O pessimismo filosófico ou cósmico gira em torno da conclusão de que o fenômeno da vida não é especial para o universo, que o sofrimento é intrínseco à existência sensível e, portanto, a nossa resposta ética deveria ser a rejeição da existência. Os filmes que trarei aqui mostram um universo não liga para os nossos sofrimentos, nem para as nossas lutas ou desejos de melhora. Esses filmes podem ser tomados por essa perspectiva do início ao fim, ou, pelo menos, têm partes marcantes que tocam nessa ideia. Embora forneça uma sinopse de cada filme, não entrarei em todos os detalhes, nem analisarei cada um dos personagens ou cenas. O que farei é apenas um apanhado geral. A lista que faço não é exaustiva e planejo acrescentar novos filmes no futuro.
Atenção: esta lista contém spoilers.
──────── ❡ ────────
Ao Limite do Suicídio (The Sunset Limited), 2011, dirigido por Tommy Lee Jones

O filme é baseado numa peça escrita por Cormac McCarthy, o mesmo autor do livro (que gerou o filme) Onde os Fracos Não Têm Vez. A estrutura de Ao Limite do Suicídio é minimalista. A história toda se passa num pequeno apartamento, numa área pobre da cidade mais rica do mundo, Nova York. Há apenas dois personagens dialogando. Ao longo da conversa, descobrimos que os personagens se conheceram na manhã daquele dia e um deles, religioso, impediu que o outro cometesse suicídio jogando-se na frente de uma composição de metrô. A partir daí, desenrolam-se questionamentos sobre a fé religiosa de um e o niilismo extremamente sombrio do outro. Há uma excelente exposição do pensamento pessimista em que o niilista explica para o religioso que a evolução inevitavelmente produz animais capazes de entender a futilidade de todo o processo da vida e que a conclusão lógica deste processo é o suicídio. Num determinado momento, o religioso pergunta: “Se estou entendendo corretamente, você quer dizer que todo mundo que não é um imbecil deve cometer suicídio?”, ao que o niilista responde afirmativamente.
Chinatown, 1974, dirigido por Roman Polanski

Clássico do neo-noir, o filme se passa na década de 1950 e segue Jake Gittes, um detetive particular que descobre uma trama de pessoas poderosas para adquirir terras valiosas na Califórnia a um preço muito abaixo do seu valor de mercado. Durante a investigação, Jake se envolve com a filha de um desses poderosos, Evelyn Cross, que fora estuprada pelo pai, Noah Cross, quando ela tinha apenas 15 anos. Desse estupro, nasceu uma filha. Jake tenta ajudar as duas a fugir para o México, mas o plano não dá certo. Noah e seus capangas descobrem o esconderijo de sua filha e filha-neta no bairro chinês de Los Angeles. Lá, a polícia já espera por eles, pronta para servir ao poderoso Noah. Evelyn não aceita voltar com seu pai e tenta fugir de carro junto com sua filha-irmã. A polícia dispara em direção ao veículo, matando Evelyn com um tiro na cabeça. Noah leva sua filha-neta embora e a polícia solta Jake, já que o objetivo principal de Noah era apenas recuperar suas filhas, especialmente sua filha-neta, quem ele provavelmente irá estuprar pelo resto da vida.
Aniara, 2018, dirigido por Pella Kågerman e Hugo Lilja

O filme é baseado no poema épico de Harry Martinson. Num futuro não tão distante, o ecossistema da Terra está devastado e as pessoas estão se mudando para Marte. Aniara, uma nave luxuosa, leva milhares de passageiros da Terra até Marte em três semanas. No que era para ser mais uma viagem, Aniara acaba sendo atingida por detritos de outra nave e, para não explodir, ejeta seu combustível nuclear. Isso incapacita Aniara, que agora não pode mais ser guiada e está indo numa direção aleatória, rumo a constelação de Lira. O capitão e a tripulação tentam esconder isso para não criar pânico entre os passageiros, mas aos poucos a verdade é revelada. Alguns passageiros caem no desespero, outros no hedonismo. No quarto ano, o número de suicídios aumenta e surgem seitas dedicadas à fertilidade. A protagonista e sua namorada, Isagel, participam de uma orgia e Isagel engravida. A protagonista fica feliz, mas Isagel começa a perder as esperanças. No quinto ano, depois de tentativas frustradas de consertar Aniara, Isagel afoga seu bebê e depois se suicida. No décimo ano, a protagonista recebe uma medalha do capitão e nota que os pulsos dele têm curativos em cima de cortes. Os tanques de alga, que foram usados para produzir oxigênio e comida ao longo dos anos, são contaminados. No vigésimo quarto ano, a protagonista e poucos sobreviventes estão na escuridão, cegos, meditando sobre a quente luz do Sol. No ano 5.981.407, Aniara, já sem vida há milhões de anos, passa na frente de um planeta esverdeado na constelação de Lira.
Seven, 1995, dirigido por David Fincher

