Não há luz. Não há esperança.
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| Stanczyk, por Jan Matejko |
Adquira meu curso sobre pessimismo! Por apenas R$ 99,90 vou te ensinar que a vida é uma porcaria e que teria sido melhor não ter nascido! É um conhecimento libertador que vai potencializar a sua vida! Depois que a gente nasce, nada pode nos salvar. Estamos aprisionados nesta carne decadente do momento em que adquirimos consciência até o momento em que a perdemos na morte. Mas, comprando o meu curso, você vai sofrer do mesmo jeito que sofreria sem ter comprado enquanto enche o meu bolso de dinheiro. Aliás, você talvez sofra ainda mais, já que terá desperdiçado grana numa coisa dessas. Não perca tempo com produtos da concorrência. Esqueçam estoicismos, cristianismos, budismos e afins. Você será realmente liberto apenas quando aprender que teria sido melhor não termos nascido através do meu curso! Se comprar hoje até às 20:00 você receberá um cupom de aumento de preço, fazendo com que o curso salte de R$ 99,90 para R$ 199,90! Dessa forma, já começará o curso aprendendo que existir é frustrante de maneira prática.
Perdão. Às vezes não dá para não ser debochado com o estado das coisas no mundo.
Nem mesmo um assunto tão nichado e que é extremamente caro para mim é salvo do “empreendedorismo” nosso de cada dia, tão comum na era da internet e das máquinas pensantes. Longe de mim dizer que não gostaria de fazer dinheiro suficiente para me sustentar escrevendo e falando sobre pessimismo filosófico, um assunto que gosto e ao qual tenho dedicado minha breve carreira acadêmica até agora, mas uma coisa que nunca vai acontecer é me vender como um solucionador de problemas, como alguém que vai ajudar você a resolver a sua vida. É legal que algumas pessoas que leem meus textos e escutam as gravações que faço deles se sintam bem, especialmente quando elas antes achavam que estavam sozinhas em pensar que não ser é melhor do que ser, intuição que é a alma do pessimismo filosófico. Esse é um pensamento ultraminoritário que vai contra centenas de milhões de anos de seleção natural, além ir contra dezenas de milhares de anos de seleção cultural humana. É gratificante, sim, quando um texto ou vídeo meu mostra aos outros que eles não estão sozinhos ao intuírem que teria sido melhor que a superfície da Terra fosse tão cristalina quanto a da Lua, como escreve Schopenhauer nos Parerga e Paralipomena. Foi uma das principais razões pelas quais eu resolvi começar a falar sobre pessimismo publicamente, porque sei que muitos se sentem sós pensando dessa forma.
Mas há um universo de distância entre isso que faço e vender um pessimismo empresarial regrado à papo de coach, um pessimismo empreendedor que diz que sua vida se tornará melhor e fará tudo valer a pena. Especialmente quando o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa fabricam desde o texto até os vídeos e tudo mais.
Entenda, eu não sou um fanático anti-inteligência artificial. Acho que é uma tecnologia que, como todas as outras, pode ser usada tanto de forma positiva quanto de forma negativa, muito embora os efeitos negativos até o momento tenham se mostrado absurdamente mais prevalentes, a ponto de ser quase impossível pensar em algo que preste. Com relação à minha seara, que é a escrita e a exposição de pensamentos filosóficos relacionados ao pessimismo, uma das maneiras que acredito que a IA poder ser positiva é no auxílio na correção gramatical de textos. Mas mesmo nesse caso, o autor do texto precisa ser minimamente versado na língua ou línguas em que escreve. Além disso, talvez, e aí já está se chegando no limite do aceitável para mim, a IA generativa também possa auxiliar na correção de conteúdos de um texto. Porém, nesse caso, o autor precisa ser bastante versado no conteúdo, caso contrário, a IA pode muito bem falar um monte de merda e inventar referências que simplesmente não existem, principalmente se, no caso, o “autor” for na verdade um pseudoautor e estiver relegando o trabalho de escrever à inteligência artificial generativa, o que fica escancarado para qualquer pessoa que tenha o hábito de ler autores reais. Isso da IA fabricar referências mentirosas não é mito, acontece frequentemente e tem sido um pesadelo para professores universitários e de ensino médio.
