Pqp!


Em 1955, o presidente brasileiro, Café Filho, licenciou-se por motivos de saúde e Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu interinamente o governo. Juscelino Kubitschek e João Goulart haviam sido eleitos presidente e vice-presidente e estavam para ser empossados. Não satisfeita com isso, parte das Forças Armadas tentou dar um golpe e impedir a posse de Juscelino e do vice. Essa facção foi influenciada por militares de alta patente anticomunistas histéricos, principalmente o contra-almirante Carlos Penna Botto, fundador e panfleteiro da Cruzada Brasileira Anticomunista. Penna Botto era desses que via comunismo em absolutamente tudo o que não fosse um retorno à sociedade escravagista. Era um sujeito bem bizarro, tosco, burro, imundo, sujo, fétido e que infelizmente deixou muitos descendentes. Quem salvou a república naquele momento foi o marechal Henrique Teixeira Lott, que liderou uma facção legalista que garantiu a posse dos eleitos. Viva o marechal Lott.

Alguns meses depois, já em 1956, o major Haroldo Veloso e o capitão José Chaves Lameirão, ambos da aeronáutica, tentaram dar um golpe de estado e derrubar o governo JK. Eles se ferraram, não conseguiram. Mas Juscelino, com medo de elevar a tensão no país, anistiou os golpistas. Só que, anos depois, em 1959, o major Veloso tentou dar um golpe de novo junto com o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier. Puta que pariu! O governo não os anistiou dessa vez e eles fugiram do país. A lição histórica que deveria ter sido aprendida é a de que um estado democrático de direito não deve nunca anistiar quem atenta contra ele. Só que a lição, claro, não foi aprendida. Em 1964, influenciados pela mesma histeria anticomunista de figuras como a do vagabundo Carlos Penna Botto, o exército brasileiro deu um golpe, derrubou o então presidente João Goulart, e iniciou vinte anos de ditadura no Brasil, que só foram acabar em 1985, dois anos depois de eu nascer. Ao final da ditadura, os militares, em acordo com a oposição controlada, aprovaram a lei da anistia, que permitiu a volta de exilados políticos de esquerda e impediu que torturadores e assassinos do regime fossem punidos quando o regime voltasse a ser democrático.

A nova constituição federal só foi aprovada em 1988 e só em 1990 tivemos o primeiro presidente eleito diretamente pelo voto popular; um presidente de direita que confiscou a poupança do país e fodeu com a vida de milhões de pessoas. Puta que pariu!

Corta para 2018. Na esteira do Brexit em 2014 e da eleição de Trump em 2016, duas grandes vitórias da nova extrema direita loucassa mundial, o Brasil elegeu um deputado inexpressivo, ladrão e caricato do Rio de Janeiro para a presidência. Ele enganou muita gente de fora do Rio, especialmente em São Paulo e no sul, que acreditaram no seu sotaque do interior de São Paulo. Enganou porque, na verdade, Jair tinha feito sua vida no Rio de Janeiro, um lugar que boa parte dos paulistas e sulistas odeiam. Ou seja, foram otários. Já presidente em 2019, Jair Bolsonaro colocou um imbecil atrás do outro nos vários ministérios. Eram imbecis que viviam fazendo cagada e sendo substituídos por outros imbecis. Logo de cara, o Jair colocou um literal nazista como ministro da cultura, um sujeito que fez um vídeo imitando Josef Goebbels, o que levou ao seu afastamento depois de aliados pressionarem o presidente, que tentou defendê-lo. Jair administrou a pandemia da Covid-19 muito mal, abraçando o discurso anticiência e antivacina. Ele atrasou a chegada das primeiras vacinas ao Brasil, o que fez com que tivéssemos o segundo maior número de mortes por Covid-19 naquele momento depois dos Estados Unidos, que tinham Trump na presidência.

Nesse meio tempo, Lula, que havia sido presidente duas vezes, entre 2003 e 2009, estava preso. Ele foi preso pela Operação Lava Jato, na qual um juiz inexpressivo atuou em conjunto com a acusação, articulando a investigação. Demorou para as pessoas entenderem que juiz não pode estar na cama nem com a defesa, nem muito menos com a acusação. Muita gente não entende até hoje, razão pela qual esse ex-juiz agora foi eleito governador do estado do Paraná. Mas, antes disso, o juiz foi ministro da justiça no governo do Jair Bolsonaro, o candidato que ele beneficiou com a prisão do Lula. Enfim, passados alguns anos, Lula, que não fugiu e enfrentou a justiça, foi solto e inocentado pelo Supremo Tribunal Federal após a Lava Jato se mostrar uma fraude e vários juízes e procuradores que fizeram parte dela serem expostos como verdadeiros trambiqueiros com uma agenda política escancarada.

Solto, Lula concorreu à presidência com Jair em 2022. Jair perdeu, mas por pouco, mostrando que boa parte do país é imbecilizada por um saudosismo ridículo dos tempos da escravidão, além do que, mais de 70% dos evangélicos votam em bloco na extrema direita mais entreguista possível. A chamada "religião evangélica" é agora a segunda maior religião do país, depois de cinquenta anos de importação americana. Quando eu nasci no começo dos anos 1980, protestantes em geral eram cerca de 5% da população. Até aí, tudo bem. Só que Jair não admitiu perder para Lula, nem seus seguidores. Eles tentaram dar um golpe de estado em Brasília, nossa querida capital, antes da posse do Lula. Lula, aliás, tinha dessa vez Geraldo Alckmin como vice presidente. Alckmin faz parte da direita tradicional, que governou o Brasil nos anos 1990 até o começo dos 2000 com Fernando Henrique Cardoso na presidência. Ele chegou a disputar a presidência com Lula em 2006. Hoje, a extrema direita considera aquele governo dos anos 1990 e início dos 2000 como sendo "comunista". Alckmin é visto por eleitores da família Bolsonaro como "comunista", também. Em vez de pararem para pensar que, talvez, eles tenham sido radicalizados, preferem realmente acreditar que Alckmin é um comunista. A burrice não tem limites mesmo.

