Pelo direito à eutanásia: Célia Maria Cassiano, presente!
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| O suicídio de Sêneca, de Manuel Domínguez Sánchez |
Se há um desdobramento político óbvio e direto ao ponto do pessimismo filosófico do qual vivo falando e defendendo, esse desdobramento político é o direito à morte assistida ou eutanásia. E não, não vou separar aqui morte assistida de eutanásia, como muita gente faz. Vou usar os termos como sinônimos. Penso que, desde que a pessoa moribunda queira (ou quisesse antes de fica incapacitada) morrer, não interessa se ela é capaz ou não de fisicamente aplicar a própria droga que fará com que ela descanse para sempre. Para mim, dividir a legalidade da coisa baseando-se na capacidade física da pessoa moribunda de apertar um botão para injetar determinados produtos farmacêuticos é tornar ainda mais macabro o maldito culto irracional à vida que existe em toda natureza, culto que encontra expressão máxima nas justificativas que os seres humanos dão para afirmar a vida mesmo em face de toda prova da sua inutilidade maligna. Considero ser bárbaro forçar qualquer um a viver, mesmo pessoas que não são doentes crônicos e terminais. Mas forçar doentes crônicos e terminais a viver vai além do barbarismo: é sadismo puro. É monstruoso. Não tenho dúvida de que quem força um moribundo que definha de doença terminal a ficar vivo em nome da sacralidade da vida saliva secretamente imaginando o sofrimento do coitado.
Para quem não sabe, recentemente, Célia Maria Cassiano, cientista social e mestre em multimeios pela Unicamp, professora no SESC Campinas e na Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação de Campinas, realizou o procedimento de morte assistida na Suíça. Ela tinha 67 anos e convivia há poucos anos com esclerose lateral amiotrófica, ELA, uma desgraça conhecida também como doença do neurônio motor. É uma doença horripilante. A pessoa mais famosa a ter essa doença foi o físico Stephen Hawking. Ele, no entanto, é um caso raríssimo. Quase 100% dos pacientes morrem em menos de 5 anos depois dos primeiros sintomas, e morrem de forma horrível, de forme e sufocamento, pois os músculos responsáveis pela deglutição e respiração param de funcionar aos poucos. Na Suíça, o procedimento de morte assistida para pacientes com doenças terríveis como a esclerose lateral amiotrófica é legalizado desde a década de 1940. Aqui no Brasil, como na vasta maioria do mundo, é crime. Essa é uma das principais razões pelas quais eu afirmo, sem medo de errar, que a vasta maioria do mundo é oficialmente dominado pela barbárie. É nojento. Grotesco. Vil. Mas é a realidade.
A atitude de Célia repercutiu porque, depois de morrer, um vídeo dela falando sobre como lutou para conseguir o procedimento rodou pelas redes sociais. Ela explicou como sofria o pão que o diabo amassou definhando com a doença, não só pela dor física, mas a dor da falta de dignidade. Por exemplo, ela descreveu como precisava de 3 pessoas para ajudá-la a ir ao banheiro fazer suas necessidades e se limpar. Além disso, falou sobre como a sua voz não era daquele jeito, que ela tinha uma bela voz, que estava aos poucos sendo destruída pela paralisação dos músculos de sua garganta, inclusive a sua língua. Célia disse que viveu uma vida muito boa e que queria encerrar as coisas de maneira digna e sem dor. Depois de tentar de todas as maneiras o direito pela morte assistida no Brasil, ela percebeu que jamais conseguiria se continuasse aqui nesta terra que ama tanto a vida, a luz e a esperança (e ai de quem diga o contrário!). Célia decidiu então mentir para amigos e parentes, dizendo que precisava de ajuda para fazer uma viagem para a Europa para um tratamento experimental. Dessa forma, ela conseguiu juntar os documentos, vistos e dinheiro necessário para ir à Suíça e morrer de forma digna. Ela pediu desculpas por ter mentido, mas disse que foi a saída que encontrou.
A primeira vez que vi a reportagem sobre foi numa postagem da Folha de São Paulo no Instagram, em março. Um dos primeiros comentários na postagem da Folha de São Paulo era de um sujeito de barba, camisa social e blazer, de nome Isaac Levi. Não vi mais nada sobre ele além da foto do perfil e do comentário. Mas, se tivesse que apostar, diria que ele é cristão e empreendedor. Talvez até seja advogado. Talvez seja coach. Não sei, nem quero saber. Ele escreveu o seguinte sobre a professora Célia Maria Cassiano:
Está num lugar pior agora...
