Crônica de uma espécie ousada
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| Victoria Mortis, de Owe Zerge |
Era uma vez uma espécie ousada que surgiu num planeta rochoso, geologicamente ativo e com bastante água. Esse planeta se formou, assim como os seus vizinhos, do disco de acreção que girava em torno de sua jovem estrela amarela de tamanho pequeno, nos primórdios da criação. Todo aquele material gasoso que girava coalesceu graças à gravidade e formou oito planetas, além de planetoides, luas e rochas diversas. Esse sistema solar se encontrava num dos braços de uma espiral galáctica. A galáxia que o abrigava não era das maiores, mas também não era pequena. Era de tamanho médio para grande, digamos assim, com diâmetro de mais ou menos 100 mil anos-luz. Isso quer dizer a coisa mais rápida possível e que se confunde com a própria ideia de causalidade, uma partícula de luz, um fóton, demorava mais ou menos 100 mil anos para cruzar de um lado até o outro da galáxia. O fóton, no entanto, não experimentava esse tempo. Da perspectiva do fóton, a viagem era instantânea, o tempo entre a sua emissão e a sua chegada do outro lado era zero.
O fóton é uma das poucas partículas elementares desprovidas de massa. Elas só podem viajar na velocidade da luz, cerca de 300 mil quilômetros por segundo, arredondando. Entretanto, a sua velocidade é constante para todos os observadores. Não falo aqui de observadores conscientes necessariamente. Da perspectiva de uma pedra num planeta e uma nuvem em outro, a luz viajará sempre na mesma velocidade. Como ela é constante para todos os pontos de vista, o que muda é o tempo. Este sim é relativo. É por isso que um fóton não experimenta a passagem do tempo e é por isso que, quanto mais rápido um objeto viaja, menos ele experimenta a passagem do tempo — e esse efeito será maior quanto mais próximo da velocidade da luz um objeto se move. Essa é a razão pela qual um fóton emitido daquele sistema solar não via o tempo passar até atingir algo do outro lado da galáxia, enquanto que no sistema solar se passavam 100 mil anos.
Algumas rochas intergalácticas são arremessadas por eventos cósmicos a frações da velocidade da luz.
Uma delas foi detectada pela espécie ousada e batizada de 3I/ATLAS. Aquela rocha era um cometa e viajava a 0,02% da velocidade da luz. Embora aquela fosse uma velocidade fantástica para um objeto macroscópico, velocidade que estava muito além do que a espécie ousada jamais foi capaz de alcançar com os seus foguetes e métodos alternativos de propulsão, a rocha ainda demoraria 500 milhões de anos para atravessar os 100 mil anos-luz que separam um lado da galáxia ao outro, isso da perspectiva do ponto de partida. Aquela rocha também não sofreria tanto os efeitos da dilatação do tempo, portanto, da sua própria perspectiva, longe da viagem ser instantânea ou extremamente rápida como era para fótons e partículas elementares que viajam próximo da velocidade da luz, ela duraria cerca de 499.999.990 anos. É muito tempo. A espécie ousada surgiu num universo cujas distâncias entre as estrelas fazem com que as distâncias entre os continentes de seu planeta fossem como caminhadas do quarto à cozinha da própria casa.
Muito menos, na verdade.
O planeta da espécie ousada demorava cerca de 365 dias para realizar uma órbita ao redor do seu sol, enquanto que o seu sistema solar circulava a galáxia a cada 230 milhões de anos, mais ou menos. Do seu surgimento até ela ser capaz de detectar o cometa 3I/ATLAS através de instrumentos tecnocientíficos precisos, passaram-se algumas centenas de milhares de anos. Antes disso, a espécie ousada ainda não estava pronta, nem podia ser chamada, anatomicamente falando, de espécie ousada. E mesmo depois de surgir, ela passou a maior parte do tempo como caçadora e coletora. Aqui e ali, alguns de seus membros pintaram paredes em cavernas e só. Foi somente cerca de 10 mil anos antes da detecção do 3I/ATLAS que ela descobriu a agricultura. Só depois, ainda, ela criou culturas, escritas diversas e civilizações. Podemos até mesmo dizer que a espécie ousada só deixou de ser tímida e passou a ser verdadeiramente ousada a partir desse período. Antes, ela tinha o equipamento biológico, mas não o utilizava na sua potência máxima.
