vários milhões de anos atrás. Não haveria problema algum em aceitar uma existência em que tudo é sede de manifestação e o atrito é a regra geral, desde que isso não afetasse ninguém de forma negativa. Mas esse não é o caso. Na Terra, o único lugar onde sabemos existir vida, houve por centenas de milhões de anos e ainda há incontáveis seres afetados de forma absurdamente negativa simplesmente porque foram paridos.
O mesmo se daria em outros lugares do universo onde, por azar, a vida sensível também viesse a brotar. Novamente no segundo volume do Parerga e Paralipomena, Schopenhauer escreve:
Enlouqueceríamos se contemplássemos os arranjos luxuosos e excessivos de incontáveis estrelas fixas e flamejantes no espaço infinito, que nada têm a fazer senão iluminar mundos que são cenários de miséria e desolação e, no caso mais afortunado, não proporcionam nada além de tédio; pelo menos a julgar pelo exemplo com o qual estamos familiarizados.
Pintar esse quadro dantesco com olhos positivos, afirmando que devemos aceitar a realidade independentemente das dores, torna-se repreensível no momento em que tal atitude perpetua uma situação desgraçada, da qual a única salvação é não participar, não ser. Ao louvarmos o mundo sem nenhuma ressalva, estamos assinando embaixo de todos os horrores dos quais ele serve de palco. Em entrevista para o livro Reflexões em um espelho mágico: vozes do nosso século, editado pelo jornalista Haagen Ringnes e publicado em 1998, Zapffe disse que ter filhos neste mundo é como trazer lenha para dentro de uma casa em chamas. O otimismo, independentemente da máscara que utilize para nos enganar, serve de propaganda e de estímulo para que nós tragamos mais do combustível que alimenta este inferno para dentro mundo, combustível que, longe de ser inanimado e indiferente ao incêndio, será ele próprio vítima a gritar e se debater no fogo.
por Fernando Olszewski
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