Paradoxo de Fermi: a hipótese antinatalista

O paradoxo de Fermi, informalmente postulado pelo celebrado físico Enrico Fermi, fala da contradição entre a (suposta) alta probabilidade de vida inteligente existir em outros planetas e a total falta de evidência de que vida alienígena inteligente existe. Fermi, durante uma conversa casual com outros cientistas, falou sobre o que considerava ser a enorme chance de existir vida alienígena inteligente capaz de viagem interestelar, mas indignado com a falta de evidências, teria perguntado “Onde estão todos eles?”


Space Jockey, de H.R. Giger

Existem várias resoluções para o paradoxo. Pode ser que não haja vida fora da Terra. Talvez haja vida, até vida animal, mas ela não é inteligente. Há também a chance de existir vida inteligente, mas eles, assim como nós, não são capazes de atravessar as distâncias absurdas necessárias para explorar outros sistemas solares próximos, quem dirá os distantes.

Outras hipóteses são mais doidas. Uma delas é que eles já chegaram aqui e boa parte dos avistamentos de OVNIs são realmente naves alienígenas e não pura invenção ou confusão por parte das testemunhas. Adoro essa ideia, muito embora saiba que ela é, no final das contas, fantasia. Também já propuseram que os ETs fizeram da Terra um zoológico onde eles apenas nos observam sem que notemos sua presença.

Uma ideia bastante difundida nessa discussão é a de que há um grande filtro do qual nenhuma ou quase nenhuma espécie inteligente escapa: a autodestruição. Parece-me um conceito realista, porque se observarmos a única espécie que conhecemos capaz de produzir conhecimento, ciência e tecnologia avançada — nós —, veremos que ela é altamente hostil com outras formas de vida e consigo mesma. A humanidade possui um arsenal nuclear capaz de destruir toda a civilização e, quem sabe, extinguir a si mesma. Pode ser que alienígenas inteligentes que cheguem a um estágio tecnológico equivalente ao nosso acabem sempre se autodestruindo em guerras atômicas.

Mas há outra possibilidade, a do antinatalismo. Antinatalismo é a posição filosófica que atribui um valor negativo ao nascimento. Essa é uma posição facilmente derivada do pessimismo filosófico. Antinatalistas não são necessariamente pessimistas, mas quase todos os pensadores pessimistas foram ou são antinatalistas. Aqueles que não o são declaradamente, têm, no mínimo, simpatia pela posição.

A hipótese do antinatalismo aplicada ao paradoxo de Fermi é fascinante, pelo menos para mim. Caso fosse comprovada (apesar de saber que ela nunca será), ela serviria como validação do pessimismo cósmico, pelo menos parcialmente. A ideia é mais ou menos a seguinte: qualquer espécie inteligente o suficiente compreende a realidade de que a vida nada mais é que uma incessante busca por saciedade, e que a força motora da vida é seu aspecto negativo. A carência de algo é o que move todos os seres vivos.

Quando um animal tem fome, ele come, fica satisfeito, mas depois de um tempo necessita comer de novo. Além disso, existe o tédio e a vontade de gozar. Mas quando saciamos todas essas vontades, elas retornam. A vida é um eterno ciclo de consumo de coisas para saciar vontades, até o dia em que o organismo começa a falhar e morre, isso quando ele não é devorado antes por outros organismos.

Se esse fosse o único problema que a vida possui, talvez a existência não fosse tão ruim assim, apesar de acreditar que o mecanismo da fome — que é a principal força motora da natureza — é equivalente a uma piada cruel de um deus inexistente. Mas esse não é o único problema. O aspecto negativo (isto é: fome, vontades, tédio) que move todos os seres vivos é apenas o pano de fundo. Esse pano de fundo se apresenta para nós através dos diabólicos mecanismos da dor física e do terror psicológico. Fome, tédio e vontades insaciadas causam dor e tormento.

A solução antinatalista para o paradoxo de Fermi diz que qualquer espécie inteligente o bastante percebe que esse mecanismo de vontades eternas, consumo eterno e reprodução eterna não vale a pena. Os ETs, se existiram, simplesmente escolheram deixar a existência de maneira pacífica, negando o que a natureza programou, escolhendo a não reprodução.

Entretanto, dado que a única espécie inteligente que conhecemos, a humana, não consegue se livrar dos vícios proporcionados pela vida e sua perpetuação, a perspectiva de que alienígenas vão escolher seu próprio fim através da não-reprodução me parece improvável. ETs devem ser tão viciados na vida quanto nós — não importa o quão miserável ela seja.