O Deus que dança

O colosso, de Francisco de Goya

Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche escreveu que só acreditaria num deus que soubesse dançar. Um dos erros de Nietzsche foi não ser mórbido o suficiente, foi se considerar poético e artístico demais, o que acabou fazendo com que ele não enxergasse que o Deus fictício (que domina as cabeças da metade abraâmica do mundo) dança, sim, e dança muito! Mas ele dança não da forma como Nietzsche acharia legal, da forma como eu e você dançamos para sublimar as desgraças da vida em momentos de descontração e alegria, momentos dionisíacos e de êxtase corpóreo que nos fundem com a imanência do devir. Nada disso. Esse Deus contra o qual Nietzsche se voltou dança e ri em cima dos pedaços de corpos desmembrados e semi-apodrecidos e em cima das vítimas aleatórias que choram de dor intensa enquanto apelam por sua piedade, uma piedade que ele não tem. É um Deus que dança coberto de sangue humano e animal. Ele é um diretor de campo de concentração que tortura brutalmente os detentos e os executa de maneira aleatória, numa programação feita de tal maneira que nenhum deles escapará, mas que se certifica que um número suficiente deles produzirá novos detentos.

Se não fosse tão forçosamente alegre em sua visão de mundo ao ponto de ser um verdadeiro masoquista, Nietzsche amaria o Deus abraâmico. Se fosse hoje, se tivesse visto o protestantismo evangélico americano e seus filhos bastardos latino-americanos, Nietzsche teria se tornado um pastor. Eles dançam pra caramba nos seus "cultos"! Nietzsche amaria. Não há nada de ascetismo ali. Só há afirmação da vida, afirmação do mundo do devir. Eles até mesmo reinterpretam passagens bíblicas nas quais Cristo claramente afirma com todas as letras que os ricos, sem exceção, não entrarão no Reino do Céu. Essas igrejas materialistas afirmam que sim, os ricos entram no Reino, os poderosos e os fortes que pisam nos fracos entram no Reino. Nietzsche amaria. Eu falo aqui, claro, de Mateus 19,24, Marcos 10,25 e Lucas 18,25. São passagens idênticas nas quais Jesus fala que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico ir para o céu depois de morrer. Em três dos evangelhos Jesus diz isso aos seus discípulos logo depois de um jovem rico perguntar para ele o que deveria fazer para ir para o céu e Jesus dizer que ele deveria dar todos os seus bens e segui-lo, ao que o jovem ficou decepcionado e foi embora.

Nas igrejas dançantes e afirmadoras da matéria, nada disso acontece. O rico, mesmo quando ele é jovem nascido em berço de ouro como no caso da passagem, é mais do que aceito: ele é visto como prova de que Deus existe. Grana é igual a Deus. Poder é igual a Deus. Dançar loucamente no palco é sinal do divino. Chamo de palco porque, convenhamos, não é um altar. Não há altar nenhum ali. E isso é certamente mais uma coisa que Nietzsche amaria. Pena que Nietzsche não prestou atenção nessas igrejas. Ele iria se refestelar. Digo que ele não prestou atenção nessas igrejas, porque esse tipo de igreja onde se dança em êxtase já existia na época dele, principalmente nos Estados Unidos. Schopenhauer inclusive faz menção a uma delas, a dos Shakers. Mas, para a defesa de Nietzsche, os Shakers, apesar da dançar, odiavam o mundo do devir e dividiam tudo de maneira comunal. Eram contra a reprodução e, hoje, só existem dois Shakers ainda vivos. Mas o fato é que já existiam os tais dos movimentos cristãos "revivalistas" nos Estados Unidos e na Inglaterra na época de Nietzsche, inclusive movimentos que afirmavam tudo o que hoje as igrejas mercantilistas e anti-ascéticas pregam. Enfim, uma pena que ele não ter visto nada disso enquanto colocava tudo no mesmo saco e se dizia diferente. Ele se sentiria em casa, na minha opinião.

São expressões religiosas afirmadoras, que dizem um sim absoluto à vida, a ponto de obrigarem meninas de dez anos estupradas pelos pais a terem filhos. Nessas igrejas há zero mortificação, zero ascetismo, zero morbidez anti-vida. Pelo contrário, eles dançam em cima dos corpos e em cima da injustiça que seu Deus produz. Dançam e se prostram perante os ricos e os poderosos do mundo. É uma esbórnia de amor à vida! Você vê mais animação ali do que numa roda de samba carioca. Aliás, é bem provável que, pelo menos hoje em dia, parte considerável dos presentes em rodas de samba cariocas sejam todos crentes ou de famílias cujas avós se converteram ao cristianismo mercantilista afirmador do mundo do devir, o cristianismo dançante que coloca os poderosos e os fortes num pedestal. Então, não muda muita coisa se é roda de samba ou se é "culto cristão." A verdade é que Deus está sambando todo sujo de sangue na cara de todos os seres que sentem dor, se reproduzem e morrem. Ele ri, acha o máximo. Realmente, a minha leitura é completamente diferente da de Nietzsche. Deus dança pra caralho.

