Filmes pessimistas, parte II

O pessimismo filosófico ou cósmico gira em torno da conclusão de que o fenômeno da vida não é especial para o universo, que o sofrimento é intrínseco à existência sensível e, portanto, a nossa resposta ética deveria ser a rejeição da existência. Os filmes que trarei aqui mostram um universo não liga para os nossos sofrimentos, nem para as nossas lutas ou desejos de melhora. Esses filmes podem ser tomados por essa perspectiva do início ao fim, ou, pelo menos, têm partes marcantes que tocam nessa ideia. Embora forneça uma sinopse de cada filme, não entrarei em todos os detalhes, nem analisarei cada um dos personagens ou cenas. O que farei é apenas um apanhado geral. A lista que faço não é exaustiva e planejo acrescentar novos filmes no futuro.


Atenção: esta lista contém spoilers.

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Os Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers), 1978, dirigido por Philip Kaufman


Elizabeth é uma cientista que trabalha no Departamento de Saúde de San Francisco. Ela descobre flores diferentes na flora local e traz um exemplar para sua casa. O que ela não sabe é que as flores foram produzidas por um casulo alienígena que se ligou à flora local após vir do espaço, fugindo de seu planeta, que estava prestes a morrer. Ela volta para o apartamento que divide com seu namorado, coloca a flor num vaso e eles vão dormir. No dia seguinte, ela percebe que seu namorado está interagindo de maneira estranha, distante, sem emoções. Ela vai até Matthew, seu amigo de trabalho e, aos poucos, ele percebe que algo terrível está acontecendo: as pessoas estão sendo mortas e replicadas pelas plantas alienígenas. As réplicas têm a aparência e as memórias dos humanos originais, mas são desprovidas de emoção. Elizabeth, Matthew e um casal de amigos, Jack e Nancy, tentam escapar da cidade, mas acabam perseguidos. Jack é duplicado, depois Elizabeth, para desespero de Matthew. Dias depois, vemos Matthew caminhando pela cidade. Ele observa crianças sendo levadas em caminhões para serem duplicadas. Praticamente todos os adultos já foram duplicados e são, na verdade, alienígenas. Nancy, disfarçando as emoções para não ser pega, vê Matthew no meio de uma praça e tenta sussurrar para dizer que ela ainda era humana. Ele se vira para ela e solta um grito, característico dos alienígenas, alertando todos à volta para capturarem Nancy.

Mártires (Martyrs), 2008, dirigido por Pascal Laugier


A menina Lucie escapa de um cativeiro no qual era submetida a torturas. Ela é resgatada e vai para um orfanato. Lá, vira amiga de Anna, que percebe que Lucie acredita estar sendo atacada por uma aparição. Quinze anos depois, Lucie invade a casa de uma família e mata todo mundo. Anna vai até o local e fica horrorizada com o que sua amiga fez. Para Lucie, a família era responsável pelas torturas que passou na infância. Ela acreditava que conseguiria se livrar da aparição depois que os matasse, mas estava enganada. A aparição volta a atacá-la e Lucie comete suicídio. Anna, em choque, descobre uma passagem secreta para um complexo no porão da casa. Lá, Anna encontra uma jovem aprisionada com marcas de tortura e percebe que Lucie estava certa. Nessa hora, contudo, um grupo aparece, mata a jovem e aprisiona Anna. Uma senhora, chamada de Mademoiselle, vai até Anna e explica tudo: aquele grupo é uma organização filosófica antiga que busca descobrir o que existe após a morte. Para isso, eles torturam jovens até a beira da morte, pois acreditam que, assim, essas mártires conseguem ver o outro lado. Anna é então torturada por meses. No final, é esfolada viva e, moribunda, entra em transe espiritual. Mademoiselle é chamada para escutar seus últimos sussurros. A organização promove um evento para finalmente divulgar o segredo do pós-vida. Enquanto todos estão se reunindo na sala de uma mansão, Mademoiselle conversa com um de seus lacaios através da porta do banheiro. Ela pergunta para ele se ele consegue imaginar o que ocorre após a morte. Ele responde que não, ao que ela replica: “continue duvidando”. Depois, ela atira na própria boca com um revólver.

