Carcaças

A carcaça dos irmãos de Witt, de Jan Baen

O município de Jutaí, no Amazonas, tem cerca de 13.500 habitantes. Curiosamente, dados do censo de 2022 mostram que Jutaí se tornou um dos 244 municípios brasileiros em que o número de evangélicos passou o número de católicos. O acontecimento que relatarei a seguir não tem a ver com isso diretamente, visto que crimes bárbaros e linchamentos já faziam parte da cultura brasileira quando ainda éramos considerados “o maior país católico do mundo”. Isso sem falar que essas coisas faziam, e ainda fazem, parte da cultura e da história mundial. Por mais que hoje existam sociedades prósperas muito seguras de se viver, mesmo elas foram palco de brutalidades bizarras, não apenas nas suas colônias, mas dentro de seus próprios países. Mas chega de divagação. Voltemos à Jutaí, no estado do Amazonas.

Em 2024, no município de Jutaí, um homem de 48 anos violentou e assassinou uma bebê de 1 ano de idade. Pelo visto, não havia dúvida da autoria. Ele foi preso e prontamente confessou o crime. Em algum momento da noite, a população invadiu a delegacia onde ele se encontrava, tirou-o de lá à força e prosseguiu a linchá-lo pelas ruas. Quando escrevo população, não falo de uma dúzia de pessoas, nem de algumas dezenas, mas centenas de pessoas participando, incentivando e transmitindo ao vivo nas redes sociais pelos celulares, com direito a incontáveis comentários por escrito comemorando e incentivando o linchamento nas lives. Também assistiam ali na rua, como torcedores, crianças e adolescentes. Algo que me impressionou foi escutar uma mulher, em meio ao pandemônio da fogueira e das madeiradas, falar em voz alta:

Gente, a cabeça do cara explodiu já.

A entonação de sua voz ao dizer isso era de horror e fascínio. E de fato a cabeça do homem explodiu mesmo. Enquanto queimava, muitas pessoas davam madeiradas na cabeça do meliante, inclusive a mãe da vítima, segundo a investigação policial subsequente. Ao final, com a multidão se dispersando voluntariamente para ir dormir, alguns mexiam na gosma que restou com pedaços de pau. A consistência da pele da cabeça lembrava o plástico de um balão de festa estourado, só que de tamanho um pouco maior. A única coisa que indicava que aquilo era um ser humano foi o que ficou do pescoço para baixo, que também estava bastante danificado, mas ainda lembrava o formato de gente. Outras coisas foram feitas que prefiro não descrever, inclusive uma das pessoas comentou sobre ele não sentir mais dor, demonstrando a futilidade de continuar com aquela cena grotesca onde partes específicas estavam sendo queimadas e perfuradas.

Enquanto escrevia A divina comédia, Dante Alighieri forneceu uma descrição detalhada e um tanto quanto realista das desgraças do inferno por ter material de sobra para trabalhar olhando para a realidade. Muito diferente ocorre com o purgatório e, pior ainda, com o céu, que é dominado de luzes cegantes e coisas indescritíveis. O mundo é repleto de acontecimentos horripilantes, e o mundo medieval do qual Dante fazia parte não era exceção, por mais que atualmente alguns coitados tentem romantizá-lo por acharem a contemporaneidade muito ruim de se viver; ela é sim ruim, mas antigamente também era muito ruim. Na verdade, em vários aspectos, era muito pior. Esse tipo de suplício desordenado pelo qual aquele criminoso de Jutaí passou faz parte do patrimônio cultural não só do Brasil contemporâneo, mas da humanidade como um todo.

Em 1672, por exemplo, na cidade de Haia, na Holanda, dois políticos poderosos, os irmãos Johan e Cornelis de Witt, foram linchados por uma multidão furiosa que os culpava pelos revezes sofridos pela Holanda em guerra com a França e Inglaterra. Uma pintura famosa de Jan de Baen retrata o estado em que os corpos ficaram. Eles foram mutilados e tiveram órgãos canibalizados pela turba de pessoas, embora o evento tenha se dado de forma aparentemente organizada e eles tenham sido fuzilados relativamente no início da coisa; o que não serve de consolo para Cornelis, que havia sido torturado antes pelas autoridades. As acusações de traição levantadas contra os irmãos, em especial Cornelis, eram falsas, mas a milícia de Haia, que instigou a cena, não estava nem aí, nem o povo que acompanhou tudo entusiasmadamente.

É difícil não pensar na filosofia de Georges Bataille numa hora dessas, para quem toda a natureza se organiza através do dispêndio de um excesso de energia, e para quem a transgressão sempre causa fascínio. Em obras como A parte maldita, Bataille desenvolve o conceito de economia geral, que vai além do conceito de economia restrita. A economia restrita é aquela que entendemos normalmente como economia, um sistema que administra a escassez de um modo ou de outro, e onde o dispêndio de energia é analisado através da utilidade e do cálculo. A economia geral, porém, é a economia do excesso que não serve a nenhum propósito considerado útil sob a ótica da economia restrita. Para Bataille, sempre há um excesso de energia que precisa necessariamente ser desperdiçado. Isso vem da própria natureza. O Sol emite uma quantidade de energia quase que infinitamente maior do que aquela que atinge a Terra e pode ser aproveitada pelos seres vivos, visto que há um limite para o crescimento deles, além do que, a maior parte da energia emitida pelo Sol se perde no espaço.

