“Q” e o libelo de sangue

Evitei tocar neste assunto por um bom tempo, dado o grau de grosseria, mas ele se tornou presente demais no imaginário popular para não falar a respeito. Vivemos em uma época de perseguição às bruxas, pagãos, hereges e apóstatas. Não me refiro às teocracias ainda existentes em alguns países, mas ao mundo ocidentalizado, pós-Guerra Fria, do século XXI. Lembro-me de quando, no colégio, na agora longínqua década de 90, certo professor de história tocou rapidamente na questão da perseguição às bruxas, ocorrida no limiar entre o medievo e a modernidade europeia. Recordo-me vagamente dele dizer o quanto isso afetou grupos desprovidos de poder, principalmente mulheres e judeus. Quando lembro que o colégio em que estudei a maior parte da infância e adolescência era católico, isso se torna ainda mais admirável.

Não sei como está agora. Espero que não tenha mudado tanto assim. A irmandade por trás deste colégio não era conhecida por ser rígida com relação ao ensino a ponto de censurar professores de humanidades, talvez tenha mudado. Claro, a maioria dos meus professores ainda vivos deve ter votado no Bolsonaro, porém, ainda assim, saber que muitos não votaram me traz um pequeno alívio. Mas esse alívio é pequeno demais e não remove a tristeza e o desespero de saber que, muito provavelmente, parte significativa das pessoas com quem convivi durante a infância e a adolescência, seja no colégio ou fora dele, tornaram-se zumbis nas mãos da idiotia bizarra que foi impulsionada pela internet, em sites extremistas e em redes sociais como Facebook, WhatsApp e Telegram.

Isso vale tanto para o Brasil quanto para os Estados Unidos, onde cursei o último ano do segundo grau e faculdade. Conforta saber que parte dos meus conhecidos de lá não apoiou o homem-laranja, mas é triste saber que muitos deles o defendem e apoiam, talvez a maioria. Esta semana, vários americanos se reuniram em Dallas, no Texas, para aguardar a volta de John F. Kennedy, Jr. Segundo eles, JFK Jr. não morreu em um acidente de avião em 1999, mas fingiu sua morte e passou anos escondido, tramando uma volta triunfal como vice-presidente de Trump — e este seria empossado através de um golpe militar que derrubaria o atual presidente, Biden. A fonte dessa teoria da conspiração lunática? O culto online conhecido por QAnon, que já chegou com força ao Brasil, depois de sair dos Estados Unidos, passado pela Europa, Austrália e outros lugares.
 
Ilustração da morte de Simão de Trento, de Hartmann Schedel, feita em 1493
 
Ao longo de muitas décadas, diversas teorias conspiratórias bizarras foram exportadas mundo afora pela direita americana, um processo que se acentuou nos últimos 20 anos com a expansão absurda da internet. Quem nunca ouviu falar em Nova Ordem Mundial, globalismo, illuminatis, reptilianos e outras sandices? Sandices como a ideia de que discos voadores e ETs são, na verdade, demônios que se disfarçam de alienígenas tecnologicamente avançados para minar a fé dos cristãos em Deus — afinal, a Bíblia não fala de vida inteligente em outros planetas. Não acredita em mim? Procura no Google. Lá você encontra até pastor evangélico famoso falando a respeito, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil (Malafaia, cof cof). Veja que nem mencionei teorias conspiratórias sobre geocentrismo e terraplanismo, que seriam supostos “fatos” acobertados pela Nasa. A Nasa, aliás, também esconderia que nunca fomos à Lua ou sequer saímos de nossa atmosfera.