Depois das reticências ao final da frase, ele colocou um emoji triste. É de pessoas assim que me refiro quando digo que os cultuadores irracionais da vida salivam de tesão ao imaginarem doentes moribundos sofrendo e definhando. É certamente por causa de tanta gente que pensa como esse possível empreendedor cristão que diversos veículos jornalísticos se sentiram obrigados nos dias subsequentes a postar histórias bonitinhas sobre outras pessoas que tinham esclerose lateral amiotrófica mas, ao contrário de Célia, decidiam permanecer vivas para tentar ver seus filhos casarem, se formarem ou coisas do tipo. Afinal, não podemos mostrar uma notícia como a de Célia sem logo mostrar que ela é apenas um caso entre vários, e que a vida na verdade é bela e não tritura ninguém sem propósito nenhum. Mesmo antes desses casos de afirmação da vida por pessoas moribundas, ainda quando a notícia era sobre Célia, os veículos jornalísticos sempre faziam questão de frisar que a doença era rara. Sim, de certa forma, é rara mesmo. Mas é muito menos rara do que se imagina. Depois do Alzheimer e do Parkinson, a ELA é a terceira doença neurodegenerativa mais comum. É comum o suficiente ao ponto de que praticamente nenhum neurologista que atenda pacientes diariamente passará semanas sem ver alguns casos.
Esse uso do termo raro para deixar todo mundo mais tranquilo é também bastante comum quando falam do glioblastoma multiforme, que é o tipo de tumor maligno mais comum do cérebro. O glioblastoma não tem cura. Depois dos primeiros sintomas, se não for feita cirurgia e tratamento agressivo com remédios e radiação, a morte chega em questão de meses. Caso haja cirurgia e tratamento, a morte vem depois de 1 ou 2 anos. A minha prima, Juliana, um dia acordou com visão dupla. A princípio até se achou que podia ser um acidente vascular cerebral ou coisa do tipo. Depois viram uma massa na cérebro e pensaram que podia ser algo benigno. A biópsia destruiu tudo. O médico, corretamente, disse para ela deixar as coisas em ordem. Foi realista. Ela morreu 7 meses depois. Contando ela, eu conheci três pessoas que morreram devido ao glioblastoma. Inclusive, quando escrevi um texto sobre isso na época, intitulado Assassinas de Milagres, eu disse que havia conhecido duas pessoas que morreram dessa moléstia. Mas depois descobri que havia mais uma outra pessoa, um outro rapaz, que morreu durante a cirurgia para a tirada do tumor. Na época, eu não sabia que era glioblastoma. Todas as 3 vítimas tinham entre 40 e poucos e 20 e poucos anos.
Essa babaquice de tachar de raras essas doenças horríveis que acometem qualquer um como roleta russa, visto que são idiopáticas, quer dizer, visto que não têm causa discernível e são aleatórias, vai muito na esteira do pensamento de pessoas como o tal do Isaac Levi. É para pessoas como ele, pessoas que representam o burrismo, a religião sertanejo-evangélica-católica e o pensamento mágico, que depois de mostrarem a professora Célia, os jornais precisam mostrar um monte de outras pessoas que, ao contrário da Célia, resolveram definhar com esclerose lateral amiotrófica porque Jesus é bom. Não basta só mostrar que a vida às vezes acaba e que há pessoas que lutam para que ela acabe de forma digna, como no caso da Célia. A maioria das pessoas é burra e quer que os jornais mostrem que a vida é maravilhosa, sim, ao ponto de que o melhor é lutar pela vida mesmo nas condições mais indignas e grotescas. Afinal, não é só uma questão de gosto para a maioria das pessoas burras. É uma questão de se submeter à vontade de Deus, que é o pai de toda a vida, e se Deus criou a vida, ela é maravilhosa e deve ser mantida mesmo quando estamos chafurdando na merda.
Claro, essas mesmas pessoas depois cagam e andam para os mendigos que sofrem nas ruas das suas cidades — isso quando não odeiam eles e até os matam, como num caso famoso que aconteceu em São Paulo há alguns anos atrás, em que o dono de uma pizzaria matou um mendigo a tiros numa viela próxima ao seu restaurante. Basta ter fé e seguir o que as igrejas mercantilistas mandam, de resto, se precisar de ajuda para comer e ter um teto, vá para o raio que o parta e não enche o saco! É como no caso do debate sobre a legalização do aborto: aqueles que mais vociferam contra o direito ao aborto são os que mais odeiam crianças de rua e festejam quando elas são chacinadas. E isso não é uma coisa que ocorre nas sombras: eles falam abertamente, fazem graça da contradição, até. No caso das doenças terminais, esses burros devem acreditar que basta a pessoa ter fé em Deus e frequentar a igreja do pastor mirim dos dentes de bala Mentex que ela será curada da sua doença do neurônio motor ou do seu glioblastoma multiforme ou do que quer que seja. Ou seja, se a pessoa escolhe morrer dignamente e não consegue ser curada milagrosamente, sua alma necessariamente está no inferno, como o querido Isaac Levi escreveu.
