Tenho 13,8 bilhões de anos e sou um fracassado
De um ano para cá, talvez um pouco mais, pipocaram vídeos tanto em inglês quanto em português com títulos como “sou um fracassado de 30, 40 ou 50 anos, não tenho amigos, família, filhos, etc.” Alguns desses vídeos também falam coisas como “o que fazer para não acabar como eu.” Boa parte desses vídeos passam a ideia de que o mundo humano, quer dizer, as sociedades humanas, são como moedores de carne, e que perdedores têm mais é que se foder e serem pisoteados mesmo. Eu concordo que em muitas sociedades, talvez na maioria delas, as coisas funcionem desse jeito, mas eu discordo que elas têm que ser assim. Acho uma babaquice — e uma burrice também — a ideia de que se o camarada não se deu bem, se ele não “venceu seus competidores” no mercado de trabalho ou nos negócios, ele tem mais é que se foder e ser pisoteado, virar favelado ou mendigo. Para mim, isso é uma mentalidade calvinista nojenta, grotesca, travestida de ciência econômica.
Mas as sociedades humanas, mesmo as melhores delas, sempre serão um subconjunto pequeno dentro de um conjunto maior que é o universo, e esse é sim um moedor de carne do qual não há escapatória uma vez dentro dele. Infelizmente, o máximo que dá para fazer é tentar tornar a existência um pouco menos desagradável para todo mundo. Não tem muito o que fazer além disso. Por exemplo, a ciência tem ajudado bastante, curando doenças e tornando a vida muito menos pior do que um dia já foi, pelo menos para quem tem acesso aos seus frutos. Mas, apesar disso, mesmo a ciência certamente nunca impedirá todas as catástrofes que podem acontecer. A existência não funciona desse jeito. Como eu disse, a única coisa que dá para fazer é tentar tornar o moedor mais confortável um pouco, como civilização. Mas até isso temos problemas de alcançar; e em lugares onde foi alcançado, há pessoas que gostariam de derrubar o que foi construído, muitas vezes acreditando naquele calvinismo nojento travestido de ciência econômica do qual falei agora há pouco.
Muitos desses vídeos, aliás a maioria deles pelo o que eu vejo, são relatos bastante pessoais. Neles, as pessoas falam de si, das suas experiências de vida, e como que suas escolhas tornaram elas fracassadas. Cada uma delas lista razões diversas para se diagnosticarem como perdedoras. É um fenômeno interessante esse tipo de vídeo. Eu penso que todo mundo que nasce já é um perdedor simplesmente por ter sido colocado num mundo onde a degradação e a morte são as únicas certezas. Para não ser um perdedor, o sujeito teria que não ter vindo ao mundo. Nós todos somos perdedores só por existirmos. Para piorar, pelo que parece, não dava nem para nós que já nascemos não termos nascido em primeiro lugar. Era para ser, e foi. É como aquele clichê de que somos o universo observando a si mesmo. Fótons vindos de uma supernova que explodiu a 500 milhões de anos-luz precisavam da nossa observação para dizerem que existiram.
O já falecido físico John Archibald Wheeler especulou sobre isso, chamando de princípio antrópico participativo. O universo gera observadores não só do agora e do perto, mas do passado distante e do muito longe. Apesar disso, Wheeler não era determinista. A especulação de Wheeler se dá mais ou menos da seguinte maneira: o universo é indeterminado por conta das leis da mecânica quântica, portanto, para se tornar determinado, ele produz sujeitos que vão observá-lo num dado momento e medi-lo, colapsando a função de onda. Caso fosse a interpretação correta da realidade, isso implicaria que o sujeito participa na formação do objeto, participa portanto da formação do universo empírico. Isso é similar à epistemologia de Schopenhauer, embora ele fosse determinista, ao contrário de Wheeler. Apesar de condenar o mundo, Schopenhauer postulava que os eventos eram para ser mesmo. A Vontade, que para ele é o fundamento metafísico do mundo, não é confinada ao espaço e tempo. Espaço e tempo são para Schopenhauer formas a priori da sensibilidade dos sujeitos que observam o universo das representações, eles tornam possível a experiência externa e interna do mundo para um sujeito. Por isso ele diz que o mundo é a nossa representação.
Mas estou me desviando do assunto aqui.
Então, voltando, nós somos perdedores mesmo, mas não necessariamente por falhas pessoais. Claro que muitos de nós fazem merda atrás de merda sem pensar nas consequências e acabam merecendo se ferrar, mas acho que a maioria não. E para piorar, o que parte das nossas elites espera de nós no século XXI é ainda mais repugnante do que elas esperavam no passado. Antes, num passado distante, mas nem tanto, ainda servíamos para ajudar os pais e o vilarejo na lavoura. Devíamos tributo do que produzíamos aos senhores da terra e eles se juntavam a nós na defesa do feudo em tempos de conflito. Mais recentemente, no século XX, servíamos como membros ativos de uma economia moderna. Contribuíamos e em troca recebíamos salários que, pelo menos na teoria, nos possibilitava ter moradia, comida, segurança, educação, etc. Agora, em 2026, você tem gente como Peter Thiel, bilionário da tecnologia que tem como guru intelectual o idiota do Curtis Yarvin, e eles ativamente pregam que a vasta maioria da humanidade não serve para nada e tem mais é que morrer logo, já que a IA proverá tudo para eles, segundo suas fantasias. Eles se enxergam como os senhores feudais da tecnologia. O Peter Thiel foi o cara que financiou toda a carreira política do JD Vance, diga-se de passagem.
