Baal e Molech: comentário obrigatório sobre Epstein



Há muito tempo eu critico teorias da conspiração. O meu posicionamento sobre elas continua sendo o mesmo que tinha quando escrevi a respeito delas em 2021. Em dois textos daquele ano, o primeiro intitulado QAnon e o libelo de sangue, o segundo A era da loucura total, eu demonstrei total desprezo e repugnância pela mentalidade do conspirólogo, seja ele profissional ou casual. No primeiro texto, o foco era sobre como teorias da conspiração como QAnon nada mais são do que uma repaginação do libelo de sangue perpetrado contra os judeus na idade média europeia. São praticamente os mesmos pontos: a existência de um grupo secreto de vilões que representa algum tipo de alteridade e sacrifica crianças para o diabo a troco de poderes diversos.

Acrescente aí a palhaçada recente de que eles bebem o sangue de crianças amedrontadas e abusadas para se nutrir de adrenocromo e rejuvenescer e pronto, você tem o QAnon e teorias conspiratórias da mesma laia. Já no segundo texto de 2021, foquei na teoria conspiratória histérica contra a vacina da Covid-19. Lá, apontei como vários ricos e poderosos que propagaram na internet teorias anti-vacina pularam a fila para tomar a vacina que tanto criticavam. Isso me levou a concluir que o objetivo deles era que o populacho sofresse ao máximo e morresse por pura diversão, já que uma diminuição drástica no número de trabalhadores historicamente tem o efeito de aumentar os salários. Como salários mais altos não beneficiam as classes dominantes economicamente, o desejo delas de ver pobre sofrer e morrer, mesmo quando isso as prejudicam, explicava a situação.

Pois bem.

Os arquivos liberados e altamente censurados pelo FBI do caso Epstein não mudam em absolutamente nada o meu desprezo por teorias da conspiração e conspirólogos. Até mesmo divulgadores supostamente laicos na internet estão alardeando principalmente as inúmeras denúncias não corroboradas de pessoas nos últimos anos, denúncias cada vez mais fantásticas e de pessoas que comprovadamente tinham zero ligação com Epstein. Essas pseudo-denúncias cresceram nos EUA à medida em que o caso foi se tornando mais famoso, entre 2010 e 2020. Naquele período, apareceram cada vez mais pessoas que simplesmente reportavam fantasias, o que é normal em qualquer caso de grande repercussão. Isso ocorre inclusive em qualquer país do mundo.

Tudo isso foi divulgado em conjunto com os emails verdadeiros de Epstein, esses sim bastante incriminatórios, o que dá a entender que o FBI de Trump jogou uma quantidade exagerada de documentos, inclusive denúncias fantásticas, justamente para afogar a sua análise e confundir quem os lesse. O atual diretor do FBI, Kash Patel, e a atual procuradora geral, Pam Bondi, são dois apontados de Trump extremamente leais ao seu chefe, tendo sido parte do movimento trumpista MAGA e até mesmo arautos do QAnon. O irônico disso tudo é que o movimento MAGA e QAnon, que são irmãos gêmeos, na ânsia por exporem e enforcarem o grupo secreto de abusadores e sacrificadores de crianças que eles acreditavam ser socialistas, elegeu duas vezes um presidente que verdadeiramente tem ligações com o abusador Epstein, um presidente que é, ele mesmo, apontado como possível abusador de menores.

Na semana passada, quando a procuradora geral dos EUA foi questionada em deposição por um congressista republicano sobre o porquê do departamento de justiça atual ou o FBI atual se recusarem a entrevistar sobreviventes comprovadas de Epstein para saberem os nomes de cúmplices, Pam Bondi teve um ataque de pelanca e disse que aquele tipo de questionamento era “Trump derangement syndrome”, um termo que o movimento MAGA usa para acusar qualquer um que critica Trump de louco e que em português significa algo como “síndrome de transtorno de Trump”. Bondi começou a falar sobre como o Dow Jones e a Nasdaq estavam atingindo recordes e por isso a esquerda quer atacar Trump, algo totalmente fora do escopo daquela deposição e nada relacionado ao caso Epstein. Só tem um problema, o congressista que fez a pergunta, como disse, é republicano, e ele próprio defende o governo Trump.