Em O malévolo demiurgo, Cioran escreveu algo que considero ser muito pertinente para a discussão sobre a morte assistida, eutanásia e o direito sagrado que acredito que todo ser sensível e autoconsciente tem de encerrar sua própria vida a qualquer momento, visto que foi gerado e parido sem que jamais pudesse dar seu consentimento em primeiro lugar. Cioran diz o seguinte:
O mesmo homem que diz: “Não tenho coragem de me matar”, no instante seguinte chamará de covarde um feito diante do qual até o mais corajoso se encolheria. Sempre dizem que a pessoa só se mata por fraqueza, para não ter que enfrentar o sofrimento ou a vergonha. Só que ninguém percebe que são justamente os fracos que, longe de tentar escapar do sofrimento ou da vergonha, se acomodam a tais sentimentos — e que é preciso vigor para se libertar deles de forma decisiva. Na verdade, é mais fácil se matar do que vencer um preconceito tão antigo quanto o homem, ou pelo menos tão antigo quanto as suas religiões, tão tristemente impermeáveis ao gesto supremo. Enquanto a Igreja dominava, só o louco gozava dos favores do regime, só ele tinha o direito de pôr um fim aos seus dias: seu cadáver não era profanado nem enforcado. Entre o estoicismo antigo e o “livre pensamento” moderno, entre, digamos, Sêneca e Hume, o suicídio sofreu — sem contarmos o interlúdio dos cátaros — um longo eclipse, uma era das trevas, na verdade, para todos aqueles que, querendo morrer, não ousavam infringir a proibição de tirar a própria vida.
Pouco à frente, no mesmo livro, Cioran escreve:
Desaprendemos a arte de nos matar friamente. Os antigos foram os últimos a se destacarem nisso. O suicídio que concebemos é ardente, febril, um estado inspirado; quanto ao desapego, é como convulsionários que o idealizamos. Aqueles sábios que antecederam a Cruz sabiam como romper com este mundo ou resignar-se a ele, sem drama, sem lirismo. Seu estilo se perdeu, assim como a base de sua imperturbabilidade: uma Providência usurpadora veio desalojar o Fatum de cada recanto. E nós nos apressamos em recuperá-lo, ansiando por apoio ali, quando nada mais pode nos guiar ou iludir.
Cioran fala nessas passagens sobre como na antiguidade, entre estoicos, mas não só, tirar a própria vida em face de um destino terrível era uma coisa comum, aceitável, corajosa, porque eles entendiam que não era tão fácil assim se despir da própria vida. E deveria voltar a ser desse jeito, na minha opinião. Apesar de admirar os estoicos, Schopenhauer se opunha à ideia deles de que a razão dá a palavra final. O fundamento de tudo, para ele, estava na vontade, que é cega e atira para todos os lados até o momento em que acerta em algumas coisas, não sem deixar inúmeras vítimas pelo caminho. Ele se opunha, inclusive, a ideia de tirar a própria vida, e a defesa dos estoicos de que a vida podia ser abandonada quando ela estava indo mal, seja por doença ou por outras coisas. Mas há um erro comum que muitos que estudam Schopenhauer de maneira mais superficial fazem: ele era apenas contra nos despirmos da nossa própria vida por razões comuns, seja doença ou desonra, por acreditar que, dessa forma, estaríamos na verdade afirmando a vontade, enquanto que para ele o correto seria negar a vontade. Mas para aqueles que negam a vontade, Schopenhauer não via problema algum, aliás, era para ele o caminho mais natural. Inclusive ele cita ascetas indianos que morrem por inanição, já tendo se despido de toda vontade de vida.
De certa forma, acho que Schopenhauer estava certo em grande parte. Ao que vejo, uma enorme parcela, talvez até a maioria daqueles que tiram a própria vida, fazem isso por alguma razão que, quando analisamos mais de perto, é na verdade uma afirmação da vontade de vida: eles não cometeriam o ato se estivessem satisfeitos. O negador da vontade de vida não está insatisfeito, embora também não esteja satisfeito: ele sabe que a existência é um eterno correr atrás de vontades que nunca serão totalmente saciadas. Mas eu discordo da ideia de que doentes moribundos não possam chegar a essa conclusão, mesmo que de maneira puramente intuitiva. Se Schopenhauer pensava assim de todos os doentes terminais, ele estava errado. Ao meu ver, Célia chegou à conclusão de que o melhor é negar a própria vontade, visto que ela só traria mais sofrimento na sua condição. É óbvio para mim. Não me parece que ela partiu com raiva ou desgosto — o único desgosto possível que ela teve é o desgosto que qualquer pessoa inteligente no mundo tem perante à existência: o desgosto de que aqui abundam dores e insatisfações infinitas.
por Fernando Olszewski
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