No caso do humano, segundo Bataille, esse desperdício historicamente pode se dar de diversas maneiras, algumas delas sagradas, outras profanas. Tanto as formas sagradas de desperdício quanto as profanas são aquelas em que o gasto de energia não traz nada de útil, num sentido concreto e material. Essa energia será desperdiçada de qualquer forma, é inevitável. A parte maldita é aquela que será retirada da parte útil, mas ela em si não servirá para nada sob o ponto de vista da economia restrita. No caso dos sacrifícios humanos, por exemplo, como ocorria em determinadas culturas ameríndias, mediterrâneas e levantinas, a parte maldita era desperdiçada dentro do contexto da festa ou do ritual, eventos que visavam tocar o sagrado de alguma forma, fazendo com que aquela experiência limite sofrida pela vítima retornasse o grupo temporariamente à imanência da qual a humanidade foi separada, pelo menos simbolicamente.

No caso de linchamentos, eventos coletivos e caóticos diferentes de rituais de sacrifício, o extravasamento da energia se aproxima de uma demonstração profana de desperdício, independentemente da vítima ser ou não culpada na minha opinião, embora o fato de que ela seja realmente culpada possa trazer a sombra da utilidade ao evento, algo que o devolveria à esfera da economia restrita. Desta forma, pode-se pensar que a morte do homem linchado tenha uma utilidade para a sociedade, que é a de prover justiça às vítimas e aumentar a segurança das pessoas, apesar da espetacularização e do simbolismo que o evento do seu linchamento traz. Aliás, sobre a espetacularização, Bataille também é bastante pertinente, visto que ele também vê no grotesco uma experiência limite a qual nós nos sentimos atraídos. Em O erotismo, Bataille escreve:

No sacrifício, a vítima é despojada não apenas de suas roupas, mas também de sua vida (ou é destruída de alguma forma, se for um objeto inanimado). A vítima morre e os espectadores compartilham o que sua morte revela. É a isso que os historiadores da religião chamam de elemento de sacralidade. Essa sacralidade é a revelação da continuidade através da morte de um ser descontínuo para aqueles que a assistem como um rito solene. Uma morte violenta rompe a descontinuidade da criatura; o que resta, o que os espectadores tensos experimentam no silêncio subsequente, é a continuidade de toda a existência com a qual a vítima agora se torna uma. Somente um assassinato espetacular, realizado conforme dita a natureza solene e coletiva da religião, tem o poder de revelar o que normalmente passa despercebido. Aliás, seríamos incapazes de imaginar o que se passa nas profundezas secretas das mentes dos espectadores se não pudéssemos recorrer às nossas próprias experiências religiosas pessoais, ainda que apenas as da infância.

Apesar de Bataille deixar claro que fala aqui de sacrifícios feitos dentro de regras solenes, penso que o fascínio pode sim ser estendido à observação coletiva da violência grotesca e gratuita, em especial quando essa violência é praticada coletivamente. Diria, inclusive, que esse fascínio se estende até mesmo ao homicida particular, embora suas ações não estejam tanto dentro do escopo da economia geral, mas da restrita, num sentido batailleano. A ideia da transgressão aqui é chave. Sobre a transgressão, ainda em O erotismo, ele escreve:

As origens da guerra, do sacrifício e da orgia são idênticas; elas brotam da existência de tabus estabelecidos para contrabalançar a liberdade no assassinato ou na violência sexual. Esses tabus inevitavelmente moldaram a onda explosiva de transgressão.

Novamente, ele se refere a eventos coletivos, não às ações de um assassino depravado. Mas, ainda na minha opinião, o linchamento ocorrido em Jutaí desse assassino depravado, linchamento perpetrado por uma turba de pessoas revoltadas e sedentas por justiça sanguinária, seria sim uma transgressão de acordo com o pensamento de Bataille, além de ser uma forma profana de eliminação da parte maldita necessariamente destinada ao dispêndio em qualquer sociedade.

Apesar de fascinante e apesar de concordar à minha própria maneira com algumas dessas teses, continuo mais do lado do pensamento de Espinosa como retratado no seu Tratado teológico-político e na Ética, onde ele aponta a irracionalidade de rituais como uma espécie de tentativa de troca com um sobrenatural passível de ser influenciado, algo impossível para Espinosa, já que Deus, que para ele nada mais é do que a existência em si, é necessidade. Rezar e praticar cultos não altera o curso da realidade. A utilidade dos rituais, caso tenham, não está atrelada a uma verdade sobrenatural, porque ela não existe. Embora não diga de maneira explícita, é possível presumir que Schopenhauer pensasse da mesma forma, visto que nesse aspecto ele elogia bastante o pensamento de Espinosa. Um ritual de sacrifício, ainda mais humano, é no final das contas uma prática irracional. Ela pode ter todas as justificativas culturais possíveis, mas continua não sendo nada além de superstição.