A Estrada (The Road), 2009, dirigido por John Hillcoat


Baseado num livro de Cormac McCarthy, o filme se passa depois de um apocalipse mundial não especificado. Seguimos um pai e um filho, ainda menino, numa jornada a pé até uma das costas dos Estados Unidos. Eles buscam alguma esperança num mundo completamente cinza, sem plantas e comida, onde o solo já não dá mais nada. Há uma escassez completa, ao ponto de quase não existirem outros animais para comer, o que faz com que muitos homens andem em bando, aprisionando pessoas mais fracas com o objetivo de canibalizá-las aos poucos. Vemos flashbacks que mostram a tentativa do pai em convencer a mãe a permanecer com ele na casa, cuidando do filho. Contudo, a mãe perde as esperanças. Ela tenta convencer o pai a matar o filho e depois cometer suicídio junto com ela, algo que muitos vizinhos já fizeram. A razão que ela dá para esse ato extremo é que o mundo acabou, não há mais ordem, além de que não há mais comida e nem esperança alguma de um retorno ao normal. Ela cita os bandos de homens que estão se aproveitando dessa situação para estuprar mulheres e crianças e depois comê-las para sobreviver. Num dos flashbacks, vemos que a mãe abandonou os dois. A única coisa que mantém viva a esperança do homem é salvar o menino, para quem ele diz que devemos sempre manter a acesa “chama” da humanidade.

Alien: o 8º Passageiro, 1979, dirigido por Ridley Scott


A tripulação do cargueiro espacial Nostromo está há meses em cápsulas de animação suspensa retornando à Terra. O computador da Nostromo acorda os sete tripulantes após receber um misterioso sinal de vida inteligente, algo que é política da corporação Weyland-Yutani, dona da cargueiro. O computador diz que o sinal parece ser de SOS. A tripulação pousa no planetoide de onde o sinal é emitido e encontra uma nave alienígena acidentada há centenas de milhares de anos. Dentro, encontram um alienígena gigante fossilizado com um buraco no tórax. Explorando mais, um dos tripulantes, Kane, acha centenas de ovos estranhos preservados. Um dos ovos se abre e um parasita se gruda à sua face. Ripley, oficial da Nostromo, percebe que o sinal não era SOS, mas de alerta. Depois de um tempo, já de volta à Nostromo, o parasita se desprende de Kane e ele acorda. Tudo parece ir bem, mas uma criatura, um xenomorfo, emerge do tórax de Kane, matando-o. Ao longo do filme, o xenomorfo cresce rápido e vai matando um por um. Descobrimos que um dos oficiais da Weyland-Yutani é um robô sintético e ele, sob comando da corporação, está disposto a sacrificar todos ali por conta do potencial econômico do xenomorfo. Só Ripley escapa com vida. O universo é malignamente indiferente.

O Enigma do Outro Mundo (The Thing), 1982, dirigido por John Carpenter


O Enigma do Outro Mundo baseia-se na história de ficção científica intitulada de Who Goes There?, do escritor John W. Campbell, Jr. Além do material original de Campbell, John Carpenter também foi influenciado pelo horror cósmico de H.P. Lovecraft. O filme se passa numa base americana isolada na Antártida. A história começa com um helicóptero da base norueguesa perseguindo um cachorro, que corre para a base americana. Do helicóptero, dois noruegueses tentam matar o cachorro e atacam os americanos, que revidam e matam os noruegueses. Após eventos bizarros na base, os americanos descobrem que os noruegueses haviam desenterrado uma nave alienígena que estava debaixo do gelo há 100 mil anos. Descobrem também que havia um ocupante e que esse ser tem a habilidade de consumir outras formas de vida, absorvendo-as e imitando-as. A paranoia toma conta de todos na base. O filme passa a mensagem de que o universo é extremamente hostil e indiferente para com a nossa individualidade e, também, para com os anseios coletivos da nossa espécie, já que a criatura consome, absorve e imita todas as outras formas de vida animal que consegue dominar, adquirindo suas memórias e sua inteligência.

Alien 3, 1992, dirigido por David Fincher


Alien 3 foi considerado decepcionante pelos fãs, que se sentiram traídos ao verem um desfecho tão triste para os personagens do filme anterior. Contudo, Alien 3 é coerente com o universo no qual se passam os primeiros filmes. Neles, há uma mega corporação, chamada Weyland-Yutani, que tenta a todo custo adquirir os xenomorfos para seu próprio benefício. Para isso, a corporação sacrificou uma tripulação de cargueiro espacial e uma colônia espacial repleta de civis. Em Alien 3 não é diferente. O filme começa onde termina o segundo: Ripley e os sobreviventes do segundo filme estão em cápsulas de animação suspensa, dentro da nave Sulaco, que ruma à Terra. Um incêndio ocorre na Sulaco enquanto eles dormem e o computador da nave ejeta o compartimento de animação suspensa, que cai num planeta-prisão, administrado pela Weyland-Yutani. Todos morrem no impacto, menos Ripley. Porém, ovos de xenomorfo estavam escondidos no compartimento. Um deles se abre e libera seu parasita, que se gruda a um cachorro. O cão gesta um novo xenomorfo, que começa a assassinar os prisioneiros. No meio do caos, Ripley descobre que está gestando um xenomorfo rainha, tendo ela própria sido parasitada enquanto estava em animação suspensa. O objetivo de Ripley passa a ser frustrar os planos da corporação. Sua vitória é a derrota da corporação e, para que isso ocorra, todas as criaturas precisam ser incineradas, o que significa que ela também terá que morrer. Entretanto, no final, a corporação continua sendo toda-poderosa. Pouco muda, tirando o fato de que agora a Weyland-Yutani não poderá mais usar aquela forma de vida extremamente perigosa.