A descoberta do cometa 3I/ATLAS nem sequer foi a sua maior realização até então. Muitas décadas antes, a espécie ousada, em competição consigo mesma a troco de nada, conseguiu pousar alguns de seus indivíduos na lua do seu planeta. Algumas décadas antes disso, ela conseguiu dividir o átomo para gerar energia e, também, para destruir o mundo com aquilo que chamou de bomba nuclear, novamente em competição consigo mesma a troco de nada. Pouco tempo antes, ela conseguiu voar pela primeira vez. Isso significa que, em menos de um século, ela foi do primeiro voo rudimentar à lua. A ousadia ficava cada vez mais escancarada, mas ela não tinha surgido ali. Como disse, ela surgiu antes, quando a espécie ousada rompeu de vez com as determinações da natureza, crescendo sua própria comida através da agricultura e domesticação de animais. Foi ali que o universo viu nascer um ser que não estava apenas confuso por ter algo a mais do que os outros seres ao seu redor, uma mente, mas um ser determinado a se afirmar a qualquer custo.
Esse começo foi tímido, sim. Ela ainda temia o trovão e a natureza ao redor. Para afastar seus medos, ela começou a fantasiar. Forjou deuses e se ajoelhou diante deles em aparente submissão, tudo em troca de uma boa caça e, depois, uma boa safra. Com o tempo, porém, os deuses criados pela espécie ousada refletiram a ousadia dela. Ela não se via mais apenas parte do mundo, mas algo além e, por isso, ela passou a acreditar que o mundo foi criado pelos deuses para ela dominar e usar como bem entendesse. Essa era a razão pela qual, mesmo milênios depois, quando ela foi capaz de descobrir o cometa 3I/ATLAS, ainda haviam indivíduos da espécie que se gabavam de sua burrice, achando que podiam fazer o que bem entendessem com o seu planeta, pois seu deus havia dado ele de presente para que abusassem sem consequência. Podiam caçar e pescar até extinguir outras espécies, podiam destruir o solo, poluir a água, a terra e o ar, porque acreditavam que deus tinha determinado que podiam. Nada de ruim poderia vir disso, pensavam, porque suas mentes trabalhavam acreditando em mágica.
De certa forma, essa rebeldia era fundada por uma revolta inconsciente contra a natureza, contra a existência em si. Todos os outros animais, seus irmãos, pareciam ser um com o ambiente. Mesmo espécies que nada mais eram do que comida para predadores sanguinários pareciam contentes com o seu destino. Quando perdiam alguns de seus parentes devorados nas pradarias e nos rios, esses animais não sofriam em demasia, mas continuavam seguindo o seu rumo natural, multiplicando-se e gerando novas vítimas em potencial. A espécie ousada era diferente. Seu sofrimento era maior. Ela lembrava por anos a perda de um parente e isso doía. Que tipo de lugar era aquele? Quem havia os colocado ali para sofrer? Era uma afronta cósmica. Ela tinha razão de pensar assim, só não entendia que não havia nenhuma consciência ou mente como a sua por trás dessa afronta. Ela estava só. Por isso criou seus deuses, a grande maioria deles cruéis. Quanto mais afirmadores da sua própria existência, mais cruéis eram as suas divindades. Afinal, o mundo era amoral. O sangue lubrificava tudo o que se mexia por conta própria. Seus deuses cruéis refletiam a realidade.
Contudo, volta e meia, aqui e ali surgiram deuses e mitologias genuinamente contrários àquela tortura toda. Ao invés de prometerem mais vida após a morte, como faziam as outras fantasias, essas mitologias pretendiam ensinar um caminho para a total dissolução do ser, o fim do ego. Mas até essas mitologias acabavam invariavelmente se tornando afirmadoras da vida, pelo menos para a grande maioria daqueles que as seguiam. O mesmo acontecia na sabedoria racional, separada da mitologia, conhecida por eles como filosofia. No final das contas, rejeitar a existência acabava sempre visto como heresia, doença da alma e, depois, como patologia, doença da mente, algo a ser combatido com inquisições e institucionalizações. Afinal, por mais brutal que tudo fosse ao seu redor, grande parte deles se achava feito à imagem e semelhança de um deus guerreiro e tribal, um deus que, no passado, chegou a aceitar sacrifícios de pessoas, incluindo crianças, para a sua glória. Esse deus, aquela espécie entendia, era alimentado através de dor, sangue, lágrimas e desespero. Quanto mais desesperador, quanto mais sofrimento, maior era o seu poder.