Dito isso, eu acho muito escroto a fabricação em massa de textos, áudios e vídeos que a IA generativa trouxe ao mundo. Os que se aproveitam disso falam em “democratização”, seja democratização da arte ou de qualquer outra coisa. Democratização uma ova. O artista verdadeiro sangra para colocar a sua arte no mundo, arte essa que depois é copiada e vomitada por IAs generativas. Tanto no caso da arte, quanto no caso de coisas como conhecimento científico e filosófico, a alegação que a IA ajuda a “democratizar” o mundo é espúria, visto que o camarada que a usa para fabricar uma arte ou um texto de ciência ou de filosofia, na vasta maioria das vezes, nem se dispõe a aprender o que quer que a IA esteja defecando para ele. Não à toa temos essa gigantesca quantidade de lixo completamente fabricado que é postado a cada hora na internet quando falamos de ciência e filosofia. Veja bem, humanos também podem escrever coisas erradas por ignorância. Eles também podem escrever algo que defendem estar certo, mas que outros não concordam, como no caso de posições heterodoxas ou minoritárias. Nesses casos, podem haver debates, discussões, trocas de ideias ou o que quer que seja. Já no caso de coisas feitas por máquinas, não, porque a pessoa que coloca isso num vídeo ou num blog mal entende do que está falando, ela nem sequer pode realmente defender o posicionamento. Até porque nem sequer há paixão alguma dela por aquele posicionamento, o seu objetivo é postar e monetizar ao máximo.
Isso me leva a outra questão, que é a mais importante para mim: o “defecamento” de conteúdo genérico é algo sem alma. Sim, a vasta maioria das coisas feitas em massa antes da IA já não tinham alma alguma, é verdade. A IA não inventou o trambique. Mas a IA permitiu a massificação em escala industrial desse “defecamento” desalmado que só os trambiqueiros são capazes de nos prover. Foi como abrir as comportas de uma represa que mal segurava todo o esgoto do mundo. Antes, o esgoto vazava bastante pelas frestas do muro colossal que o continha. A IA generativa foi como um míssil que explodiu as comportas da represa de merda de vez, o que inundou o mundo com o lixo desalmado dos trambiqueiros que querem dinheiro fácil. De certa forma, eu entendo quem usa essas ferramentas para defecar textos e vídeos em massa. Vivemos num mundo cão. Precisamos de dinheiro se quisermos comer. Temos que pagar contas. Queremos, além de pagar contas, viajar, ter carro e casa decentes. O incentivo para fazer esse tipo de coisa já estava dado muito antes da IA generativa vir ao mundo. Como disse, a IA não inventou o trambique. Ela só o facilitou. Podemos até dizer que a verdadeira democratização da IA foi a democratização do trambique.
Eu entendo que sou extremamente privilegiado por não me ver sob o encanto desse incentivo financeiro a ponto de vender a minha alma para a fábrica de textos e vídeos, quer dizer, a ponto de não me render ao trambique da massificação fácil trazido pela IA generativa. Mas, além de ter a sorte do privilégio, também tenho uma mentalidade que é de certa maneira elitista e esnobe quanto ao que faço. Escrever meus textos, e depois ler meus textos nas gravações que faço para YouTube e Spotify, são coisas que considero importantes demais a nível pessoal, coisas que me dão prazer e que quero mostrar. De certa maneira, eu me acho grande coisa. Por mais que duvide de mim mesmo, por mais que me autodeprecie o tempo todo, por mais que me xingue de imbecil a cada hora que estou acordado, paradoxalmente eu também me vejo como alguém que sabe expor bem as próprias ideias, angústias e dúvidas através da escrita, apesar dos vícios gramaticais e conceituais que cometo. Mas quem não comete erros escrevendo, não é verdade?
