O fim se aproxima
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| Crucificação, por Matthias Grünewald |
Há um empresário texano que vende o ele que chama de “abrigos do juízo final” para ricos do mundo todo que aguardam uma guerra nuclear. O nome dele é Ron Hubbard (e não, ele não é parente do fundador da cientologia, o falecido L. Ron Hubbard). Os abrigos são fortificações equipadas com filtros de ar. Os mais baratos estão na faixa de 20 mil dólares. Já os mais caros custam em torno de 5 milhões e vêm equipados com comodidades luxuosas e campo interno para a prática de tiro. Hubbard disse recentemente que dois membros do governo Trump são clientes seus e compraram abrigos para eles e suas famílias sobreviverem a um potencial apocalipse atômico. Hubbard é evangélico, frequentemente aparece com o boné do MAGA, e diz acreditar que Jesus voltará em breve para resgatar evangélicos anglo-saxões como ele após o começo de uma guerra total.
Tanto ele quanto a maioria dos seus clientes ricos são pessoas com famílias numerosas. Levam ao pé da letra o crescei-vos e multiplicai-vos do Velho Testamento, foco daqueles cristãos que acham Jesus um “tchola woke sojado desprovido de testosterona” ou qualquer outro termo que vise tachar os outros de fracos, inferiores e afeminados. Imagina só o quão escroto deve ser para eles — que gostam de dizer que tem mentalidade guerreira e são fãs dos vikings — terem como messias um galileu asceta nascido há 2000 mil anos atrás que alimentava e curava pessoas de graça, pregava que Deus favorecia os pobres e que ricos deveriam abandonar seus bens materiais para segui-lo, um homem que jamais teve filhos e disse que o melhor que fazemos para alcançar o Reino dos Céus é ser como eunucos. Em Mateus 19, 11-12, Cristo diz o seguinte:
Nem todos são capazes de compreender o sentido dessa palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.
Jesus disse isso em resposta a um questionamento dos apóstolos sobre se o homem deveria se casar ou não, e o sentido no qual ele fala é intimamente ligado à reprodução e não meramente ao sexo, como esses cristãos guerreiros patéticos defendem hipocritamente ao mesmo tempo que traem suas esposas sempre que podem, muitas vezes em relações que nem heterossexuais são. Esses cristãos guerreiros, aliás, qualquer religioso autoproclamado guerreiro de qualquer religião, são meros escravos da vontade de vida cega que anima eles. Nada mais. São marionetes toscas que justificam sua programação natural. Junte a isso a ideia neocalvinista safada de que Deus favorece os ricos e temos aí o perfeito idiota. Volta e meia vejo pastores multimilionários dessa ou daquela igreja da moda comprando artigos de luxo e me pergunto o que Santo Onofre, Confessor e Santa Sinclética de Alexandria, dois ascetas cristãos do deserto que viveram no século IV no Egito, teriam a dizer sobre esses nossos cristãos luxuosos, materialistas e pseudo-aguerridos do século XXI. É patético. É cômico, até.
Essa é uma das razões pelas quais Schopenhauer é genial. Sua análise das religiões, que divide elas em otimistas e pessimistas, é certeira. Religiões otimistas são aquelas que afirmam a vontade, enquanto que religiões pessimistas negam a vontade. O que basicamente quer dizer afirmar ou negar a própria existência, o mundo do devir, etc. Dentro de uma mesma tradição religiosa, até mesmo dentro de uma mesma denominação, você pode ter grupos e indivíduos que interpretam e praticam de maneira otimista ou pessimista, mas o fundamento das religiões em si já indica se elas são otimistas ou pessimistas no geral. E não é difícil saber quem é quem. É importante frisar que, para Schopenhauer, essas interpretações filosóficas são aquilo que fica depois que despimos a religião da sua literalidade e seus dogmas. O resto é pura mitologia que cerca esse âmago filosófico. Não importa nem mesmo se a religião é politeísta, monoteísta ou ateísta, como no caso do budismo. Ele, assim como eu, não acredita em nada no tocante ao sobrenatural ou espiritual das religiões. Para ele, todas essas histórias sobrenaturais apenas cobrem o âmago filosófico das religiões.