Deus dança muito na roda de samba, dança muito no "culto", dança muito no Bukowski e na Casa da Matriz — enquanto que, do lado de fora, crianças vendem bala, cheiram cola, são espancadas e assassinadas. Isso sem contar o que acontece com os animais além do humano. Tanto aqueles bichos que vivem em ambientes urbanos, como cachorros de rua, gatos, ratos, pombos, insetos, quanto aqueles que vivem na natureza, sendo destroçados e tendo medo constante, algo comum há centenas de milhões de anos neste mísero planeta que teve o azar de brotar vida. Como eu escrevi no ensaio Tanatosfera, deveríamos utilizar o conceito de tanatosfera, inventado por mim, para nos contrapor ao conceito de biosfera. Mercúrio, Vênus e Marte não são planetas "mortos". Eles não têm vida em primeiro lugar. Se tiveram, como no caso de Marte, que talvez teve vida, ela já foi extinta há muito tempo. E ainda há a possibilidade de não ter sido vida sensível, ou seja, não havia dano num sentido moral ali, não havia dor. Agora, a Terra, a nossa mama Gaia, é um cemitério, além de ser uma câmara de tortura que vai desde a tortura física mais básica até a tortura psicológica mais complexa. A Terra é onde verdadeiramente reina a morte, não em Marte, Vênus ou Mercúrio.

E é aqui no planeta Terra que Deus dança um bocado, empapado de sangue da cabeça aos pés. Vejo como prova da existência de Deus, inclusive, a quantidade abissal e inimaginável de dor física que existe neste lugar desde que a evolução trouxe a "inovação" da dor como resposta a estímulos negativos de determinados organismos. Plantas respondem a estímulos negativos, organismos unicelulares também, mas não da mesma forma. A vida, essa coisa linda, não tornou a existência efêmera desses organismos um inferno, não introduziu neles a desgraça que é sentir dor. Nas mais simples ou nas mais complexas plantas e fungos, a dor não habita. Já nos animais, os membros mais azarados da árvore da vida, a dor só se intensifica e se torna mais profunda à medida que aumenta a complexidade, atingindo um paroxismo de ruindade nos mamíferos mais inteligentes e autoconscientes. Uma verdadeira bosta. E eu confesso que fica difícil às vezes acreditar que tudo isso, toda essa tortura, é obra de um mundo natural cego ou pelo menos desprovido de algum tipo de razão, mas que se orienta a partir de determinados parâmetros simples que dão luz à complexidade.

Às vezes, confesso, isso me parece obra de um Deus caricato mesmo, o Deus dançante de Nietzsche que está presente nas igrejas que dizem sim à vida — e que eu pessoalmente acredito que, caso vivesse hoje em dia, Nietzsche iria amar ao ponto de fazer post em suas redes sociais dizendo ter se convertido. Tenho poucas dúvidas. Todo aquele papo de dionisíaco, que é interessante e concordo em partes, cairia cairia por terra e veríamos Nietzsche recebendo o espírito santo e tremelicando no palco cristão. Grana, poder, dança e o amor de um Deus que ele sempre quis ter mas era inteligente o suficiente para saber que não existe, o que mais ele iria querer? Só um Deus que samba na cara de tudo o que é digno poderia criar o glioblastoma, a encefalopatia espongiforme e a esclerose lateral amiotrófica, doenças aleatórias que aparecem na vida de pessoas que nunca nem pediram para estar aqui. Há uma certa precisão macabra na existência das inúmeras espécies de vespas parasitoides, cujo ciclo de vida necessariamente se dá através da captura de outros artrópodes, nos quais essas vespas depositam os seus ovos, que então se abrem, dando à luz a larvas que devoram seus hospedeiros vivos, matando-os aos poucos.

Centenas de milhões de anos de seleção natural para que isso se tornasse o normal entre inúmeras espécies de vespas que são indispensáveis ao ecossistema que habitam, que são todos os continentes exceto a Antártida. Seleção natural cega ou seria isso obra do Deus dançante encharcado de sangue e entranhas de animais? Não vá pensando que ele é um Deus vegetariano, porque não é. Ele gosta de fazer carinho em bichos fofinhos apenas para depois colocar outros bichos não tão fofinhos perto deles, bichos cujas larvas causam danos à pele e aos olhos, causando cegueira permanente. Isso, aliás, acontece com humanos, inclusive muitas crianças. Um exemplo desse tipo de desgraça é a oncocercose. O mosquito borrachudo pica alguém infectado com o parasita Onchocerca volvulus e depois passa esse verme para outras pessoas. Outro exemplo, mais restrito ao oeste africano, é a loíase, que se dá basicamente da mesma forma, mas quem transmite é uma mosca e o verme se chama Loa loa.

Claro que não existe deus nenhum. Mas, de maneira poética, podemos enxergar o próprio mundo do devir, o mundo imanente que habitamos e participamos, como sendo esse Deus dançante, louco e sádico. Esse Deus metafórico existe e ele dança sim, senhor Nietzsche. Então não se preocupe, pode acreditar nele numa boa. Seu Deus dançante é um monstro que ri da cara de quem acredita ser aliado dele simplesmente por dizer um "sim" incondicional à vida. Ele ri da sua cara, senhor Nietzsche. Você jamais estará nas boas graças do divino dançarino, porque ele está pouco se fodendo para você, mais ainda do que está pouco se fodendo para mim. Aliás, pessoas como eu são seus verdadeiros inimigos, justamente por tentarmos avisar aos outros que isso aqui é terra de ninguém e que o melhor que fazemos é não produzirmos um exército de novas vítimas. A minha sorte é que ele não existe de verdade para além de uma metáfora. A minha sorte é que eu sei que o devir é mau e quer cada vez mais seres vivos participando de sua câmara de horrores.

Na literatura, ninguém retratou isso melhor que Machado de Assis, numa passagem famosa de Memórias Póstumas de Brás Cubas na qual o personagem principal tem um delírio e sonha justamente com a monstruosa vontade de vida schopenhaueriana. Isso ocorre pouco antes da sua morte, logo no começo da história. A vontade, esse deus monstruoso e dançante, tem uma conversa rápida com Brás Cubas. Aqui vai o trecho:

— Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.
Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.
— Não te assustes — disse ela —, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo.


por Fernando Olszewski