Se fere a minha existência
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| Judite decapitando Holofernes, de Artemísia Gentileschi |
Não quero aqui diminuir a luta de quem só quer viver pacificamente e é constantemente massacrado por trogloditas descerebrados que gostariam de viver numa teocracia falsificada da Temu. Slogans são importantes na propaganda, inclusive na propaganda política. Além do mais, na hora de me posicionar politicamente, eu fico do lado de quem comumente utiliza o slogan “se fere a minha existência, serei resistência”. Portanto, já no começo, quero deixar muitíssimo claro que não tenho problema nenhum com a frase e nem com quem a utiliza em contextos políticos que lutam contra o racismo, xenofobia, homofobia, entre outras coisas. O que quero fazer é uma rápida reflexão do slogan que não está ligada à filosofia política, mas sim à filosofia existencial e, portanto, à metafísica.
Ainda no contexto político, há quem utilize a frase modificada da seguinte forma: “se fere qualquer existência, serei resistência”. Entendo e não quero destroçar aqui o sentimento por trás desse tipo de uso, mas, mesmo num contexto estritamente político, podem surgir contradições aqui, especialmente quando há má fé. Afinal, reacionários existem, e duvido muito que quem utiliza esse slogan queira garantir a existência e o florescimento de reacionários. Mesmo que não queiram matá-los, mas transformá-los, o fato é que a existência desses modos de ser não são defendidas por quem normalmente usa o slogan. A defesa da existência e integridade dos animais também seria contemplada por quem utiliza esse slogan? Ou aí já seria frescura importada de ativistas de países ricos? Há que se tomar cuidado.
Porém, quando pensada de forma mais profunda, para além da política — mas que também pode incluir a política, claro —, a frase “se fere a minha existência, serei resistência” desperta algo estranho, pelo menos em mim. A estranheza advém do fato de que a existência fere todos os seres sensíveis. A existência, aliás, mata todos os seres vivos no final, até mesmo aqueles supostos organismos imortais, como membros da espécie de água viva Turritopsis dohrnii e árvores que vivem por dezenas de milhares de anos. Tirando algumas partículas elementares, nada na existência escapa do atrito, como diz o filósofo Julio Cabrera. Nem mesmo o mineral está livre do atrito. Mas, quando lidamos com seres vivos, esse atrito causa feridas e, para piorar, feridas são sentidas como dor em determinados tipos de seres vivos, i.e. os animais.
Foi entre esses tipos específicos de seres vivos, os animais, que surgiu um ser capaz de formular a frase “se fere a minha existência, serei resistência” e suas variantes. Eu concordo até mais do é considerado normal com a ideia de ser resistência àquilo que fere existências. É por isso que penso que criar novos seres capazes de sentir dor e morrer é moralmente problemático, visto que o atrito é inevitável para qualquer ser. O atrito seria inevitável mesmo numa utopia política maravilhosa, igualitária, não-monogâmica, losurdista ou qualquer outra fantasia em que se acredite. Primeiro, porque elas não são utopias. Segundo, porque, mesmo que fossem sociedades quase que perfeitas, a dor, a decadência e a morte continuariam sendo atritos básicos que jamais seriam superados.
Sabemos o que ocorre quando uma pessoa é gerada e parida. Não é um mistério. Só sendo dissimulado para dizer que não se pode saber o que ocorre ao longo de uma vida. O que ocorre é a manifestação de uma vontade insaciável que, na melhor das hipóteses, pode viver de maneira muito confortável e prazerosa, mas que nunca será capaz de se blindar totalmente do atrito, do tédio e da dor, até porque a definição de vontade insaciável é querer sempre mais do que se pode ser saciado. Não há um fim, só uma repetição de felicidades fugazes que existem entre a falta e o tédio, como no pêndulo de Schopenhauer. Dores, desejos e vontades estão num extremo, enquanto que o descontentamento pós-saciedade está no outro. O prazer, a saciedade e a felicidade existem rapidamente durante o breve movimento do pêndulo que se move entre esses dois extremos.
Até a felicidade mais sublime e aparentemente indestrutível, o amor profundo e genuíno entre duas pessoas, sejam elas marido e mulher, mãe e filho, amizade verdadeira, etc, está submetida a essa realidade sombria, porque embora a morte de um possa não destruir o amor daquele que permanece vivo, a dor da falta virá. Não haverá pós-saciedade e nem tédio, mas a eterna vontade de estar com o outro que jamais será novamente saciada. Não quero aqui dizer que a memória que traz alento para quem permanece vivo não tem valor, mas sim acusar a existência. É ela que é insidiosa, que destrói, machuca, fere. Não há escapatória a não ser não participar dela, não jogar o seu jogo e, melhor ainda, não ter vindo ao mundo em primeiro lugar, não possuir um ser que pode ser ferido.
Não haverá nunca um desenlace dialético que fará tudo ficar bem na vida dos seres sencientes. Acreditar nisso é o mesmo que acreditar que, na vida real, há um final como aquele que existe em muitos filmes e livros, um final satisfatório, se não feliz, após a última cena ou página. Posso afirmar que isso não existe com toda tranquilidade porque não acredito em mágica. Então, num sentido mais amplo, só se pode afirmar esse slogan de maneira sincera, em especial a sua versão expandida que engloba a resistência contra todos serem feridos, se estamos dispostos a irmos contra o ser em si. Caso contrário, devemos colocar vários modificadores no slogan ou, melhor ainda, limitá-lo sempre à esfera da retórica política contemporânea desta primeira metade do século XXI. De certa forma, defendo essa limitação, mas não de maneira acrítica.