A Mosca (The Fly), 1986, dirigido por David Cronenberg


Um cientista brilhante, Seth Brundle, inventa o teletransporte entre duas cápsulas. A princípio, ele tem dificuldades para teletransportar seres vivos, que sempre saem deformados ou mortos na segunda cápsula. Após Seth se envolver com uma repórter, Veronica, ele finalmente consegue resolver o problema. Veronica testemunha Seth teletransportar um macaco, que sai são e salvo na segunda cápsula. Depois, ele resolve testar o teletransporte por si mesmo, mas não percebe que uma mosca entra junto na primeira cápsula. Seu DNA é fundido com o da mosca, um processo que Seth é incapaz de reverter. Com o passar do tempo, vemos Seth se metamorfoseando aos poucos num monstro híbrido. Para tornar as coisas ainda piores, Veronica descobre estar grávida. Sem saber se concebeu antes ou depois da fusão genética de Seth com a mosca, ela resolve fazer um aborto. Chorando, Seth suplica para que ela não aborte, pois o filho deles será a única coisa que terá deixado para trás. Quando a metamorfose termina, o mostro, agora sem consciência humana, tenta arrastar Veronica para a primeira cápsula, com o objetivo de fundir ela e ele num só organismo. Veronica é salva por um amigo. O monstro, porém, não consegue sair da cápsula a tempo e é teletransportado junto com um pedaço da porta de metal. Agonizando de dor depois de ser fundido a um pedaço de metal, a criatura se arrasta no chão até Veronica, que agora segura uma escopeta trazida por seu amigo. O monstro usa uma de suas patas para apontar a escopeta para sua própria cabeça. A princípio, Veronica chora e se recusa a matá-lo, mas a criatura está sofrendo muito. Veronica então explode os miolos do seu grande amor.

O Mensageiro do Último Dia (The Empty Man), 2020, dirigido por David Prior


Em 1995, os amigos Greg, Fiona, Ruthie e Paul fazem trilha nas montanhas do Butão. Paul cai numa fenda e entra em transe, possuído por uma entidade, algo que os outros não entendem. Dias depois, influenciado pela entidade dentro de Paul, Ruthie mata Greg e Fiona e depois se mata. Em 2018, acompanhamos o ex-policial James Lasombra. Nora, sua amiga, pede para que ele encontre Amanda, sua filha, que acabou de desaparecer. Ele descobre que amigos de Amanda se suicidaram de formas bizarras. Na delegacia, um detetive conta para James do caso de uma mãe que deu seu bebê para cachorros de rua comerem. O detetive diz que mesmo que ela pegue a pena de morte, isso não resolve o caso, pois, para ele, “não podemos indiciar o cosmos”. James descobre que Amanda faz parte de uma seita chamada Instituto Pontifex, que existe há décadas e pretende conjurar um homem vazio, uma tulpa, através do poder da mentalização em grupo. James encontra membros da seita cultuando Paul, que está em coma há décadas num hospital. De muitos em muitos séculos, essa entidade cósmica se apossa de alguém para transmitir uma mensagem de loucura niilista. Amanda revela para James que ele é uma tulpa, uma manifestação física criada há apenas três dias para servir de novo veículo para a entidade. Como os veículos entram em coma profundo depois de um tempo, e como demora muito tempo entre um veículo e outro, o Instituto Pontifex decidiu criá-lo para servir de receptáculo e acelerar o processo. James, desesperado ao saber que sua vida é uma mentira, sucumbe à entidade e atira na cabeça de Paul. Fora do quarto do hospital, diversos cultistas se ajoelham para ele.

