O discurso “A vida é uma merda” do filme Network (1976)
O texto a seguir é um trecho do roteiro do filme Rede de Intrigas, de 1976, estrelado por Peter Finch, Faye Dunaway, William Holden, Robert Duvall e Ned Beatty. O filme é uma comédia ácida sobre como os interesses econômicos e corporativos distorcem os padrões do jornalismo televisivo. A história gira em torno do personagem interpretado por Peter Finch, Howard Beale, um âncora de telejornal que enlouquece após se tornar lúcido demais sobre a vida e, então, é usado pelos executivos da emissora como um apresentador sensacionalista. Esse é provavelmente o meu filme favorito de todos os tempos. Tem sido assim há muitos anos, desde que o assisti pela primeira vez, no início dos meus trinta anos. Embora o filme tenha muitos discursos memoráveis, como quando Beale grita "Estou puto da vida e não vou mais tolerar isso!" na TV e o discurso particular de Arthur Jensen, o dono da emissora, no qual ele grita "O senhor mexeu com as forças da natureza, Sr. Beale, e vai pagar por isso!", o discurso a seguir, proferido no início do filme, continua sendo o meu favorito.
Note que tomei certas liberdades na hora de traduzir o termo "bullshit" para o português com o objetivo de representar mais fielmente aquilo que o discurso queria passar quando foi escrito em inglês.
Boa noite. Hoje é quarta-feira, 24 de setembro, e esta é minha última transmissão. Ontem, anunciei neste programa que cometeria suicídio em público. Sem dúvida, um ato de loucura. Bem, eu vou lhes contar o que aconteceu. Simplesmente fiquei sem mentiras de merda para dizer. Não sei outra maneira de dizer isso, a não ser que fiquei merda alguma para dizer. Merdas são todas as razões que damos para viver e, se não conseguimos pensar em nenhuma razão própria, sempre temos a mentira de merda de Deus. Não sabemos por que diabos estamos passando por toda essa dor, humilhação e decadência sem sentido, então é melhor que haja alguém em algum lugar que saiba. Essa é a mentira de Deus. Se você não gosta da mentira de Deus, que tal a mentira de merda do homem? Aquela que diz que homem é uma criatura nobre que pode ordenar seu próprio mundo, então quem precisa de Deus? Bem, se existe alguém por aí que possa olhar ao redor deste matadouro insano de mundo em que vivemos e me dizer que o homem é uma criatura nobre, acredite em mim, esse homem está cheio de merda. Eu não tenho nada. Não tenho filhos. E fui casado por trinta e três anos de uma farsa estridente e gritante. Então, não me resta mais nenhuma merda. Elas simplesmente acabaram, entende?
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