Elas são metafísica popular. São histórias inventadas para apaziguar a real necessidade metafísica do Homo sapiens, o único ser parido da natureza que se sentiu deslocado dela, deslocado de tudo, e se perguntou que porra que ele e todos os outros seres estão fazendo aqui. A religião é a doutrina de fé, já a filosofia é a doutrina de persuasão, nas palavras do próprio Schopenhauer, e a mensagem final de cada uma das religiões acaba invariavelmente sendo a de afirmação ou de negação da vontade que anima tudo na existência. Veja bem: as religiões não são conspirações mirabolantes criadas para que as pessoas engulam a afirmação ou negação da vontade mais fácil, não é isso. Que elas contém ensinamentos que acabam sendo análogos aos de filosofias diversas, especialmente no que diz respeito à ética, pode ser algo acidental. Muito provavelmente é em todos os casos, inclusive. Mas no final das contas dá no mesmo: algumas metafísicas populares, isto é, algumas religiões, afirmam a vontade, dizem que o mundo do devir é maravilhoso, enquanto que outras negam a vontade e rejeitam o devir.
É por isso que, para Schopenhauer, apesar da Reforma ter se dado por uma indignação justa perante os abusos incontáveis da Igreja Católica, ela, a Reforma, negou o principal resquício daquilo que havia de verdade cristã dentro da Igreja: o princípio ascético, que nada mais é do que a expressão máxima da negação da vontade, e que existe em outras tradições religiosas mundo afora, como o bramanismo, jainismo e budismo. Não à toa todas essas religiões têm ascetas ou monges. Basicamente o que isso quer dizer, num linguajar simples, é o seguinte: ao se opor ao monasticismo por via de regra, a Reforma Protestante abandonou de vez o cristianismo, que é pessimista e corretamente rejeita o mundo como o mais elevado ensinamento, e abraçou o otimismo. Essa é a razão pela qual, com o passar das décadas e séculos, uma parcela significativa dos protestantes no mundo passou a focar no Velho Testamento, que é o fundamento de uma religião otimista e afirmadora da vontade, o judaísmo — tirando algumas passagens importantes tanto para Schopenhauer quanto para mim, é claro, como o mito da expulsão do homem do Jardim do Éden e metade do livro do Eclesiastes.
Isso não significa que tudo na Reforma tenha sido errado segundo ele. O grande acerto da Reforma em termos filosóficos foi outro para ele: foi a ênfase na depravação e na salvação pela graça, que nada mais é do que a ideia de que, no final das contas, não são todos que serão capazes de acordar para a verdade. E mesmo dentro do protestantismo Schopenhauer reconhece que surgiram aqui e ali grupos que acertaram até mesmo na questão do ascetismo, como ele bem exemplifica no caso dos Shakers, nos Estados Unidos.
Eu, ateu, sou mais cristão do que esses boçais que escrevem “Christ is King” e “Deus Vult” nos seus perfis de redes sociais enquanto divulgam teologia do domínio, um saco de merda tirado do reto de protestantes norte-americanos entre o século XIX e XX, e que infelizmente produziu uma árvore forte que está dando frutos fecais terríveis no momento atual, ameaçando destruir uma das melhores coisas que a civilização ocidental um dia buscou defender, pelo menos na aparência: a liberdade de consciência e a secularização das instituições e da sociedade. Imagina viver num país onde blasfêmia ou apostasia são crimes, algumas vezes punidos até mesmo com a morte? Nós tínhamos nos livrado disso antes de eu nascer, embora a religião ainda guiasse algumas normas de conduta e leis, como sempre ficou claro na questão do aborto e da eutanásia no Brasil e em vários outros países ocidentalizados.