Nenhum desses deuses e nenhuma dessas mitologias eram verdade, num sentido factual, claro. Aquelas coisas apenas representavam os diferentes e às vezes contraditórios anseios da espécie. A espécie, como todas as outras, surgiu através de processos naturais que levaram muito tempo e, dentro de todas as espécies de seres vivos, vivia a ideia de permanência, de afirmação de si, tanto individualmente quanto coletivamente. De todas as mitologias e filosofias, as únicas que iam contra a corrente afirmacionista eram justamente aquelas que rejeitavam completamente a vida, mas elas, como vimos, nunca eram aceitas por todos e até mesmo aqueles que as aceitavam ou admiravam, ou as corrompiam, ou eram na sua maioria incapazes de vivê-las até as últimas consequências. A vida, a existência, tinha apelos muito fortes, é verdade. Era difícil lutar contra centenas de milhões de anos de seleção natural que produziram um forte senso de preservação, continuidade e afirmação de si.
Alguns seguidores de deuses guerreiros e afirmadores até se matavam em guerras contra os seguidores de outros deuses e outras mitologias, mas não o faziam por acharem a vida ruim. Pelo contrário, eles acreditavam tanto na bondade da vida e do deus que cultuavam que tinham certeza de que o que viria depois seria mais vida, uma vida ainda melhor. Iludidos e ignorantes, não entendiam que a única vida que tinham não era nada boa, pelo contrário. Mas quanto mais ousada a espécie ficava, menos ela necessitava de deuses e de fantasias para justificar a si mesma. Seus ideais coletivos puramente seculares guiavam suas ambições e, em conjunto com as descobertas científicas que faziam, impulsionavam ela para todo canto do planeta e para o espaço. Alguns sonhadores, futuristas e, também, muitos salafrários, propuseram a ideia de que eles poderiam conquistar as estrelas através da tecnociência. Era impossível, claro. Porém, isso não os impediu de fazer com que centenas de milhões acreditassem durante várias gerações que a espécie ousada não morreria naquele planeta junto com seus deuses antigos esquecidos e junto com os outros animais, seus irmãos.
A espécie ousada vivia vencendo as imposições da natureza há milhares de anos, então foi fácil para as pessoas, muitas delas esclarecidas, acreditarem que, no futuro, seus descendentes viveriam aventuras intergalácticas e chegariam cada vez mais próximos de uma explicação para tudo. Se não pudessem compreender totalmente o universo e seu lugar nele, seu poder de entendimento ao menos os transformaria em deuses de verdade. Achavam que um dia seriam capazes de manipular a realidade, criar novos planetas para habitar e, finalmente, vencer a morte não só da espécie, mas do indivíduo. A cada década que passava, parecia que chegariam mais próximos da imortalidade e da expansão para as estrelas, dois acontecimentos tão prometidos pelos seus sábios otimistas e por salafrários oportunistas. Chegaria um dia que ela não precisaria mais das fantasias dos seus ancestrais, porque finalmente teria o poder absoluto de controlar tudo ao seu redor. Sua ousadia não teria mais limites, tinham cada vez mais certeza. Além de tudo, ela acreditava estar próxima de entrar em contato com outras mentes parecidas com a sua, mentes surgidas em outros planetas através dos mesmos processos naturais.
Não só isso, ela também acreditava ser capaz de criar mentes artificiais através da sua tecnociência. Alguns acreditaram inclusive terem criado consciências como as suas, mas, no final, era mentira. Treinar computadores para responderem questões complexas não fazia deles conscientes, não os dotava de mentes e uma vida interior. Até os animais próximos da espécie ousada possuíam uma vida interior, embora não refletissem como ela refletia, nem ficassem tão aflitos quanto ela. Mas os computadores inteligentes, apesar da inteligência, nunca seriam mentes reais, por mais que a espécie ousada tentasse ou acreditasse. Para piorar, uma das formas que ela acreditava ser capaz de atingir a imortalidade pela tecnociência era através da suposta transferência da mente para o meio digital, deixando para trás as limitações da biologia. Isso também provou ser impossível. O máximo que foram capazes de fazer foi criar cópias digitais sem vida interior, enquanto que o original simplesmente morria e via as luzes da existência se apagarem por completo.