Deu um trabalho da porra e ainda dá muito trabalho escrever. Escrever é uma arte que necessita de constante manutenção e onde sempre se erra. No caso das gravações, deu e ainda dá um trabalho da porra gravar leituras no Audacity com um microfone que nem sequer é top de linha. Deu e ainda dá trabalho do cacete editar os vídeos simples que eu faço para o YouTube no DaVinci Resolve. Deu trabalho escrever o meu livro, Procissão de Dor, e aprender a editar tanto a versão para Kindle quanto a versão física, na qual utilizei o Scribus, um programa gratuito que faz basicamente a mesma coisa que o Adobe InDesign. Além de tudo, é um trabalho ingrato, porque tive zero recompensa em termos materiais, apesar de conseguir vender o livro aqui e ali, e apesar de ter conseguido monetizar o canal do YouTube recentemente; mas até agora, passados vários meses desde que consegui monetizar, ainda não consegui juntar o mínimo para ser pago, para vocês verem a desgraça que é. Levei mais de quatro anos para conseguir ser apto a monetizar o canal, apenas para demorar praticamente meio ano para conseguir ser pago menos de meio salário mínimo, algo que espero que aconteça mês que vem, em junho.
Por sinal, falando no livro, estou em vias de corrigir ambas as versões, tanto a do Kindle quanto a versão física. Estou para fazer isso tem um bom tempo, porque que há erros de português aqui e ali, o que é normal para qualquer ser humano, ainda mais quando ele publica por conta própria; aliás, mesmo quando um livro é publicado por uma editora, erros de escrita volta e meia ainda assim passam pela edição e chegam às livrarias. É normal; exceto, talvez, quando se utiliza máquinas para fazer tudo. Aí os erros não são tanto de português, mas de estilo, já que o texto fica uma merda de ler para qualquer um que tenha o hábito da leitura, além de ficar uma merda em termos de conteúdo, como ocorre quando IAs deliram sobre coisas que não correspondem com a realidade em questões científicas, filosóficas, históricas, etc.
Isso não é um trambique para mim. Não é um negócio. Não escrevo e gravo a leitura desses textos, nem escrevi um livro e publiquei por conta própria por achar que isso seria uma boa decisão financeira. O que vier disso está bom. Inclusive planejo num futuro muito próximo abrir espaço para quem quiser contribuir financeiramente com o meu trabalho aqui na internet. Se um dia faturar milhões falando sobre como a existência sensível é um pesadelo onde o atrito doloroso é a regra universal inescapável, ótimo. Se não ganhar, ótimo também, porque meu intuito primário é botar para fora o que eu passei a pensar e sentir ao longo desses mais de 40 anos. É algo pelo qual alterei o curso da minha vida para me dedicar a estudar academicamente, inclusive. Não que tenha deixado uma carreira brilhante para trás. Pelo contrário, tinha fracassado em várias frentes. A profissional foi apenas uma delas. Inclusive foi ter provado de revezes em várias frentes da vida que me fez finalmente dar uma chance para a filosofia, assunto pelo qual nunca me interessei e do qual desdenhei até não poder mais durante as aulas que tive no segundo grau, lá na longínqua década de 1990. Não sou novo. Em termos intelectuais e morais, o eu jovem-adulto não me reconheceria e teria nojo do eu de quase meia-idade, e de certa forma o eu de quase meia-idade, o eu de agora, do ano de 2026, tem vergonha e pena daquele eu que tentei ser e que fui.
O que me faz pensar ser engraçado quando as pessoas ficam revoltadas ao comentarem meus ensaios sobre budismo, me chamando de niilista, algo que num sentido existencial até sou, mas no sentido moral, não. É estranho, porque eu antes era um belo de um afirmador da vontade de vida, e como todo afirmador da vontade de vida, como a vasta maioria dos seres vivos, eu era um belo de um causador de estragos e dores. Era orgulhoso, até. Agora que estou do lado daqueles que negam a vontade de vida, do lado dos pessimistas e dos antinatalistas, tenho compaixão até mesmo por baratas e ratos de esgoto, seres que tenho aversão e repulsa, justamente por ver neles a ânsia cega pela afirmação de si a todo custo numa existência fadada ao fracasso e sem razão de ser além da mera manifestação. Mas ao mesmo passo que tenho compaixão, tenho inveja, porque baratas e ratos de esgoto não foram amaldiçoados pela natureza com uma consciência de si tão desnecessariamente profunda. É quase a mesma inveja que sinto das pessoas brutas, que não refletem a respeito de nada. Só não sinto tanta inveja das pessoas brutas porque eu fui uma delas e sofri muito mais do que sofro hoje que sou pessimista e defendo que teria sido melhor nunca ter nascido. Afirmar a vontade de vida traz mais sofrimento para si e para os outros do que negar.
