Efemeridade; ou, A vida de inseto

Pintura de Jan van Kessel

Há um pequeno inseto alado morto de velhice em cima da minha geladeira. Eu o vi pela primeira vez tem uma semana, mas ele continua lá. Parece ser o cadáver de um crisopídeo. Mas posso estar falando besteira. Ele já devia estar lá há um tempo da primeira vez que o vi, tendo perdido sua cor verde. Crisopídeos podem viver por alguns meses. Já uma muriçoca vive entre dez e cinquenta dias, mais ou menos, eu acho. Depende se for macho ou fêmea. Machos vivem poucos dias. Fêmeas podem passar de um mês. Acho que o Aedes aegypti vive mais ou menos a mesma coisa. São seres efêmeros. Mesmo as baratas que infestam nossas ruas e casas no Rio de Janeiro, da espécie Periplaneta americana, que podem viver de dois a três anos, são seres efêmeros. Aliás, até as tartarugas gigantes das ilhas Galápagos, os animais terrestres mais longevos, são transitórios. Sim, elas podem chegar aos 190 anos, mas continuam tendo existências fugazes. Nós, humanos, também. De cem em cem anos, é como se houvesse um reset completo, como se dessem a descarga e todos — ou praticamente todos — os que estavam vivos se tornam apenas histórias, na melhor das hipóteses.

É engraçado. Falamos tanto sobre "deixar um legado" tendo filhos, mas não deixamos legado nenhum mesmo quando os temos. A vasta maioria de nós não sabe os nomes de todos os bisavós. Eu certamente não sei. No caso dos tetravós é pior ainda. Morreram, acabou. E agora estamos nós, aqui, por um período limitadíssimo. É como se nossos tetravós tivessem atuado numa peça de teatro em suas épocas, apenas para agradecerem à plateia do vazio uivante e partirem para sempre, sendo substituídos por outros atores mais jovens, sua prole. E agora chegou a nossa vez de atuarmos neste palco triste. Andamos na rua, pisando sem querer em inúmeros insetos minúsculos. Nem sequer consideramos esses seres nos cálculos do nosso dia a dia. "São fugazes", pensamos, quando muito. Mas nós também somos fugazes. É por isso que é tão escroto vivermos num mundo onde nossas breves existências servem em grande parte ao interesse de alguma metamorfose que está fora de nós. Servimos à metamorfose da religião universal, ou servimos à metamorfose do lucro, ou servimos à metamorfose de uma era de ouro utópica que se dará num suposto "final da história". Para boa parte das pessoas, o nosso sangue pode e deve lubrificar a engrenagem que move essas metamorfoses.

Imagina criar novas consciências para servir de bucha de canhão em guerras por Deus ou pelos homens? Que merda! Nessas horas, prefiro que tenham filhos pelos motivos mais egoístas possíveis — não que gerar um filho em nome de Deus ou em nome da humanidade não seja egoísmo; é, sim, e da pior espécie. Mas, honestamente, prefiro que me digam: "tive porque quis", não "porque Deus ordenou" ou "porque quero que eles ajudem o lado certo da história vencer a luta contra o lado errado". Ao menos se está sendo egoísta por algo que é um pouco mais concreto, palpável. Nunca vou entender ou aceitar de bom grado que aqueles que vivem em literais zonas de guerra criem novas consciências para que elas nasçam, cresçam e participem das batalhas, por mais justa que as batalhas possam parecer, por mais justas que elas sejam de fato. Melhor que digam que criaram essas novas consciências na esperança de que uma delas se torne um jogador de futebol rico do que digam que as criaram na esperança delas servirem de soldados de uma causa espiritual ou material. Mas, em certa medida, todos nós vivemos num campo de trabalhos forçados cercado de minas terrestres, prontos para sermos executados pela loteria da existência à qualquer momento, mas não sem antes sofrermos, então dá no mesmo.