Você pode perguntar: “Mas Fernando, você não disse que teorias da conspiração são ridículas? Como então você fala que Epstein é abusador e que o FBI de Trump tenta confundir as pessoas para tentar ajudar seu chefe a se livrar da sombra das acusações contra ele?” É bem simples. Teorias da conspiração são coisas fantásticas. Conspirações, por outro lado, existem, mas todas elas, especialmente as grandes, não conseguem se manter em segredo eternamente. Aliás, até os teóricos da conspiração concordam com isso, visto que, para eles, nenhuma das conspirações que pregam existir conseguiram permanecer secretas; se tivessem, o teórico da conspiração não saberia delas, não é mesmo? Trump tenta esconder ou diminuir sua ligação com Epstein, mas não consegue, acho que isso nem sequer qualifica como conspiração, visto que está sendo feito praticamente às claras.

O movimento MAGA tenta apontar que Clinton tinha ligação com Epstein. Sim, tinha mesmo. Bastante. E mesmo Clinton visitou a infame ilha de Epstein menos vezes do que Trump, além de ser citado muito menos vezes nos emails de Epstein. Semana retrasada, o casal Clinton disse que irá depor sobre o caso se for chamado pelo Congresso americano, e pediu para que a deposição fosse pública. O governo Trump, no entanto, determinou que a deposição seja sigilosa. Interpretem isso da forma que quiserem. Como aludi antes, tem se focado bem menos nos emails incriminatórios de Epstein do que nas denúncias fantásticas sem corroboração. Parece que muitas pessoas não entenderam que o FBI, pressionado por parte do Congresso e pela população, liberou uma quantidade absurda de documentos relacionados a Epstein, até mesmo pistas e denúncias que jamais poderiam ser verdade, dado as datas dos supostos acontecimentos, entre outras coisas.

Jeffrey Epstein supostamente cometeu suicídio na cadeia em Nova York em 2019, no meio do primeiro mandato de Donald Trump. Há fortes indícios de que ele talvez não tenha cometido suicídio. É verdade. Isso não é uma teoria da conspiração da mesma forma que, quando ainda se investigava o arrombamento do escritório do partido democrata no complexo de Watergate em 1972, a suspeita de que os arrombadores seriam ligados à Richard Nixon não era classificada como teoria da conspiração, muito embora Nixon fosse o presidente dos EUA na época. Quando se descobriu que Nixon provavelmente estava por trás do arrombamento em 1974, no entanto, ele renunciou à presidência e o vice Gerald Ford assumiu. Cada vez mais Trump aparece ligado à crimes muito maiores, mas ele jamais renunciará. Repito: teorias da conspiração são coisas fantásticas; conspirações existem, mas inevitavelmente acabam vendo a luz do dia.

E quanto a Epstein em si? Os emails, como falei, são altamente incriminatórios. Eles também mostram que vários ricos e poderosos mundo afora são grotescos e provavelmente participam de abuso de crianças e talvez até mesmo da morte de várias delas. Dê dinheiro e poder suficiente nas mãos de certas pessoas e elas farão o que já fariam se fossem pobres; afinal, abuso e assassinato de crianças, inclusive praticado por grupos de pessoas, existe até mesmo nas classes mais desfavorecidas. O caso Epstein escancara algo que já se sabe sobre as classes dominantes: elas abusam de seu poder por causa da sensação que têm de estarem acima de qualquer lei. O que o caso Epstein não mostra é que há um culto a Baal ou a Molech, onde o sangue de crianças é extraído para rejuvenescer os membros da seita de bilionários comunistas ateus, muito menos que esse culto existe desde os tempos bíblicos e se estende até hoje, numa linha praticamente inquebrável de iniciação ritualística — mesmo que alguns desses ricaços gostem de se fantasiar em orgias bizarras como no filme De olhos bem fechados. É um passa tempo para eles. Sempre foi.

Sei que não vou agradar a maioria das pessoas, mas esse é o meu comentário sobre o caso Epstein.


por Fernando Olszewski