O QAnon é herdeiro direto de outras teorias da conspiração, como o ridículo Pizza Gate. Supostamente, membros da “elite rica, liberal nos costumes e socialista” americana usariam códigos secretos relacionado à pizza para traficar e abusar sexualmente de crianças. Essa crença imbecil culminou com um tiroteio em uma pizzaria na Carolina do Norte. Em 2016, um homem de quase 30 anos invadiu uma pizzaria perto de onde morava e ordenou que os funcionários mostrassem o calabouço onde mantinham as crianças presas. Detalhe: a pizzaria em questão seria usada por membros da tal “elite bilionária socialista e liberal”, sendo Hillary Clinton uma dessas supostas pessoas. Por sorte, ninguém se feriu gravemente. O local nem sequer tinha subsolo, quanto mais um calabouço. O homem foi preso e condenado a 4 anos.
 
Ele era branco e de direita. Penas brandas para extremistas de direita acabariam se tornando um padrão nos anos vindouros. No dia 6 de janeiro de 2021, seguidores do QAnon invadiram o Capitólio, em Washington DC, logo após um discurso de Trump, com o objetivo de subverter o resultado das eleições em que Biden foi vitorioso. Tirando alguns pobres coitados que acreditavam na mentira de que a extrema-direita americana não é racista, a esmagadora maioria dos invasores do Capitólio era branca e simpatizante do racialismo nazista. Policiais foram agredidos a socos, chutes e pauladas. Um deles morreu ainda no local. Apenas uma invasora morreu. Ela foi baleada enquanto tentava invadir o prédio e agredir violentamente policiais.
 
A invasora morta tornou-se um mártir para os seguidores do QAnon, sendo inclusive homenageada pelo ex-presidente Trump em entrevistas. Por mais que muitos dos que participaram da invasão do Capitólio tenham sido processados, presos e condenados, as penas foram relativamente leves. Compare agora o que ocorre com negros, latinos e manifestantes de centro-esquerda nos Estados Unidos, que quase sempre são tratados com violência pela polícia. Nas palavras de muitos que assistiam a invasão na televisão: se aquelas pessoas não fossem majoritariamente brancas, estaríamos vendo centenas de corpos em volta do Capitólio. Mas o que exatamente é a teoria conspiratória chamada de QAnon?

O QAnon começou depois da posse de Trump, em fóruns de extrema-direita americana na internet. Supostamente, um membro anônimo do alto escalão do governo, com acesso à documentos e informações altamente secretas — “Q clearence” —, criou uma conta fake nesses fóruns para divulgar datas nas quais revelações bombásticas eventos catastróficos aconteceriam. O cerne dessa teoria da conspiração é o seguinte: eles acreditam que existe uma elite de ricos, liberais nos costumes, a favor do socialismo que, além de abusar sexualmente de crianças, tiram o sangue delas para extrair um hormônio mágico capaz de rejuvenescer e causar enorme excitação naqueles que o consomem.
 
Tudo isso seria feito em nome de satanás, é claro — e aqui a teoria da conspiração deixa em aberto, justamente para permitir ao crente interpretar da forma que ele quiser. Se o crente na teoria não for religioso, basta ele acreditar que a elite satânica é doente e age acreditando em algo que não existe. Mas se o crente for religioso, e na maioria dos casos é, ele acreditará que, sim, a elite está mancomunada com o diabo. Uma das previsões originais do QAnon — que não aconteceram — era de que o governo Trump, com a ajuda dos militares, iria prender e executar a elite maligna em um evento chamado “A Tempestade”.
 
Depois dessa previsão fracassada, diversas outras foram feitas, mas nenhuma se realizou. A teoria foi então se adaptando. Trump perdeu as eleições, portanto eles inventaram que foi fraude e que Trump retornaria ao poder com a ajuda dos militares. Até a pandemia de covid-19 foi incorporada. É comum seguidores do QAnon acreditarem que as vacinas contém nanochips satânico-comunistas que destroem o arbítrio das pessoas. A ideia de que existe um grupo rico, que age nas sombras para machucar crianças inocentes com o intuito de conseguir favores sobrenaturais malignos, parece algo criativo, mas não é. Durante séculos, principalmente na Idade Média, mas não só nesse período, cristãos acusaram judeus de fazerem exatamente isso. Há até um termo para esse tipo de acusação difamatória: libelo de sangue.