É melhor mesmo especificar, dizendo: “se algum humano fere a existência de outro humano, serei resistência”. Mas dessa forma não soa tão bem, nem é tão impactante, embora seja o que se realmente quer dizer. Certamente, tirando algumas poucas pessoas, é improvável que alguém pense nesse slogan de forma a incluir a realidade de que a existência em si é a própria causa de todas as feridas. Mas, sem essa especificação que deixa claro que está se falando apenas das feridas causadas por outros humanos, a frase me causa uma estranheza.
Causa uma estranheza porque fomos todos feridos mortalmente a partir do momento em que fomos gerados e colocados na existência como seres profundamente conscientes pela vontade dos outros. Não tivemos escolha, por mais que humanos em diversos momentos da história tenham inventado mitos metafísicos que apontem para nós mesmos uma culpa primordial, seja ela passada a nós por nossos ancestrais, como na mitologia abraâmica, ou seja ela nossa própria culpa, como ocorre no caso da metempsicose ou transmigração da alma. A culpa geracional é uma ideia absurdamente arcaica e sem lógica da era do bronze que claramente apontaria para um criador satânico caso fosse verdade. Já a transmigração, num cenário de amnésia completa das vidas passadas, é o mesmo que dizer que não houve transmigração em primeiro lugar, pois afirmar a continuidade de uma identidade sem nenhuma ligação mnêmica é arbitrário e absurdo.
Sem nenhuma prova contundente além de supostos argumentos que só fazem sentido se comprarmos premissas mágicas impossíveis de serem demonstradas, ficamos com o que está escancarado para qualquer um ver: cada nova vida gerada e parida é um novo ser consciente que surge para o atrito e para a morte sem qualquer possibilidade de escolha, é uma nova marionete descartável nas mãos da vontade que permeia absolutamente todo o mundo do devir. A ferida primordial já aconteceu. É verdade que não devemos piorá-la sendo uns toscos uns com os outros, sim, mas não sejamos ingênuos de acreditar que é possível existir sem ser ferido, nem finjamos ignorância a respeito daquilo que nos trouxe até aqui, a cadeia de geração de novas vidas que perpetua toda essa ferida aberta, que nunca se fecha.
A ferida só se fechará de verdade no dia em que a última senciência deixar de sentir e apodrecer após o óbito. Só aí, no apagar das luzes de toda consciência, mesmo as mais primordiais, é que realmente a ferida chegará ao fim. Será o fim de todas as possibilidades de prazer e contentamento, sim, mas será o fim de todas as atrocidades que aconteceram e acontecem a cada dia debaixo do sol. Atrocidades como esfolamentos, fraturas, desmembramentos, queimaduras, acidentes grotescos, doenças degradantes, exploração, estupros, violência generalizada da parte de outros seres vivos além dos humanos, entre incontáveis outras desgraças, além da combinação de todas essas.
***
Um pequeno adendo.
Quando escrevo essas coisas, parece tudo muito abstrato e genérico, mas exemplos concretos não faltam. Na verdade, eles são produzidos quase que ao infinito num único dia neste mísero planeta em que a vida teve a infelicidade de brotar e evoluir. Muitos são registrados, inclusive. Enquanto escrevia este texto, alguns deles não saíam da minha cabeça. O primeiro dos exemplos, demasiadamente humano, é o de um pobre coitado cuja pele da cabeça foi arrancada com faca — com ele ainda vivo — pelo Cártel del Noreste, no México, em junho de 2023. Depois de ter a pele da cabeça e do rosto removida e ficar parecendo um esqueleto banhado à sangue e músculos expostos, o açougueiro cortou a carne debaixo da sua mandíbula e puxou a língua, arrancando-a. A vítima ainda teve o torso cortado na vertical e o coração arrancado, ainda batendo freneticamente.
O outro exemplo — mais inocente, digamos — é o de um grupo de leões matando uma javali que estava prestes a parir. Um filhote, vivo, é deixado no chão por alguns instantes após ser arrancado da barriga de sua mãe recém-morta e parcialmente devorada, mas logo uma leoa o pega pela boca e ele começa a gritar, para desespero dos humanos que estão testemunhando a atrocidade. Essas e outras feridas absurdas só são possíveis devido ao fato de existirmos em primeiro lugar. E, no caso das feridas “naturais”, como aquelas causadas por leões que devoram bebês de javali recém-nascidos, ainda somos obrigados a aceitá-las de bom grado, visto que a natureza sempre acaba encontrando um equilíbrio e ela não opera sob uma ordem moral humana. Sua lei maior, que está acima de tudo, é a da sobrevivência à qualquer custo. No mundo natural, o atrito da existência não é mitigado por construtos como a ética e o direito.
Ou seja: no que diz respeito à dor e ao caos, podia ser pior. Nesse caso temos a vantagem sobre nossos irmãos animais. A grande vantagem deles é justamente viver no presente e não absorver toda essa desgraça com uma profunda lucidez individual, maldição que a natureza reservou somente para o Homo sapiens.
por Fernando Olszewski
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