Pais como (literais) assassinos dos filhos

Ivan e seu filho, de Ilya Repin

O tema dos pais como assassinos dos filhos é recorrente em filosofias pessimistas. Há uma boa razão para isso. Sair do nada e vir ao mundo do devir, onde tudo está sempre se transformando e onde nada — exceto a mudança em si — é estável, para um ser senciente, significa ser exposto a um vasto número de dores inevitáveis e potenciais, apenas para morrer no final e retornar ao vazio de onde se veio. No caso de seres racionais e profundamente conscientes, sair do nada e vir ao mundo significa também ter que criar e manter valores positivos para suportar o devir. Num sentido mais básico, a vida vicia organismos sensíveis através de prazeres corpóreos. Em criaturas dotadas de razão e consciência profunda, além dos prazeres da carne, há também os valores inventados de forma consciente ou inconsciente para manter o desespero do lado de fora.

E são os pais os responsáveis mais imediatos pelo nosso ser.

Há quem veja nisso brecha para militar contra todos os que geram novas vidas, seja de forma intencional ou não. Porém, apesar de concordar num sentido geral que os pais são de certa forma os responsáveis primordiais pelas dores e pela morte dos seus filhos, não os enxergo e nem os trato como criminosos, nem como monstros sedentos por dor. Vejo eles da mesma forma como vejo a mim mesmo: são seres atritados, confusos, com maior ou menor grau de lucidez, e impulsionados por uma vontade de vida que não apenas é ela própria cega, como torna a todos cegos de tempos em tempos, mesmo os mais lúcidos de nós. Os pais são algozes dos filhos, sim, mas também são vítimas, numa grande cadeia temporal que se estende até o primeiro ancestral comum de toda a vida na Terra. Mas, claro, nada disso os torna em coitados, muito menos em heróis.

No final das contas, é melhor que não tenham filhos. Mas se os tiverem, que os tratem com amor e carinho, não sacrifiquem seus pequenos corpos e mentes no altar de algum projeto pessoal ou cultural de imortalidade, em nome do próprio ego, em nome da raça, da pátria ou da fé. Difícil, claro, mas não é impossível. Reconheçam os erros, reconheçam que não são perfeitos e, principalmente, reconheçam que não fizeram absolutamente nenhum favor aos seus filhos por tê-los colocado no mundo do devir. Inclusive, jamais, sob hipótese alguma, tratem seus filhos como se eles lhes devessem algo.

Essa posição é muito bem resumida numa cena do filme Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de 1967. Nele, o personagem John Prentice, médico que perdeu a primeira esposa e filho, interpretado por Sidney Poitier, diz algo bastante pertinente para o seu pai, um carteiro aposentado que se opõe ao seu novo casamento com uma mulher branca. Ao expor sua oposição, seu pai dá a entender que John deve tudo a ele, inclusive lembra a John as milhares de milhas que andou entregando cartas para sustentar a família. John responde o seguinte:

Deixa eu lhe dizer uma coisa. Eu não lhe devo nada! Se você carregou aquela bolsa por um milhão de milhas, você fez o que tinha que fazer, porque você me trouxe ao mundo. E desde aquele dia, você me deve tudo o que puder fazer por mim, assim como eu deverei ao meu filho, se um dia eu tiver outro.

Dito isso, falemos agora de pais como literais assassinos dos filhos, já que mais uma vez um caso desses está em evidência. Não é a primeira vez que escrevo sobre pais que matam filhos e, infelizmente, com certeza só será a última se alguma tragédia pessoal me impedir de escrever. No texto O Deus da Carnificina, mencionei dois casos no Rio Grande do Sul, um em que o pai matou o filho e enviou um áudio para a ex-mulher dizendo que cometeu uma loucurinha, o outro em que a mãe gravou um vídeo junto com a filha pequena no carro para o ex-marido dizendo que ia bater e matar elas duas. Nesse segundo caso, por sorte, ninguém morreu, apesar da mulher ter realmente colidido o carro em alta velocidade de propósito junto com a filha. O caso em evidência atualmente ocorreu em Goiás, no município de Itumbiara.