Mas a verdade é esta: eu consigo ser mais cristão simplesmente por reconhecer e concordar com a negação da vontade na mensagem de Cristo, mesmo sendo ateu, do que pastores multimilionários que passam a vida falando de Jesus enquanto o consideram um mero adendo ao Velho Testamento, a ponto de muitos deles se fantasiarem de judeus em seus templos que mais parecem galpões e shoppings. Eu repito: é patético, é cômico, até. Se você procurar, vai achar muitos apologetas que dizem que estou interpretando errado, que esse papo de negar a vontade não tendo filhos, expressado mais explicitamente no Novo Testamento por São Paulo, é algo particular à época dele, já que muitos achavam que Jesus estaria voltando logo e era desnecessário criar novas consciências para passar pelas tribulações do fim dos tempos. Ignoram que o próprio Jesus também negava a vontade e a reprodução, como na passagem do eunuco que citei, e pior, que Jesus sempre igualava o mundo material com o mal.
Fora que esses apologetas não percebem que, ao usar esse argumento de que São Paulo e outros cristãos do século I pregavam o ascetismo por acharem que Jesus estaria voltando logo, eles dão um tiro no próprio pé. Eles próprios vivem clamando que Jesus está voltando e dão corda para tudo quanto é maluquice apocalíptica, inclusive tentam influenciar a política nos países de maioria cristã, como no caso daqueles ignóbeis que cercam o atual presidente americano, que acham que a guerra que fazem no Irã é o começo das tribulações do livro do Apocalipse. Ora, se esses apologetas fossem coerentes, então, eles não teriam filhos, nem tolerariam tranquilamente que seus irmãos e irmãs cristãos se multiplicassem como se não houvesse amanhã. Mas eles não fazem isso, pelo contrário. Em Do inconveniente de ter nascido, Cioran relata que um amigo seu acreditava que o fim do mundo estava próximo, mas ao mesmo tempo, era pai de uma família numerosa. Cioran aponta a incoerência dele e escreve que em Patmos não se procria. Patmos, para quem não sabe, é a ilha grega no mar egeu onde São João escreveu o livro do Apocalipse.
A Grécia, aliás, é o mais importante centro do cristianismo ortodoxo bizantino, que até o ano de 1054 vivia em comunhão com a cristianismo católico romano. Ela é repleta de monastérios milenares. Minha avó paterna era grega, tendo chegado ao Brasil em 1954, aos 20 anos de idade. Na minha infância, ela ainda recebia visitas de padre ortodoxo enquanto ela ainda morava em Brasília. Mas sei que ela também praticava o catolicismo, sendo devota de Nossa Senhora Aparecida. Apesar dela não nunca ter aprendido nada sobre de negação ou afirmação da vontade, e apesar dela, como boa grega, ter afirmado a sua vontade, sei bem o que ela achava de cristãos caça-níqueis. Apesar de todos os defeitos que a minha avó pudesse ter, e como qualquer ser humano ela tinha, esse ela não tinha. Ela jamais se rendeu aos apelos de amigas e parentes mais novos que abraçaram esse cristianismo afirmador, amante incondicional do Velho Testamento e envergonhado do Novo, uma religião que é expressão máxima do niilismo comercial atual.
Há um quê de niilismo e perversão quando alguém acredita que estamos no fim dos tempos, seja de forma religiosa ou, pior ainda, com base em evidências históricas e científicas, e ainda assim escolhe gerar novas consciências. No caso do religioso cristão, mesmo se o fim do mundo não fosse um fator, a perversão continuaria existindo, já que eles todos tendem a acreditar que Deus pune pecadores impenitentes eternamente no inferno. Isso quer dizer que eles jogam roleta com as almas dos próprios filhos, porque eles não sabem se os filhos serão ou não pecadores impenitentes e irão para o inferno depois deles morrerem. Imagina dormir tranquilo sabendo que você gerou uma consciência, uma alma, que corre o risco de queimar eternamente caso ela simplesmente deixe de acreditar ou seguir o seu Deus? É uma monstruosidade que só a fé pode proporcionar. Agora, imagine se esse Deus realmente existisse e mandasse almas para o inferno ao mesmo tempo em que comanda que nos multipliquemos: ele estaria ordenando a procriação ao passo que condena vários dos nascidos ao inferno depois que eles morrem. Seria uma coisa nojenta.
por Fernando Olszewski
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