Um OVNI em Curitiba! (ufologia é de chorar de rir)

Homem inconsciente, por Richard Tennant Cooper

Eu tenho um hobby zueiro há alguns anos, que é acompanhar a ufologia gringa (e a brasileira, que basicamente repete os mesmos pontos). É hilário. E assustador. Você vê casos de pais de família com formação superior e carreiras boas matando os próprios filhos por acharem que eles são híbridos de reptilianos, além de outras merdas que não estão longe disso. Enfim, por que eu estou trazendo isso agora? Porque eu previ que, uma hora ou outra, iam circular vídeos de balões de São João brasileiros na UFOsfera das redes sociais gringas como se eles fossem UAPs — novo termo pra UFO, mas que quer dizer a mesma merda; enquanto que UFO é o mesmo que OVNI em português, Objeto Voador Não-Identificado, UAP em português seria algo como Fenômeno Atmosférico Não-Identificado, mas pode ser Anômalo ao invés de Atmosférico, já que nem os que cunharam o termo sabem definir ele direito. E não deu outra. Os gringos esses dias ficaram obcecados com um vídeo de balão de São João feito em Curitiba.

Qualquer brasileiro sabe que chega no meio do ano, às vezes bem antes, e os céus começam a encher de balões, principalmente à noite. Por mais merda que seja por diversas questões (como causar incêdios florestais), confesso que é bonito de ver às vezes. E boa parte deles são feitos de forma a soltar faíscas que ficam piscando em torno do balão. Tudo isso é feito com pirotecnia conhecida há décadas, séculos até. Mas estamos falando de imbecis que são facilmente enganados. Ano passado, em Nova Jérsei, começou uma onda de filmar aviões se aproximando para pouso ou levantando em decolagem de aeroportos e dizer que eram OVNIS. Alguns, mais cautelosos, chamavam de drones. Investigações sérias mostraram que eram apenas aviões mesmo. Mas, claro, os burros se recusam a acreditar. Da mesma forma, os burros acham que a Força Aérea americana derrubou naves exóticas em plena luz do dia ano passado. Mas eram somente balões. Um, inclusive, era o balão de pesquisa feito pelo clube de ciência de um colégio. Gastaram dezenas de milhões num único míssil para derrubar um balão de ensino médio. É a decadência e o burrismo americano escancarados para todo mundo ver, senhoras e senhores.

Mas, voltando ao vídeo do balão de São João de Curitiba. O vídeo é feito à noite e mostra os clássicos pontos luminosos, alguns piscando, saindo de um ponto principal, que é o balão em si. Qualquer brasileiro que não viva enfurnado dentro de uma casa sem janela durante toda a sua vida sabe o que é. Mas os gringos aparentemente não sabem. Alguns, menos burros, mas ainda assim muito burros, estão dizendo que o vídeo mostra parte da rede de satélites Starlink, do Elon Musk. Muitos vídeos de OVNIS recentes realmente mostram a constelação de satélites do Starlink passando rapidamente pelo céu noturno. Mas já tem um pessoal da ufologia evangélica falando que são anjos caídos biblicamente corretos. Sim, meus caros, existe ufologia evangélica, e é tão bizarra quanto é engraçada. Enquanto isso, os brasileiros que postaram o vídeo inicialmente estão se cagando de rir da burrice desse pessoal. E com toda razão. Mas, não devemos ser zueiros o tempo todo. Precisamos ser cautelosos. Nós estamos falando de gente capaz de assassinar os próprios filhos por acreditarem que eles são seres híbridos.

Quanto à ufologia evangélica, tem um meme famoso que circula há anos na internet, que é a foto da capa de um vídeo cassete da década de 1990. O vídeo é um "curso" dado por ninguém menos que o pastor Silas Malafaia. Nele, Malafaia fala sobre, e aqui estou citando a capa do VHS: "homossexualismo, aborto e depravação moral, discos voadores e extraterrestres". Se ele, um pastor evangélico da Assembleia de Deus, denominação criada nos Estados Unidos, estava falando isso em 1990, então pode ter certeza absoluta que pastores americanos estavam falando sobre em 1980 ou até antes. E estavam mesmo. Nesta altura do campeonato, a associação de discos voadores com anjos e demônios já é um tema mais velho do que eu, e olha que tenho 43 anos. Como são fundamentalistas, e como todo fundamentalismo bíblico é loucura, já que tenta seguir ao pé da letra uma série de livros que não possuem harmonia lógica entre si, além de seguir regras grotescas e imorais da idade do bronze, eles levam a sério casos de OVNIS e abduções, mas interpretam esses casos pela lente do monstro de Frankenstein que é a religião promulgada pelas Assembleias.