Essas coisas têm um significado para mim que vai além de qualquer ganho material que eu possa um dia ter escrevendo e falando sobre elas. A massificação de tudo, inclusive de algo que tem tamanha importância na minha vida e que nem sequer é muito reconhecido fora de um nicho muito específico de pensamento, é uma droga. Nada mesmo está a salvo da trambicagem com notas de igreja pentecostal e teologia da prosperidade, nem mesmo o meu querido pessimismo. Mas não adianta muito reclamar. Certos mesmo estão os ascetas, os sábios que já deixaram tudo para trás e que, no máximo, ajudam os outros com comida e palavras de conforto. Para esses, não importa que mesmo as suas crenças mais íntimas sejam violadas nojentamente por vendilhões da fé, justamente porque eles já se desapegaram desta bosta de mundo. Podem passar anos praticando o hesicasmo em total isolamento contemplativo num mosteiro, ou em meditação anapanasati profunda no meio da floresta, parando apenas para servir aos pobres. Para eles, pouco interessam desgraças mundanas como o trambique, seja o antigo ou o moderno, porque o mundo é ele próprio uma desgraça desde sempre. Estaria mentindo se dissesse que não invejo a determinação deles, além da capacidade que eles têm de render seu senso crítico e acreditar em histórias que violam todas as leis da natureza.
Se existisse uma igreja ou templo que nos preparasse para a morte, a verdadeira morte, e não martelasse em nossas cabeças fantasias eternalistas de mais vida, o que é em si um terror, exceto para aqueles que não entendem o que realmente é a vida, eu me tornasse fiel dessa igreja. Estaria lá todos os dias santos, louvando em êxtase o evangelho da aniquilação final. Mas talvez já tenha me tornado um de seus membros ao abraçar a filosofia, especialmente o tipo de filosofia da qual vivo falando, o pessimismo, e não a religião, nem a autoajuda disfarçada de filosofia. Mas eu noto que existe limites até mesmo na picaretagem. Por exemplo, que picareta teria coragem de botar a cara para vender a solução de Philipp Mainländer para a vida? O pessimismo de Mainländer nunca será defendido pelos picaretas, com toda a certeza. Eles são espertos o suficiente para entenderem que não apenas seria ilegal monetizar essa filosofia, mas até mesmo pregá-la de graça, principalmente em lugares incivilizados que nem sequer pensam em permitir a morte assistida para doentes terminais que definham sem a menor esperança de melhora. Os picaretas não teriam como lucrar e se prejudicariam, essa é a razão pela qual não tocariam em ideias que favorecem o auto-aniquilamento de maneira tão contundente e ativa.
No final, a culpa é minha se fico frustrado com o fato de mercantilizarem chulamente algo que é importante para mim e que quase ninguém fala da maneira que eu falo, quero dizer, de uma forma apologética e não simplesmente de uma forma didática e supostamente imparcial. Sou burro de esperar que seria diferente com a filosofia que defendo só por que a filosofia que defendo não é tão comum assim. Que fique a lição para mim. Para todos nós, na verdade. Não há nada sagrado ou inviolável nesta existência. Quem diz que há, é burro ou mente. Não há luz e nem esperança neste ou em qualquer outro mundo. Todos os valores positivos que erguemos são corroídos pelo próprio devir mesmo quando eles não são diretamente atacados por outras forças naturais ou por outras pessoas. Só o mero existir já dissolve o que somos e o que construímos. Viemos do pó e para o pó retornamos, mas não sem antes sentir cada momento da corrosão proporcionada pelos ventos da existência. E, para piorar, uma das coisas mais frustrantes, quando tratamos especificamente do ser humano, é o seguinte: enquanto que não há luz e nem esperança na existência, há “empreendedorismo” de sobra para deixar o mundo ainda mais repugnante.
por Fernando Olszewski
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