Não haveria imortalidade, embora tenham conseguido manipular sua biologia para viver mais do que naturalmente eram capazes. Foram avanços reais e ninguém pode tirar o mérito daquela espécie, é verdade, mas jamais haveria uma apoteose tecnológica. Ela também nunca conseguiu descobrir se havia ou se houve outras consciências no universo conhecido que, assim como ela, eram filhas da natureza. Isso a frustrou bastante. Porém, nem tudo estaria perdido, ela pensava. Continuaria perseverando e manteria o espírito de expansão. Afinal, embora algumas coisas não sejam possíveis, outras poderiam ainda acontecer, pensavam. Se não existiam vizinhos intergalácticos, ela própria povoaria o universo, levando a vida e a consciência para outros planetas e sistemas solares da sua galáxia e, quem sabe, para outras galáxias. Mas nada disso aconteceu, também, por mais que ela tenha desejado. Suas tentativas eram frustradas pela realidade de um universo indiferente aos seus anseios. Elas sempre acabaram em desastre e em falta de recursos para financiar projetos que, no final das contas, mostravam-se sem sentido.
Um dos planetas vizinhos, que ela descobriu ter sido parecido com o seu milhões de anos antes, chegou a ver tentativas fracassadas de colonização. O principal problema eram os limites impostos pela realidade física. Embora tenha tentado teorizar formas de quebrar a realidade, elas jamais correspondiam ao que era possível de verdade. Ela enviou sondas para fora do seu sistema solar, mas apesar de muito rápidas, elas demoravam cerca de uma década para passar a órbita dos últimos planetas do sistema e várias décadas para de fato saírem da heliosfera. Para se comunicar com essas sondas, a espécie ousada usava tecnologias de rádio e, depois, laser, mas todas viajavam no limite da velocidade da luz no vácuo. Na época em que ela descobriu o cometa 3I/ATLAS, algumas dessas sondas espaciais estavam a dois dias-luz do seu planeta após viajarem cinquenta anos. Enviar um sinal para elas e receber uma resposta demorava quatro dias, mesmo na velocidade da luz. Ela chegou a quebrar esses recordes de distância, mas jamais chegou perto de alcançar o seu maior sonho no espaço: viajar acima da velocidade da luz.
Embora tivesse desenvolvido maneiras teóricas de alcançar frações significativas da velocidade da luz, o que tornaria possível atravessar longos trechos da sua galáxia no tempo de vida de uma pessoa, todas essas maneiras submeteriam o sujeito viajante aos efeitos da dilatação do tempo. Caso tais projetos tivessem sido colocados em prática, mas nunca foram devido aos custos econômicos absurdos, os viajantes teriam que dizer adeus a tudo o que conheciam, porque, embora eles fossem envelhecer um pouco, centenas de milhares ou mesmo milhões de anos de anos se passariam na perspectiva daqueles que deixaram para trás. Para piorar, como o universo se expandia cada vez mais rápido, acima da velocidade da luz, estar confinado a velocidades menores faria com que ela sempre vivesse numa bolha fora da qual nada jamais poderia ser alcançado. Os custos econômicos somados aos custos emocionais fizeram com que todos esses projetos de longa distância fossem abandonados. A espécie ousada tentou ainda manter viva a esperança de, ao menos, colonizar os planetas vizinhos, mas até mesmo esses objetivos considerados mais modestos foram abandonados. Ela veria o universo expandir aos poucos de seu único planeta. Ele próprio seria consumido pelo seu sol quando este expandisse à medida em que exauria o seu hidrogênio.