Em várias ocasiões, durante medievo europeu, centenas de judeus em vilarejos e cidades foram torturados e executados de formas brutais, inclusive na fogueira, acusados de matarem crianças em rituais satânicos macabros para extrair o sangue delas. Um dos casos mais famosos é o de Simão de Trento. Em 1475, um pregador franciscano apareceu na cidade italiana de Trento e realizou sermões difamando judeus locais, que haviam chegado lá alguns anos antes e formado uma pequena, mas próspera comunidade. Pouco tempo depois, Simão, um menino de 2 anos e meio, desapareceu. Seu pai pediu às autoridades locais que procurassem, inclusive nas propriedades dos judeus, o que foi feito. O menino não foi encontrado em parte alguma. Contudo, pouco tempo depois, o corpo do menino foi encontrado imerso em água por um dos funcionários de Samuel, comerciante rico e líder da comunidade judaica de Trento, após ele ter ido buscar água na adega de seu patrão. A causa da morte foi determinada como sendo exsanguinação.

O próprio Samuel e outros judeus foram informar as autoridades sobre a descoberta do corpo de Simão, algo que foi omitido durante o processo que ocorreu depois. Toda a comunidade judaica de Trento foi presa e torturada. Quinze homens, incluindo Samuel, foram queimados vivos. Um dos homens se converteu ao cristianismo e foi poupado, mas sua conversão foi considerada nula depois que ele foi pego participando de cerimônia judaica, e ele também foi queimado vivo. Desesperadas, as mulheres conseguiram argumentar que não participaram do ritual satânico por conta de seu gênero, o que foi considerado verdade. Elas foram libertadas da prisão após uma intervenção do papa. Um século depois, Simão de Trento foi beatificado pelo papa Sisto V. Foi só em 1965 que o papa Paulo VI suprimiu o culto ao menino, por conta de seu caráter explicitamente antissemita.

Alguns desavisados podem vir a achar que não há elementos antissemitas no QAnon, mas estarão enganados, o antissemitismo está muito presente entre os crentes do QAnon. Ocorreram até rachas dentro da comunidade online por conta dessa questão, e não foram apenas meia dúzia de pessoas que seguiram o campo antissemita, mas uma parcela gigantesca dos seguidores do QAnon. Não à toa, durante a invasão do Capitólio, diversas pessoas foram flagradas com camisas que continham dizeres horrendos sobre os judeus. Uma delas afirmava que seis milhões de mortos no holocausto não foram o suficiente.
 
Também se engana quem pensa que essa teoria da conspiração nojenta não vingou no Brasil. Grupos de WhatsApp e Telegram pró-Bolsonaro são majoritariamente habitados por crentes no QAnon. Quem não acredita em absolutamente todas as facetas da conspiração, acredita ao menos em parte. É tragicômico, visto que, por mais que indivíduos sensatos possam rir da burrice daquelas pessoas, elas são idiotas o suficiente para seguirem uma conspiração que nos Estados Unidos e em outros países brancos é abraçada por racistas de ascendência anglo-saxã e nórdica, que jamais aceitariam brasileiros, mesmo aqueles que se consideram brancos e adoram expor suas cidadanias europeias herdadas de bisavós que vieram do velho continente. Até entre políticos bolsonaristas de destaque essa baboseira vingou. A imagem abaixo mostra uma postagem de Roberto Jefferson:
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Como disse no começo, vivemos uma época de perseguição àqueles considerados hereges, apóstatas, bruxas, magos, feiticeiros, ou simplesmente pecadores. E, ao que parece, ela só está no começo. Um império em declínio produz, altera e amplifica a divulgação de crenças bizarras, muitas vezes violentas. A civilização como um todo, que engloba o atual império em decadência, mas é maior do que ele, acaba absorvendo tais crenças bizarras e produzindo monstruosidades adaptadas à realidade local, especialmente em determinadas periferias. Eu, que pertenço a uma dessas periferias, confesso que tenho muito medo do futuro.

por Fernando Olszewski