Thales Machado, que trabalhava como secretário do governo da cidade, descobriu que sua esposa, que já estava em vias de se divorciar dele, se encontrou com outra pessoa. Por isso, ele resolveu matar seus filhos, Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8, atirando nas suas cabeças e depois se matar, mas não sem antes fazer uma postagem patética nas redes sociais culpando a mãe pelos homicídios, dizendo que seus filhos se tornariam anjos e iriam com ele para o além. É pouco surpreendente o fato de que esse sujeito era um cristão conservador genérico, quer dizer: ele, apesar de ser católico, frequentava igrejas evangélicas, algo que representa muito bem a amálgama amorfa do conservadorismo religioso-político contemporâneo; um monstro de Frankenstein que tem zero respeito pelas linhas históricas e doutrinárias de séculos que dividem os ramos do cristianismo.

Apesar desse caso escancarar a podridão vácua do conservadorismo cristão performático, nem de longe esse tipo de barbaridade acontece somente entre conservadores. Qualquer progressista que se sinta um paladino acreditando que o seu lado está imune de monstruosidades como essas deve tomar cuidado, já que conservadores cristãos fazem o mesmo apontando para casos como o do garoto Rhuan Castro, de 9 anos de idade, que foi torturado durante anos e brutalmente assassinado por sua mãe e sua companheira, no Distrito Federal, em 2019. Ao meu ver, são vazias praticamente todas as análises políticas que visam marcar um gol em nome do ideal político ou religioso daquele que faz a análise de casos como esses. Filicídios ocorrem desde que o mundo é mundo, pelas razões mais diversas, mas todas têm no seu âmago o completo desdém para com o sofrimento de vidas pelas quais as pessoas que cometeram o filicídio são responsáveis. Não bastou eles gerarem vidas que sofrerão e morrerão, não bastou eles condenarem novas consciências à vida, eles também se tornaram os executores diretos da pena.

Embora a legislação brasileira utilize o termo “infanticídio” para definir o homicídio de um filho recém-nascido por uma mãe no estado puerperal, aplicando uma pena menor do que a pena de homicídio tendo em vista os problemas psicológicos que o puerpério pode causar, problemas esses que atenuam a culpa da mãe, o termo mais correto para o ato de matar os filhos no geral é filicídio. O termo infanticídio fora do direito, aliás, refere-se ao assassinato de crianças de até 1 ano por qualquer pessoa, até mesmo desconhecidos. Já o assassinato de filhos pelos pais em qualquer idade pode ser chamado de filicídio. Estatisticamente, pais e mães cometem filicídio na mesma proporção. Contudo, mães tendem a matar mais quando o filho tem até um ano e pais tendem a matar mais a medida em que os filhos deixam de ser bebês e crescem. Já quando o filicídio é praticado para atingir o outro progenitor, os pais são os que mais matam, embora uma pequena parcela desse tipo de crime também seja praticado por mães. O mesmo ocorre quando o filicídio é seguido do suicídio: os pais são os que mais cometem esse tipo de ato.

Se já é um problema moral gerar novas consciências que terão um prazo de validade num mundo de alegrias e prazeres efêmeros, mundo no qual dor e morte são as únicas certezas, a situação torna-se grotesca quando são os próprios pais os literais tormentos e carrascos dos filhos, principalmente filhos crianças e indefesos, sem a menor capacidade de entender o inferno no qual se encontram, nem o fim que os aguardam. O motivo ainda mais tosco, o ciúme e a necessidade de vingança, torna o episódio que aconteceu em Goiás ainda mais nojento. Para piorar, há milhares de homens e até mesmo mulheres defendendo o ato, ou pelo menos culpando ambos pelos tiros dados nas cabeças das crianças. Num sentido geral, todos os pais e mães no mundo são os responsáveis, sim, pelas desgraças que ocorrem com seus filhos, pois são a linha causal mais imediata do ser de seus filhos. Sem eles, não haveria aquele ser, logo não haveria a possibilidade para que desgraças pudessem existir. Porém, na concretude das ações, o responsável é o monstro em particular que aparece para destroçá-los.