Sob a Pele (Under the Skin), 2013, dirigido por Jonathan Glazer


O filme segue uma protagonista alienígena que se disfarça de humana para seduzir homens que são lentamente mortos e consumidos ao serem submersos num líquido bizarro. Além dela, há um outro alienígena, disfarçado de homem, que monitora suas atividades circulando de moto. Numa determinada cena, a alienígena está numa praia vazia conversando com um surfista, tentando atraí-lo. Há também um casal com um bebê. Os pais entram na água, deixando o bebê na areia, mas acabam sendo arrastados pelo mar agitado. O surfista tenta salvá-los, sem sucesso, e depois deita exausto na areia. A alienígena pega uma rocha e bate com força na cabeça dele, fazendo-o desmaiar. Ela arrasta seu corpo para a van, ignorando o bebê que chora sozinho na praia, próximo ao mar revolto. Porém, ela acaba desenvolvendo uma certa empatia pela humanidade e pelo seu próprio disfarce de humana. Ela abandona sua missão e passa a viajar pela Escócia, vivendo experiências diferentes. Ao caminhar sozinha numa trilha, ela passa por um caminhoneiro. Quando o tempo piora, ela entra num abrigo público e dorme. Ela acorda com o caminhoneiro tentando molestá-la e foge. O caminhoneiro a alcança e tenta estuprá-la, mas acaba arrancando a sua pele de humana. Com medo, ele taca querosene na alienígena e acende o fogo, queimando-a viva.

A Autópsia (The Autopsy, Gabinete de Curiosidades), 2022, dirigido por David Prior


Parte da antologia Gabinete de Curiosidades, a história se passa no ano de 1978. Nela, seguimos o patologista Carl, que vai até uma cidadezinha a pedido do seu amigo, o xerife Natan, para realizar a autópsia de mineiros soterrados numa explosão. A explosão ocorreu depois que Joe Allen, suspeito de assassinatos macabros, entrou na mina com uma esfera misteriosa nos braços. Durante as autópsias, que estão sendo gravadas em fita de áudio, o corpo de Allen volta à vida e amarra Carl numa das macas. A criatura dentro de Allen explica que é de uma espécie alienígena que, ao longo das eras, adaptou-se para parasitar outras formas de vida. Esses seres são pequenos e horríveis, desprovidos de grande habilidade sensorial. Eles possuem apenas pequenos tentáculos que usam para pilotar sua nave, a esfera, e adentrar os corpos de suas vítimas. Eles usam os corpos de seus hospedeiros para sentir prazer e se alimentar. Agora que o corpo de Allen está morto, a criatura precisa de um novo hospedeiro urgentemente, visto que quase não tem mais sangue interno para se alimentar. Porém, ao realizar a transferência, a criatura se torna temporariamente vulnerável. Carl consegue pegar o bisturi, mas por ter as mãos amarradas perto da cabeça, não consegue esfaquear o alienígena, que está lentamente entrando no seu corpo por um corte no abdômen. Carl então esfaqueia seus próprios olhos, ouvidos, cordas vocais e garganta. Ele escreve em seu peito, com sangue: “escute a fita e me queime”. A criatura se comunica internamente com Carl, que ri, dizendo que vandalizou o corpo. Carl sangra até a morte e Natan o encontra na manhã seguinte.

Lunar (Moon), 2009, dirigido por Duncan Jones


No futuro, após o fim do petróleo, uma empresa coreano-americana minera hélio-3 na superfície da Lua para servir de combustível na Terra. A estação, Sarang, encontra-se do outro lado da Lua e é tocada por um único astronauta chamado Sam Bell. O contrato estipula que cada astronauta opere a estação por 3 anos. Durante toda a sua estadia, a comunicação com a Terra é muito ruim, feita com atraso de dias nos vídeos, algo que o deixa deprimido por tornar a relação com a sua esposa, que estava grávida quando ele partiu, muito complicada. Seu corpo começa a deteriorar e ele tem um acidente enquanto estava fora da base, minerando a Lua. Após o acidente, descobrimos que ele é um clone do Sam Bell original, visto que a IA da base acordou automaticamente um outro clone mais novo para realizar suas funções sem perceber que o acidentado sobreviveu. Os dois clones, um novo e saudável, o outro próximo da morte após quase 3 anos de vida, descobrem que suas memórias de serem casados e terem deixado uma filha na Terra são transplantadas. Eles descobrem que há um subterrâneo escondido com centenas de clones prontos para serem acordados, além de descobrirem que o sinal de comunicação com a Terra era propositalmente bloqueado. Para piorar, quando conseguem ligar para a Terra escondidos, recebem a notícia que sua esposa morreu muitos anos atrás, notícia dada pela filha do Sam Bell original, já adulta. A empresa, percebendo a merda que aconteceu, envia mercenários para matar os dois, mas um deles, o novo, escapa para a Terra, enquanto o outro fica, já à beira da morte, sem nunca ter nem pisado na Terra.


por Fernando Olszewski