Não é de se surpreender, também, que antes dos cristãos mais loucos de todos se apropriarem do mito moderno dos discos voadores, as religiões místicas da chamada "nova era" já haviam feito isso na década de 1960. O raëlismo e a cientologia são os dois dos maiores exemplos de religiões ufológicas ainda vivas hoje. Essas tinham uma relação menos conturbada com os extraterrestres. Elas até abraçavam os ETs como mensageiros benevolentes das estrelas. É engraçado como o que é basicamente apenas um folclore moderno sem fundamento nenhum chega a virar tema de debate no congresso nacional da capital do burrismo atual, em Washington. Alienígenas e discos voadores são parte de um folclore impulsionado desde a época da fotografia em preto e branco e dos vídeos cassete caseiros, através de farsas descaradas que usavam calotas de pneu e lamparinas como "prova visual" de que estamos sendo visitados por seres de outros planetas — ou, se você for da ufologia mística ou evangélica, anjos, demônios, etc.

E quando falo em lamparinas, o uso delas para enganar otários continua presente nos dias de hoje. Luis Elizondo, ex-funcionário do Pentágono que há anos tem se vendido como um propagador da verdade e chegou até a depor no congresso burro dos Estados Unidos, tentou no ano passado ou retrasado promover uma foto que não passava de um reflexo de lamparina de quarto de hotel no vidro da janela como uma "nave mãe se materializando nos céus da Romênia". Estou falando sério, essas foram as palavras dele. Parte da lamparina está coberta pelo o que claramente é a cabeça de uma pessoa com cabelo espetado. Curiosamente, esse é o mesmo estilo de cabelo usado por Elizondo. O livro dele sobre OVNIS, um best-seller, chegou a aparecer na bienal do livro no Rio de Janeiro em 2025. É de chorar de rir. Além dele tentar apresentar essa foto ridícula de reflexo no vidro de janela como uma nave mãe se materializando no céu, mais recentemente ele apresentou a congressistas americanos crédulos uma foto de dois círculos de irrigação tirada de um avião como sendo, na verdade, a foto de um enorme disco voador e a sua sombra projetada no solo.

 

Não tem como levar essa merda a sério. Mas é o mundo em que vivemos hoje. E boa parte do congresso americano, inclusive boa parte que sustenta o atual governo Trump, acredita nessa merda e propaga ela. Inclusive alguns acreditam na ufologia evangélica, como no caso da congressista Anna Paulina Luna, uma trumpista de primeira ordem. Não é de se espantar que Aldo Rebelo, o nosso ex-ministro comunista e atual fã do apologista nazi-bolchevique Alexandr Dugin, está realizando entrevistas e encontros com ufólogos americanos e com esses congressistas, falando sobre como o caso do ET de Varginha realmente aconteceu, muito embora o principal investigador do caso tenha admitido que errou grosseiramente durante as investigações, fazendo perguntas tendenciosas para as testemunhas, e que na verdade o tal ET era certamente o andarilho da cidade conhecido como Mudinho, que estava agachado na moita no fim da tarde se aliviando da comida digerida mais cedo. Sim, as testemunhas que viram o ET, muito provavelmente viram o coitado do Mudinho cagando. Aldo Rebelo, aliás, foi ministro nos governos Lula e Dilma, mais de uma década depois do acontecimento em Varginha, que ocorreu anos 1996.


Um verdadeiro esculacho o que foi feito com o Mudinho. O cara que mais mereceu ganhar com a história continuou vivendo pelas ruas da cidade. Parece que continua, aliás, 30 anos depois. Para quem não sabe, em 1996, numa tarde, três meninas viram o que pensaram ser o diabo agachado numa moita na cidade de Varginha, no estado de Minas Gerais, Brasil. Mais tarde, investigadores da ufologia lotaram o local, fizeram perguntas tendenciosas às meninas e a outras pessoas que nunca sequer testemunharam nada, e criaram todo um mito sobre uma nave espacial caindo. Alguns investigadores foram até expostos por oferecer dinheiro às pessoas para elas inventarem histórias do nada. Hoje, o principal investigador do caso na época afirma com todas as letras que estava errado, que conduziu tudo de forma bem ruim, fazendo perguntas tendenciosas às meninas e outras pessoas. Ele é o mesmo investigador que desenhou a famosa imagem do alienígena agachado com base no relato das meninas. Hoje, ele tem certeza de que era Mudinho, o andarilho da cidade, que elas viram. Coitado do Mudinho.


por Fernando Olszewski