O detetive William Somerset, que está prestes a se aposentar, pega um último caso com o recém-chegado detetive David Mills. O caso envolve um assassino em série que mata suas vítimas de acordo com os sete pecados capitais. As primeiras vítimas representam gula, avareza, preguiça, luxúria e soberba. No curso da investigação, Somerset e Mills ficam próximos. Somerset é convidado para jantar com Mills e sua esposa. Dias depois, ela revela para Somerset que está grávida de Mills, algo que Mills ainda não sabe. Antes que os detetives pudessem chegar mais perto do misterioso assassino, ele próprio se entrega à polícia, e, através de seu advogado, revela que existem mais duas vítimas enterradas no deserto fora da cidade. Porém, o assassino só revelará a localização se Somerset e Mills forem sozinhos com ele até o local. Chegando lá, um caminhão de entrega aparece na estrada de terra. Somerset o intercepta, deixando Mills tomando conta do assassino, que está algemado e de joelhos. Somerset abre a caixa entregue pelo motorista do caminhão, que nada tinha a ver com a história, e dentro vê a cabeça da esposa de Mills. Somerset corre para tentar desarmar Mills, mas o assassino conta o que fez, além de contar que a mulher de Mills estava grávida e que a matou pois tinha inveja (um dos pecados capitais) da vida de Mills. Somerset tenta convencer Mills a não atirar no assassino, mas Mills não aguenta e descarrega sua pistola na cabeça do lunático, tornando-se a ira, o sétimo pecado capital.
O Silêncio do Lago (Spoorloos), 1988, dirigido por George Sluizer

Rex e Saskia são um casal viajando entre a Holanda e a França de carro. Após uma briga na estrada em que Rex sai do carro e deixa Saskia sozinha, eles fazem as pazes e Saskia faz Rex prometer que nunca irá abandoná-la novamente. Mais à frente, num posto movimentado de beira de estrada, Saskia desaparece após sair para comprar refrigerantes. Três anos se passam, Rex tem uma nova namorada, mas nunca deixou o caso para trás, pagando por cartazes e até aparecendo na TV para suplicar ao sequestrador para que ele ao menos diga o que aconteceu. Então, o sequestrador, um professor universitário de química, oferece mostrar o que aconteceu com Saskia. Ele busca Rex na Holanda e, no caminho de carro até a França, conta que descobriu ser um sociopata quando era adolescente, mas que passou a ter família e viver uma vida normal. Um dia, passeando com suas filhas, ele salva uma garotinha de afogamento. Ali, ele passa a querer saber se, além de salvar uma vida, ele também era capaz de algo horrível. Ele oferece a Rex a possibilidade de saber exatamente o que aconteceu com Saskia, mas somente se Rex tomar um sonífero. Rex reluta, mas sua angústia o faz beber a droga. Momentos depois, ele acorda e percebe que está enterrado num caixão e entra em desespero. Esse havia sido o destino de Saskia anos antes: morrer lentamente enterrada viva. O assassino segue sua vida normalmente.
Melancolia (Melancholia), 2011, dirigido por Lars von Trier