Esse é o mundo escroto que temos que navegar atualmente. Torço para não piorar, mas a minha torcida e nada é a mesma coisa. Em termos individuais, o que é que dá para o indivíduo fazer para não ser um fracassado no final da segunda década do século XXI, pelo menos nos aspectos da vida que conseguimos controlar? Não sei. Não sou guru. Só penso que devemos tentar não contribuir ainda mais com a dor dos outros. Essa é a única coisa que acho que dá para todo mundo fazer. E mesmo assim quase todo mundo falha em algum grau, inclusive eu.
Agora, numa nota mais autobiográfica, eu não me vejo como um perdedor, tirando é claro no aspecto geral de ser um perdedor por ter nascido. Claro que se for medir com a régua que usam para medir o sucesso nesse mundão de merda, eu sou um fracassado completo, já que abandonei um caminho na vida onde eu seria economista e viveria nos Estados Unidos, mas sinceramente, eu estou pouco me lixando para isso. No ano passado, quando eu fiz entrevista na Unifesp para o doutorado em filosofia que não passei, esse tópico foi abordado. Durante um momento de maior descontração após perguntas mais sérias sobre o meu projeto, os professores da banca comentaram sobre o meu currículo e sobre como eu abandonei aquela vida pra vir estudar Cioran e Schopenhauer no Brasil. Não foi por isso que abandonei aquela vida, na verdade larguei porque eu sabia que não queria mais aquilo, embora não soubesse muito além disso.
Tudo isso só aconteceu bem depois dos meus 30, ou seja, há mais de uma década atrás. Ainda levariam muitos anos para começar a me interessar por filosofia e ainda mais alguns anos para decidir voltar para universidade e estudar filosofia de forma acadêmica. Só agora que finalmente comecei o doutorado, com mais de 40 anos de idade. A maioria dos meus colegas ainda não tem 30, tirando alguns. Mas, apesar de não ter sido por isso que larguei a carreira da economia e os Estados Unidos, uma coisa eu garanto: sou mais contente com a minha vida hoje, estudando Cioran e Schopenhauer no Brasil, do que era antes. Digo isso sem dúvida nenhuma. Não é que tudo ficou maravilhoso. Não é isso. O que acontece é que, antes, parecia que eu vivia dando murro em ponta de faca, tentava encaixar as peças da vida de um jeito que elas nunca vão se encaixar. Hoje em dia, a existência faz mais sentido. Não é por nada que uma das passagens que mais me marcaram na obra do Cioran foi a seguinte:
Tudo se explica na perfeição se admitirmos que o nascimento é um acontecimento nefasto ou pelo menos inoportuno; mas se formos de outra opinião, devemos resignar-nos ao ininteligível, ou então fazer batota como toda a gente.
Ele basicamente está dizendo que todo o absurdo, toda bizarrice e toda a desgraça desta vida faz sentido quando aceitamos que o nascimento foi um grande azar, um grande mal. Quando não admitimos isso, nos vemos obrigados a inventar mil subterfúgios para justificar uma realidade que é injustificável. Por isso que a consciência da consciência, a lucidez, é tão central no pensamento do Cioran; central de forma negativa, porque é através dela que a humanidade carrega o terrível peso que é saber que não passa de um animal efêmero cheio de fantasias que se degrada e morre como qualquer outro. Nossas existências são tão insignificantes e desprovidas de propósito quanto as das baratas. E isso não se aplica somente a nós que não somos ninguém. Mesmo os mais ilustres dos humanos que pisaram na Terra são condenados ao mesmo destino. Você acredita mesmo que daqui 1 milhão de anos alguém terá a mínima ideia de quem foi Jesus Cristo, Buda ou Maomé? E daqui 100 milhões de anos? E daqui 100 bilhões de anos? Não é impossível, mas é extremamente improvável. Aliás, é improvável que sequer exista alguém para lembrar.
O nosso fracasso foi existir e possuir o conhecimento de que existimos e de que um dia vamos morrer, mas não sem antes passar por um bocado de dor e tragédias aleatórias e que só fazem sentido quando inventamos fantasias sobre a providência divina, sobre a história ou qualquer outra baboseira. Vir ao mundo foi a nossa maior perda, perda da tranquilidade do vazio, da inconsciência universal na qual repousam os elementos e os vegetais, e da qual os outros animais, apesar de conscientes, estão mais próximos do que nós porque não conseguem acumular conhecimento da mesma maneira que nós acumulamos. Sua consciência é mais imediata, não perde tempo ruminando sobre essas coisas que nos atormentam e pelas quais inventamos valores positivos o tempo todo, do momento em que levantamos da cama ao momento que vamos dormir, todo santo dia. Nascer foi o nosso fracasso. Este universo todo, que permite com que seres sofram absurdamente a troco de nada, é que é um gigantesco fracasso. Um fracasso de 13,8 bilhões de anos. Comparado a isso, o resto não é nada.
por Fernando Olszewski
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