Sobre o Brasil e a Copa do Mundo
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| Nos portões da eternidade, de Vincent van Gogh |
Este é apenas um breve comentário escrito logo após a vitória da França sobre o Marrocos nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, com gols de Mbappé e Dembélé. Felizmente, a França enfrentou o Marrocos, e não a "VARgentina". Caso contrário, o VAR teria arranjado qualquer desculpa para anular um dos gols franceses e marcar pênaltis para que Messi pudesse tentar fazer gol.
Estou ficando velho. Eu tinha 11 anos em 1994, quando o Brasil venceu a Itália na disputa de pênaltis, após o jogo terminar sem gols tanto no tempo normal quanto na prorrogação. Foi uma loucura para uma criança presenciar aquilo, especialmente num país que tem o futebol como uma das suas marcas culturais. Ainda me lembro, embora com menos nitidez, de quando o Brasil perdeu para a Argentina de Maradona nas oitavas de final em 1990. Eu me lembro mais claramente de quando o Brasil perdeu por três gols de diferença para a França de Zidane, em 1998. Eu tinha 15 anos. E então veio 2002. Nas quartas de final, a Inglaterra saiu na frente contra o Brasil. O Brasil empatou com um gol de Rivaldo e, depois, no segundo tempo, Ronaldinho marcou o maior gol de falta da história das Copas do Mundo, virando o placar e garantindo a vitória.
Depois veio a final contra a Alemanha. Ronaldo, que havia vacilado em 1998, marcou dois gols, e o resto é história. Aquela foi a última vez que a seleção venceu uma Copa. Eu tinha 19 anos. De lá para cá, perdi todos os meus avós e também o cabelo. Ao perder para a Noruega nas oitavas de final desta Copa do Mundo de 2026, o Brasil entrou oficialmente no seu maior jejum de títulos na história do torneio. Era algo que inevitavelmente aconteceria, é claro. O Uruguai tem dois títulos. O último foi em 1950, conquistado contra o Brasil, bem aqui no estádio do Maracanã, perto da minha casa, perto de onde escrevo estas palavras. Posso estar enganado, mas acho que o mais perto que o Uruguai chegou de um título desde então foi quando conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de 2010.
Tive um cachorro dos 10 aos 23 anos. Tivemos que sacrificá-lo devido a um câncer doloroso e incurável, bem no meio da Copa do Mundo de 2006. Depois disso, eu realmente não estava nem aí se o Brasil ganhava ou perdia. O time perdeu para a França de Zidane, de novo. A França acabaria perdendo a Copa para uma Itália muito mais fraca na disputa de pênaltis, já que nenhuma das equipes marcou um gol sequer. Zidane deu uma cabeçada no Marco Materazzi e levou cartão vermelho. Foi uma confusão maravilhosa. Minha relação com a Copa do Mundo mudou depois que meu cachorro morreu naquele ano. A diferença é nítida. Não liguei para a derrota em 2010 e, em 2014, ri tanto daquele fiasco todo que minha mãe ficou brava comigo. Para os pouquíssimos que talvez não saibam do que estou falando, refiro-me à semifinal em que o Brasil perdeu para a Alemanha por 7 a 1. Não me importei com a derrota do Brasil para a Bélgica em 2018 e nem sequer estava acordado quando o Brasil perdeu para a Croácia em 2022.
No entanto, comemorei quando o Brasil venceu o Japão na fase dos 16 avos há algumas semanas atrás. Minha mãe ficou muito feliz. Eu também. Mas eu sabia que o time não iria muito longe. Nossos jogadores já não são lá essas coisas. Não adianta trazer o Carlo Ancelotti, técnico vitorioso do Real Madrid. Ele não faz milagres. Além disso, quem garante que ele seria o homem certo para treinar a seleção? Pois é, o Haaland marcou dois, o Neymar foi um fiasco patético, como tem sido seu papel há pelo menos 10 anos, e o Brasil se ferrou bonito num domingo. O resto do time tem bons jogadores, mas não dá para dizer que eles jogam no mesmo nível dos noruegueses, ingleses, espanhóis, belgas, franceses, argentinos, etc.
Circulam várias narrativas sobre por que não se pode dizer que o Brasil figura entre as 15 melhores seleções do mundo, e dizem 15 sendo generosos. Uma das narrativas que gosto diz respeito à lenta transição do país de uma nação de católicos não praticantes para uma nação de evangélicos neopentecostais. Dos 26 jogadores convocados para esta Copa do Mundo, apenas três não eram evangélicos. Neymar tem a fama de ostentar sua fé evangélica ao mesmo tempo em que tem vários filhos com mulheres diferentes a cada ano, apesar de ser casado, mas até mesmo Vinicius Jr. é evangélico.
Mas POR QUE isso importa? Embora eu nunca vá conseguir provar isso, gosto de pensar que importa porque o nosso neopentecostalismo (que nos é vendido desde a década de 1960, vindo dos grandes e maravilhosos EUA) possui uma teologia calvinista bastante caricata; uma teologia que ensina os fiéis a curvarem a cabeça diante dos ricos e poderosos, porque estes devem sua riqueza e seu poder à vontade de Deus. Não importa se não são cristãos, não importa se são corruptos e escravizam ou matam pobres por diversão: eles são vencedores porque Deus assim quis, e, portanto, devem ser obedecidos. Se esses ricos e poderosos, porventura, caírem em desgraça, isso deve ser obra de Deus, não dos homens.
Bem, vejo da seguinte forma: ao jogar futebol, nossos jogadores "cristãos verdadeiros" veem europeus brancos de nações historicamente protestantes como Holanda, Alemanha, Bélgica e Noruega marcando gols e sentem, no fundo da alma, que Deus deve querer que eles vençam. Assim, marcar gols contra esses adversários tementes a Deus seria um sacrilégio. Tentar empatar ou virar o jogo seria algo satânico. Foi mais fácil fazer isso contra o Japão na fase de mata-mata, porque, na cabeça dos nossos jogadores, o Japão é uma nação de pagãos. E foi fácil fazer isso contra a Inglaterra em 2002, porque, naquela época, os evangélicos ainda eram uma minoria meio silenciosa no Brasil. Eles continuam sendo minoria, mas já não são tão silenciosos assim.
Tudo isso é baboseira, claro. É uma piada ridícula. Mas agora faz parte da versão oficial na minha cabeça.
por Fernando Olszewski
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