O que há é caos, brutalidade e inferno, porque a base do mundo do devir é manifestação pura, indiferente e sombria; i.e. vontade. Qualquer ordem que existe é completamente alheia aos nossos anseios e à nossa razão. Nós, homens, sempre buscamos construir uma fortificação, seja ela metafórica ou real, para nos protegermos do inferno do real, que diferentemente do que pensava Hegel, não é racional, apesar de ser ordenado. A racionalidade está no humano, por força do acaso, e ainda assim não é sempre exercitada. Poderíamos muito bem termos nascido imbuídos apenas de vontade e instinto, como no caso dos outros animais. De certa forma, nascemos, visto que nada somos além de representações efêmeras da mesma vontade que anima todo o resto da realidade. Somos capazes de compreender o todo, entender a ordem e a regularidade que se apresenta no mundo; mas o mundo em si não é, ele próprio, racional, nem muito menos tem um propósito. Nossas fortificações caem a toda hora, por mais que acreditemos termos construído muralhas resistentes que nos separam do horror que jaz no mundo.

No romance Coração das trevas, do escritor Joseph Conrad, o personagem principal, o marinheiro inglês Charles Marlow, conta a história de quando foi trabalhar como capitão de barco à vapor numa companhia de comércio de marfim no Congo, então colônia belga. Ele relata a brutalidade e a indiferença da administração da empresa para com os africanos e a demora de dias para chegar na estação central, onde encontra o barco que iria pilotar no rio Congo danificado. Com pouco acesso a ferramentas, Marlow demora meses para consertar o barco e, nesse tempo, vai descobrindo que o chefe de posto que deveria encontrar rio adentro, o Sr. Kurtz, considerado excelente pelo contador chefe da companhia, teria adoecido. Quando finalmente alcança Kurtz, Marlow descobre que ele não apenas está doente com febre, como enlouqueceu há um bom tempo. Seu posto é rodeado de cabeças de nativos decepadas e o próprio Kurtz induziu os nativos a venerá-lo como uma divindade.

Apesar de Marlow trazer Kurtz ao barco para retorná-lo à estação central, Kurtz volta ao seu posto e Marlow novamente sai para buscá-lo, num momento de tensão. Na viagem de volta, Kurtz piora de saúde e pede para Marlow não dar seus papéis para o administrador da companhia. Kurtz, moribundo, começa a lembrar de alguma das várias atrocidades que cometeu e sussurra:

O horror! O horror!

Marlow retorna à Europa, mas passa a sentir um ressentimento com o verniz de civilização que o cerca. Um ano depois, ele visita a noiva que Kurtz havia deixado para fazer fortuna na África, e ela o implora para saber quais foram as últimas palavras do seu grande amor. Marlow, desesperado, não quer contar para ela. Na narração de Marlow:

Eu estava prestes a gritar para ela: “Você não as ouve?” O crepúsculo as repetia num sussurro persistente ao nosso redor, um sussurro que parecia crescer ameaçadoramente como o primeiro sussurro de uma ventania que se levanta. “O horror! O horror!”

Marlow a poupa dos detalhes da loucura monstruosa de seu noivo e inventa que a última coisa que Kurtz disse foi o nome dela. Diversas pessoas reais foram apontadas como inspiração para o personagem do Sr. Kurtz. Várias delas participaram de uma malfada e patética expedição europeia e americana em auxílio de Mehmet Emin Pasha, um médico judeu de origem alemã que se tornou otomano e acabou como governador de uma província egípcia no que hoje é o Sudão do Sul. A expedição ocorreu entre 1887 e 1889. Durante uma revolta, Emin ficou encurralado e ricaços europeus e americanos resolveram, sei lá por que cargas d'água, organizar uma grande expedição para ajudá-lo. Várias barbaridades ocorreram, diversos membros do grupo morreram de doença, assassinato e loucura, mas um deles me chamou a atenção pela brutalidade de suas ações.

O herdeiro, viajante e naturalista escocês, James Sligo Jameson, neto do fundador do whisky Jameson, comprou o direito de participar da expedição. Durante um episódio deplorável, ele se aproveitou do fato de diversas tribos na bacia do Congo praticarem escravidão e canibalismo frequente, incluindo o canibalismo puramente por razões culinárias, para assistir a morte e a canibalização de uma menina de 10 anos de idade. Fascinado pela ideia de canibalismo, Jameson foi instigado pelo poderoso senhor e comerciante de escravos omani, Hamad bin Muhammad bin Juma bin Rajab el Murjebi, conhecido pelo apelido de Tippu Tip. Tippu Tip, um dos últimos grandes donos e comerciantes de escravos da África, acompanhava a expedição, pois havia negociado ajudá-la. Para que Tippu Tip comprasse a menina e armasse a cena, Jameson só precisou dar 6 lenços de bolso aos nativos. Tempos depois, ainda na África, Jameson adoeceu e morreu de febre.


por Fernando Olszewski