O filme começa na desastrosa festa de casamento de Justine, na mansão de sua irmã e cunhado, Claire e John. Diversos dramas ocorrem e o casamento de Justine acaba ali mesmo. Porém, antes de toda a comoção, John, que gosta de astronomia, nota que uma estrela não está aparecendo no céu, mas ninguém liga. Na segunda parte do filme, Justine, que está em depressão profunda, é trazida para a mansão. Descobrimos então a razão pela qual a tal estrela estava encoberta naquela noite, meses atrás: um planeta errante, que vaga pelo espaço sem rumo, estava cobrindo sua luz, avançando em direção à Terra. Claire teme uma colisão, mas John tenta tranquilizá-la, afirmando que o consenso científico é de que não há perigo, pois o planeta, apelidado de Melancolia, passará pela Terra sem nos atingir. Melancolia é algumas vezes maior do que a Terra e, caso colidisse conosco, aniquilaria toda a vida. Numa passagem emblemática, Justine diz para Claire que não existe vida fora da Terra, que ela consegue sentir que estamos sozinhos no universo. Ela também diz que toda a vida é má e merece acabar, algo que ela afirma que Melancolia fará ao colidir com o nosso planeta. Finalmente, o dia em que Melancolia cruzará com a Terra chega. John, que acreditava no consenso científico, percebe que Melancolia na realidade se chocará com a Terra e comete suicídio. Claire, desesperada, se agarra à Justine nos seus últimos momentos de vida. Justine, por sua vez, está em paz com a aniquilação total.
O Nevoeiro (The Mist), 2007, dirigido por Frank Darabont

Adaptado de um conto de Stephen King, a história se passa numa cidadezinha no interior dos Estados Unidos que é coberta por um nevoeiro misterioso, que traz dentro de si monstros abomináveis e sanguinários. Dezenas de pessoas se refugiam no mercado da cidade. Desesperados e divididos por fanatismo religioso, alguns humanos começam a querer matar os outros. Um grupo de pessoas sensatas, dentre eles um pai, David, e seu filho pequeno, conseguem escapar do caos para dentro de um dos carros no estacionamento. Liderados por David, eles dirigem horas procurando o fim do nevoeiro, mas encontram apenas morte e destruição. O nevoeiro e os monstros parecem ter tomado o planeta. Armados com um único revólver e poucas balas, os adultos decidem cometer suicídio, enquanto o filho de David, a única criança, dorme. David atira em todos, inclusive no seu filho, mas suas balas acabam. Desesperado, ele sai do carro, esperando ser devorado pelos monstros, mas nada acontece. É aí que vemos um enorme grupo de blindados e tanques fortemente armados, matando e incendiando as criaturas. Vendo que estavam prestes a serem salvos, David começa a gritar.
Viveiro (Vivarium), 2019, dirigido por Lorcan Finnegan

O casal Tom e Gemma vai até uma corretora e encontra um estranho funcionário chamado Martin, que apresenta a eles o conceito de Yonder, um bairro de casas padronizadas. Martin convence o casal a dar uma olhada em Yonder e, depois de visitarem a casa, Tom e Gemma são abandonados lá. Os dois tentam por horas sair de Yonder, mas não importa o trajeto que façam, acabam voltando para a mesma casa. Um dia, uma caixa com um bebê é deixada na frente da casa. Nela há instruções dizendo que eles devem criá-lo. Outras caixas chegam misteriosamente com comida. O bebê cresce mais rápido do que uma criança humana. Tom tenta matar o menino, mas Gemma não permite; porém, com o passar dos meses, ela se arrepende. O menino se torna um adulto forte que se veste como Martin, além de parecer com ele. Basicamente, a função do casal é criar o bebê dessa estranha espécie alienígena. Tom morre e Gemma chega ver outros casais aprisionados em outros complexos, mas é tudo em vão. Já à beira da morte, ela pergunta qual é função da mãe. O novo Martin responde que uma mãe cria o menino e morre. No final, o novo Martin chega na corretora a tempo de colocar o velho Martin num saco mortuário.
Os Comungantes (Nattvardsgästerna), 1962, dirigido por Ingmar Bergman