Por mais que não admitisse para si, ela entendeu que a ficção científica, que tanto a inspirou a desbravar novos horizontes desde o advento da tecnociência poucos séculos antes, não correspondia mais à realidade. Esse tipo de ficção previu submarinos, computadores, comunicação a longa distância por telas, viagens à lua, mas havia um limite real. Ela era incapaz de vencer barreiras físicas intransponíveis. Num determinado momento, as obras de ficção que especulavam sobre futuros avanços científicos se tornaram o mesmo que fantasia pura. Acreditar que ela alcançaria as estrelas passou a ser tão infantil quanto acreditar em dragões, fadas e duendes. Mas ela continuava acumulando conhecimento e entendendo o universo. Seu conhecimento, aliás, continuava trazendo benefícios e revezes: ao mesmo passo em que curavam doenças e inventavam conveniências, inventavam novas formas de matarem uns aos outros cada vez mais eficazes e, também, cada vez mais sádicas. Apesar disso, continuavam achando que quanto mais se sabe, melhor se está. Esse era um mantra que repetiam desde o nascimento do método científico.
Num certo momento da história, no entanto, o entendimento do universo deixou de ser benéfico para o seu espírito, algo que já era sentido por indivíduos isolados durante muito tempo, mesmo antes do nascimento da tecnociência. Aos poucos, começou a perceber que o mantra não correspondia aos fatos. O acúmulo do saber, a partir de certo ponto, não melhorava a sua existência, pelo contrário, tornava-a mais pesada, mais desesperadora. Qual era o ponto de tudo? Não só não existiam deuses, mas não podiam se tornar deuses, nem espalhar a vida pelo cosmos. Estavam sós até mesmo naturalmente, visto que nunca encontraram outras mentes na vastidão do céu noturno. Mais e mais a espécie ousada buscava o conforto de uma nova idade média, uma era de ignorâncias reconfortantes na qual poderia viver na tranquila estagnação. Mas o gênio havia saído da lâmpada. Era difícil forçar a acreditar e viver da mesma maneira que seus ancestrais de gerações passadas. Mesmo os que ainda eram religiosos fervorosos não abriam mão das várias conveniências trazidas pela tecnociência ateia, a mesma que desnudou a realidade e mostrou o nada como fundamento de tudo.
Para o seu horror, a espécie ousada entendeu que os rejeitadores da vida estiveram certos o tempo todo, apesar de não admitir isso para si mesma. Fingiu até o final ter alguma importância para o universo. Substituiu seus deuses mitológicos por noções fantásticas a respeito da sua própria história, algo que já fizera antes. Toda aquela saga de dores precisava ter valido a pena, senão ela enlouqueceria de vez, mais do que já tinha ficado louca. Ela rodopiou loucamente, travando batalhas consigo mesma, buscando o fim de uma história que só chegaria mesmo no final quando o último indivíduo da espécie perdesse a consciência pela última vez e sucumbisse à morte. Não se sabe ao certo o que aconteceu no final. Talvez ela finalmente tenha usado bombas nucleares para matar a si mesma a troco de nada. Talvez a prepotência e a ignorância fizeram com que ela morresse numa grande epidemia. Mas há quem pense que, aos poucos, ao longo das gerações, cada vez menos membros da espécie vissem propósito em continuar e, de forma majoritariamente inconsciente, escolhessem o encolhimento até o ponto em que o último ousado nasceu e, depois dele, mais ninguém.
Seu planeta continuou barulhento, mas quem fazia barulho agora eram somente os outros animais que permaneceram vivos e mudando ao longo do tempo. Eles também deixaram de existir. O planeta da espécie ousada passou por tantas eras geológicas ao longo de bilhões de anos que nenhum vestígio de que um dia existiu vida lá poderia ser visto. Todos aqueles milhões e milhões de anos em que a vida passou por mudanças, contando inclusive com o surgimento e desaparecimento dos ousados, não serviram para absolutamente nada e não seriam lembrados por ninguém. O universo continuaria com os seus processos por toda a eternidade até não sobrar nada além de fótons, prótons e outras partículas elementares, cada uma tão distante da outra que nunca colidiriam, mesmo viajando todas na velocidade da luz. Apesar da espécie ousada nunca ter descoberto outras mentes no universo, é verdade que talvez tenha havido em algum lugar longínquo outra espécie tão ou mais ousada que ela. Mas, se houve, essa espécie também foi esquecida. Foi como se eles todos nunca tivessem existido.
por Fernando Olszewski
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