Quando paro para pensar que podemos estar vivendo nossas vidas normalmente e do nada vir uma enxurrada apocalíptica de lama viajando entre 150 e 200 quilômetros por hora e destruir tudo ao nosso redor, incluindo a nós mesmos, num piscar de olhos, fico aterrorizado com as profundezas da nossa efemeridade. Foi exatamente isso o que aconteceu nos himalaias, entre o Nepal e o Tibete, há poucos dias atrás, depois de eu ver inseto morto em cima da minha geladeira pela primeira vez, inseto que ainda esta lá, como já disse. As imagens da tragédia no Nepal impressionam. Inclusive, agora temos uma grotesca fábrica de vídeos gerados por inteligência artificial cuja finalidade é obter milhões de cliques e grana de anúncios nas redes sociais. Os vídeos verdadeiros da tragédia, feitos por seres humanos que perderam suas casas, trabalho e entes queridos já são espantosos, mas os abutres em busca do lucro não se contentam e os multiplicam ainda mais com a artificialidade da computação gráfica gerada a partir de imagens roubadas.

Fiquei impressionado como não morreram mais pessoas nessa tragédia. Acho que a abundância das imagens fizeram com que eu esperasse algo maior ainda. Por exemplo, houve mais imagens da tsunami de 2011 no Japão do que da tsunami do oceano índico de 2004. Parece até que foi uma catástrofe maior. Mas a tsunami do Japão matou pouco menos de 20 mil pessoas, enquanto que a do oceano índico matou entre 227 mil e 230 mil pessoas em diversos países, principalmente Indonésia, Sri Lanka, Índia e Tailândia. Sim, duas tragédias gigantescas, mas uma foi mais de dez vezes maior do que a outra. De qualquer forma, vejam só que desgraça essa tragédia no Nepal: uma imensa geleira, numa das várias montanhas dos himalaias, soltou-se, resultando numa gigantesca avalanche que gerou uma reação em cadeia ao longo de um vale onde milhares de pessoas vivem à beira do rio Trishuli, que é alimentado pelas geleiras das montanhas. Esse rio, que normalmente sustenta a vida das comunidades que vivem no seu entorno, de uma hora para outra trouxe a morte na forma da destruição completa. Até o momento, pouco menos de mil mortes foram confirmadas, enquanto que mais de três mil pessoas continuam desaparecidas.

Mas nem só de tragédias grandiosas e cinematográficas sofremos nós, a humanidade. As tragédias particulares também contam. São elas que mais nos destroçam todos os dias. Por exemplo, anualmente, morrem entre cinco e seis mil pessoas atropeladas no Brasil, a maioria delas idosas. São pelo menos quinze mortes por atropelamento todos os dias. Quinze desgraças que estraçalham pais, mães, filhos, netos e amigos, deixando um rastro de tristeza e vazio para trás. Uma hora, está tudo bem. Na outra, é como se a tsunami tivesse vindo pegar somente aquele ser que você tanto ama, e mais ninguém. Sua dor não faz parte de uma dor maior, não é uma dor que sai nos noticiários do mundo todo. Ela é apenas sua e daqueles próximos a você. O mesmo ocorre com as principais causas de morte no Brasil, que são doenças cardiovasculares, neoplasias e doenças respiratórias, como a pneumonia. Excetuando a recente pandemia que tivemos, na qual a morte por síndrome respiratória se tornou uma tragédia coletiva, todas essas mortes "comuns", que recentemente têm levado cerca de um milhão e meio de brasileiros anualmente, são os desastres pessoais que destroçam a maioria dos nossos corações e nos lembram da transitoriedade da vida. Esse padrão se repete de forma similar no resto do mundo, sendo que nos países mais avançados, doenças cardiovasculares tendem a vir em segundo lugar, enquanto que o primeiro é tomado pelas neoplasias. Faz sentido: quanto mais vivemos, maior a possibilidade de células se dividirem mal e produzirem tumores.