Jair foi preso pelo STF depois da tentativa fracassada de golpe em 2022, que não deu certo em grande parte porque, nesse meio tempo, o presidente americano deixou de ser o Trump e passou a ser o Biden, cujo governo sinalizou que não apoiaria golpe no Brasil. Aliados dele que participaram da tentativa também foram presos. Se foderam. Alguns fugiram do Brasil para os Estados Unidos, como um dos seus filhos, o Eduardo. Aliás, falando nos três filhos mais velhos do Jair: eles moravam aqui na Tijuca, onde eu moro, onde nasci e cresci, e eles também. Antes de se mudarem para a Barra da Tijuca, que é outro bairro, viveram infância e adolescência toda aqui praticamente. São uns malandros. Enfim, Jair foi preso e Lula fez o terceiro mandato de 2022 até 2026. Em todas as métricas macroeconômicas, o Brasil melhorou durante esses anos. Falastrões, como aquele bilionário dono da Havan, rede de lojas que vende produtos feitos na China, disseram que o Brasil quebraria com Lula. Esse bilionário disse que fugiria do Brasil. Não só ele não fugiu, como a Havan teve lucro bilionário durante esse período. O agronegócio, que é conservador, evangélico, golpista e entreguista, lucrou rios de dinheiro, também.

Agora, nas eleições gerais de 2026, o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do Jair, foi o candidato da direita para a presidência. Concorreu com Lula, que buscava seu quarto mandato. Flávio perdeu as eleições e ficará sem cargo público pela primeira vez em quase trinta anos, desde que seu pai, o Jair, colocou-o como funcionário fantasma em Brasília. Flávio ainda é senador até janeiro de 2027, mas, menos de dois dias depois das eleições, ele fugiu para os Estados Unidos, alegando que a esquerda persegue a direita e que vivemos numa ditadura de esquerda. Isso é completamente falso. Se fosse assim, governadores eleitos e reeleitos da direita e da extrema direita, políticos como Tarcísio de Freitas, de São Paulo, Ronaldo Caiado, de Goiás, Cleitinho, de Minas Gerais, e deputados e senadores como Michele Bolsonaro, atual esposa do Jair, Carlos Bolsonaro e Renan Bolsonaro, outros dois filhos do Jair, e tantas outras figuras Brasil afora, também teriam fugido ou estariam sendo presas. Mas elas não fugiram nem estão sendo presas, porque não há indício de que essas figuras cometeram qualquer tipo de crime. Elas podem ser entreguistas, burras, e eu posso desprezar o posicionamento delas a respeito de tudo, mas elas não são criminosas.

Há também a narrativa de que houve fraude, já que Flávio ficou à frente no primeiro turno. É mentira que houve fraude. O que houve foi uma mobilização gigantesca entre o primeiro e segundo turnos. O primeiro turno de 2026 teve a maior abstenção em décadas. Muita gente não foi votar. Já no segundo turno, foi a menor abstenção em décadas. A mobilização fez com que muita gente acordasse e visse que Flávio está envolvido até o pescoço em fraude e corrupção no caso do Banco Master, do banqueiro e pastor evangélico Daniel Vorcaro, e na lavagem de dinheiro do crime organizado feita pelo advogado Willer Tomaz de Souza, que também fugiu para os Estados Unidos alegando perseguição política. Willer, aliás, apostou mais de cinco bilhões de reais em bets pelo celular num único ano. Além de bandido que lava dinheiro do crime, é um imbecil. Mas agora terá proteção do decadente e quase finado segundo governo Trump, junto com Eduardo, que foi condenado pela tentativa de golpe em 2022 e fugiu, e junto com Flávio, que agora articula prejudicar seu país em prol de uma potência estrangeira. Em caso de ataque militar dessa potência ao Brasil, todos esses deveriam ter a pena de fuzilamento sumário decretada, já que ela está na nossa legislação para esses casos.

E tudo isso por quê? Por conta de um anticomunismo histérico, aquele mesmo anticomunismo histérico do almirante Penna Botto, que considera qualquer medida trabalhista e de proteção social como sendo comunismo. Tudo isso por conta de um bando de imbecis que nunca leram Ação Humana do Ludwig von Mises, um livro tão medíocre quanto é verborrágico, mas acreditam estarem falando do maior gênio das ciências econômicas soltando seu nome aqui e ali. Tudo isso por idiotas que compraram a ideia de Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin são comunistas "moderados" que fazem parte da conspiração secreta da "estratégia das tesouras", outra histeria anticomunista patética que foi espalhada na era da internet no Brasil por ninguém menos do que Olavo de Carvalho, trambiqueiro que era — e ainda é — a ideia que pessoas burras têm de um filósofo brilhante. Só espero e torço que o governo Trump, que está prestes a enfrentar uma derrota gigantesca nas eleições de meio de mandato agora em novembro, não imponha sanções ou, pior ainda, ataque o Brasil para distrair o populacho americano que adora uma guerra. Espero isso não tanto pelo bem do Brasil, mas pelo bem dos próprios bolsonaristas, pelo bem desses 59 milhões que votaram no Flávio. Caso isso aconteça, eles não conseguirão fugir todos para os Estados Unidos ou para qualquer outro lugar.


por Fernando Olszewski