No caso de Goiás, esse monstro foi o pai. E as grandes vítimas foram as crianças, que, assim como os pais delas, jamais pediram para nascer — mas uma vez nascidas, como argumenta David Benatar, aquelas crianças desenvolveram o interesse, ainda que implícito, de permanecerem vivas, ainda mais possuindo saúde e juventude. O pai tirou isso delas, tirou delas inclusive a capacidade de escolherem afirmar ou negar a vontade ao longo de suas vidas, já utilizando o linguajar schopenhaueriano. O pai não fez nenhum favor a elas, pelo contrário. Aliás, sobre a questão de cometer filicídio com supostos objetivos altruístas, lembro-me de um caso que aconteceu no Rio de Janeiro, na Barra, em 2003, no qual Waldo Wuander matou a esposa e as duas filhas adolescentes após ter perdido a fortuna, supostamente para poupá-las de uma vida menos abastada, e depois cometeu suicídio. Realmente, em último caso, a culpa pela pobreza das filhas seria dele, mas ele também não fez nenhum favor a elas tirando suas vidas, já que elas certamente possuíam o interesse de permanecerem vivas, independentemente de serem ricas ou não. E, se passassem a achar que não no futuro, seria decisão delas, não dele.

Aqui está parte da mensagem mal escrita e incoerente que o pai homicida de Goiás escreveu antes de se matar:

minha mulher saiu de Itumbiara para encontrar uma pessoa em São Paulo... todos sabem como sou intenso e verdadeiro e não iria conseguir viver mais com essas lembranças...

É para se pensar. Crianças não têm santidade alguma aos olhos dessa gente que tanto esbraveja a respeito de salvá-las das garras da imoralidade do mundo moderno e do ateísmo. Nas suas cabeças, crianças são meras propriedades a serem despendidas. Isso é antigo. Apesar de abominarem os fenícios, cartagineses, cananeus, moabitas e outros pela prática de sacrificarem crianças às forças sobrenaturais, os gregos e os romanos praticavam comumente o infanticídio e o filicídio em larga escala por razões econômicas e eugênicas, principalmente através da prática de abandonar crianças expondo-as ao relento no meio do nada, considerada diferente do assassinato imediato, visto que esse era tido como um ato bárbaro. O abandono era até encorajado caso a criança tivesse algum tipo de deformidade. Sobre isso, Aristóteles, filósofo quase que transformado em santo por cristãos ignorantes que jamais o leram, escreveu o seguinte em A Política, livro VII:

Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos, terá de haver uma lei segundo a qual nenhuma criança disforme será criada; com vistas a evitar o excesso de criança, se os costumes das cidades impedem o abandono de recém-nascidos deve haver um dispositivo legal limitando a procriação; se alguém tiver um filho contrariamente a tal dispositivo, deverá ser provocado o aborto antes que comecem as sensações e a vida (a legalidade ou ilegalidade do aborto será definida pelo critério de haver ou não sensação e vida).

O poder de vida ou morte se concentrava nas mãos dos pais, os chefes absolutos da família, e o abandono de crianças para serem expostas aos elementos e morrerem de fome, sede, frio ou ataque de animais, ou até mesmo de humanos mal-intencionados, era uma ocorrência da vida diária no mundo antigo. Isso só foi ser considerado imoral ou criminoso lá para o fim dos primeiros séculos da idade média, e mesmo assim, aqui e ali, o abandono no meio do nada continuou a ser praticado e perdurou. Perdura até hoje, aliás. Penso que talvez seja esse poder que vem à mente dos pais e mães que maltratam seus filhos, seja para machucá-los por pura maldade ou seja para (supostamente) educá-los melhor. Sentem-se em pleno direito de abusar da forma que bem entender dos pobres corpos que eles geraram e botaram no mundo, pensando terem feito um grande favor àquelas criaturas.

Há algo a mais a se dizer sobre barbáries do tipo? Sim há, mas não por mim. O meu horror começa e termina na realidade de que as vítimas nem sequer poderão encontrar uma justiça simbólica, visto que, diferentemente de casos em que os pais não cometem suicídio, aquele que perpetrou o ato em Goiás tirou a própria vida logo depois, eliminando qualquer possibilidade de pagamento. Há quem se contente, achando que sua alma sofrerá, seja em vidas futuras, seja na eternidade do inferno, mas a realidade é que nada disso acontecerá. A consciência de Thales Machado deixou de existir. Da sua perspectiva, é como se ele nunca tivesse nascido. Ficamos nós aqui, de boca aberta, perplexos, horrorizados, sem entender o porquê de haver tanta dor sem sentido no mundo. Esse nós da última frase é lírico, poético, ou que quer que queira chamar. Dá para entender, sim. Só que a resposta não agrada ninguém, mesmo aqueles de nós que entendem. O mundo é mesmo o inferno — e só há inferno.


por Fernando Olszewski