Talvez, a coisa mais saudável que podemos fazer para tocar o dia a dia, muito embora isso não resolva a existência ao meu ver, é nos imaginarmos tão transitórios e fugazes quanto animais que vemos por aí e sabemos que morrerão em breve: baratas, ratos, pombos, morcegos, esquilos, ou o que quer que seja. Digo que é mais saudável, porque penso que viver num mundo que nega a morte e o horror como o nosso é doentio. Contudo, digo que não resolve a existência, porque pensar na efemeridade de tudo o tempo inteiro é um remédio deveras amargo. Infelizmente, no final das contas, só aguentamos mesmo o tranco desta vida fugaz, dolorosa e sem sentido através de ilusões e distrações. É o que nos resta de verdade. O tal viver corajosamente, heroicamente, é muito bonito, mas acaba sendo impraticável — e não digo que é impraticável para a maioria; é impraticável para todo mundo. Quem tenta, pira. É poético, é bonito cantar que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se pararmos para pensar, na verdade não há. Entretanto, viver assim o tempo inteiro é receita não para coisas belas, mas para a completa paranoia ou depressão. Imagine sempre abraçar a sua mãe ou quem quer que você mais ame nesta vida todos os dias pensando "esta será a última vez que farei isso". É pedir para viver na tristeza eterna, ou, então, viver na completa neurose. Não sei qual das duas é pior.

Estamos, portanto, numa sinuca de bico, sem solução real. As pseudo-soluções acabam sendo as pequenas distrações que preenchem boa parte do nosso tempo e tudo aquilo contra o qual eu falei agora há pouco: as metamorfoses do lucro, da religião e da era de ouro da humanidade, quer dizer, as farsas do lucro, da religião e do propósito da história humana. Às vezes, as pseudo-soluções são todas essas coisas juntas e misturadas, como é comum neste estágio do capitalismo, onde não faltam os vendilhões da fé metafísica, que sempre existiram, mas também abundam os vendilhões da utopia histórica e materialista, os revolucionários de araque que jamais farão revolução alguma, pois sabem muito bem ser impossível não só realizá-las, como mantê-las. Sempre foi. Seja como for, não importa o que mais aconteça, só espero que muitos de nós sejamos bons uns com os outros, ou que pelo menos sejamos o menos pior possível uns com os outros, nesse pouco tempo que temos neste universo. Digo para tentarmos ser o menos pior possível uns com os outros, porque as coisas já são muito difíceis só em virtude delas existirem e serem efêmeras. Não precisamos adicionar os juros compostos de desgraças inventadas por nós mesmos, desgraças sem nenhum outro fundamento além da nossa imaginação, em cima desta efemeridade toda.

Por isso, penso que a melhor coisa que posso fazer agora é pedir que vá lá dar um abraço naquela pessoa importante para você. Vá pedir desculpas. Tente consertar o que pode ser consertado. Diga o quanto ela torna melhor a sua existência neste universo onde nada é estável e onde existimos tão rapidamente, e diga o quanto você gostaria de a ver novamente, para sempre, em todos os universos possíveis, por mais que possa detestar ter nascido em primeiro lugar. Vá logo. Não quero que fique paranoico, mas pode realmente ser uma das últimas vezes que você poderá fazer isso. Nunca sabemos quando uma enchente, um terremoto, um deslizamento de terra ou outro tipo de desgraça mais comum, aquelas "tsunamis" particulares, como as neoplasias, doenças cardiovasculares, síndromes respiratórias, "velhice", acidentes de todos os tipos ou assassinatos, tirarão de nós essas pessoas que tanto melhoram as nossas efêmeras existências, esses seres sem os quais tudo na vida se torna ainda mais insuportável e sem razão de ser. Não precisa fazer isso o tempo todo. Como disse, penso que seja receita para depressão e paranoia pensar nisso a todo momento. Mas faça ao menos uma vez, ou de vez em quando. Abrace sua mãe, abrace seu filho, seus amigos queridos, enfim, quem quer que seja bom para você. Essas são as coisas mais importantes que temos no meio disso tudo.


Tristeza não tem fim
Felicidade, sim

(Vinícius de Moraes, A felicidade)


por Fernando Olszewski