O filme começa com o pastor luterano, Tomas, terminando o culto de meio dia num vilarejo sueco. Entre os presentes estão Marta, que namorou Tomas após a morte de sua esposa, Jonas, um pescador e Karin, sua esposa, que está grávida de mais um filho. Além deles estão presentes o organista, Fredrik, e o sacristão, Algot. Após o culto, Karin leva Jonas para conversar com Tomas. Ela revela que Jonas está deprimido e amedrontado com o estado das coisas no mundo, principalmente com a ameaça de guerra nuclear. Eles conversam rapidamente, mas Jonas promete retornar em meia hora para que o pastor e ele conversem a sós. Após o casal sair, Marta entra no escritório para consolar Tomas. Ele diz que não sabe se conseguirá ajudar Jonas, visto que está tão deprimido e sem fé quanto. Passada meia hora, Jonas retorna. Tomas inicialmente tenta aconselhá-lo, mas acaba confessando que também não tem fé e se sente abandonado por Deus. Ele conta que, quando era jovem, viu os horrores da guerra civil espanhola e não conseguiu conciliar a imagem de um Deus benevolente com as atrocidades que testemunhou — por isso, resolveu ignorá-las. Ele afirma que o mundo se torna inteligível quando negamos a existência de Deus, pois assim a crueldade da existência e dos homens não precisa ser explicada: ela só acontece, sem um porquê. Jonas vai embora e, depois, comete suicídio explodindo os miolos com seu rifle. Mais tarde, Algot conversa a sós com Tomas e afirma que muito se fala do sofrimento físico de Jesus e pouco se fala do seu sofrimento mental. Algot lembra que, preso na cruz, Jesus clamou por Deus e recebeu de volta o silêncio. Ele pergunta para Tomas se o silêncio de Deus não é pior do que a dor física, ao que Tomas responde sim. Enquanto isso, Fredrik fala com Marta que é melhor ela ir embora daquele lugar, para que não tenha seus sonhos destruídos como todos os habitantes dali.
Rede de Intrigas (Network), 1976, dirigido por Sidney Lumet

O filme se passa na década de 1970 e gira em torno de Howard Beale, um âncora de telejornal viúvo e alcoólatra, que resolve expor no ar toda sua frustração quando recebe a notícia de que será demitido devido a baixa audiência. Howard afirma que toda a vida é uma grande balela, por isso criamos justificativas imaginárias como Deus ou, para quem não acredita em Deus, a grandeza do homem. Seu discurso gera forte comoção e um aumento de telespectadores. Os executivos do canal então passam a usar Beale como um apresentador sensacionalista. Apesar de se enxergar como um idealista, descobrimos que ele está apenas sendo usado pelos donos do poder. Quando ele sai do script uma noite, acaba danificando o fluxo do dinheiro dos poderosos. Por isso, Beale é admoestado pelo dono do conglomerado televisivo, o senhor Jensen. Jensen explica para Beale que não existem democracias, nem ditaduras, nem capitalismo, nem comunismo, nem socialismo, mas sim um fluxo de dinheiro e poder que controla todas as vontades humanas, independente de credo, cultura, religião, ideologia, e que esse fluxo não tem propósito algum, ele apenas ocorre desde que o ser humano emergiu da sopa primordial.
Vale Refeição (Meal Ticket, A Balada de Buster Scruggs), 2018, dirigido pelos irmãos Coen

A Balada de Buster Scruggs é um filme composto por histórias curtas que se passam no velho oeste. É sobre a terceira delas que falarei. Intitulada Vale Refeição, a história segue dois homens, um velho, e o outro novo e deficiente, tendo nascido sem pernas e braços, o que o torna totalmente dependente do velho. Eles são artistas itinerantes, que vão de uma cidadezinha a outra numa carroça guiada pelo velho. Nas praças, o novo se apresenta, declamando poemas de Percy Shelley e discursos de ex-presidentes. A princípio, eles têm plateias grandes. Com o tempo, as plateias diminuem. O velho passa a beber e se irritar com o fardo que é cuidar do rapaz deficiente. Certa noite, o velho vê uma animada plateia assistindo uma galinha que supostamente sabe fazer contas. Depois da apresentação, ele compra a galinha, sem perceber que aquilo era um truque barato. Depois, numa estrada de terra deserta entre as montanhas cobertas de neve, o velho para a carroça ao lado de uma ponte que cruza um rio e, depois de pensar um pouco, joga o pobre do rapaz sem braços e pernas nas águas gélidas.
por Fernando Olszewski