Zapffe, Nietzsche e o Trágico


Na Grécia antiga havia uma história muito comum que aparece aqui e ali, inclusive em fragmentos de Aristóteles, mas que chega para nós, homens da internet do século XXI, principalmente através do Nascimento da Tragédia de Nietzsche. É a chamada Sabedoria de Sileno. O Nascimento da Tragédia é o primeiro livro do Nietzsche e, embora ele ainda tenha um pé na metafísica nesse livro, sua tese ali já era a mesma tese pela qual a sua filosofia ficou marcada: afirmação da vida em contraposição à negação da vida que vemos em Schopenhauer e outros filósofos pessimistas, negação esta que Nietzsche coloca no mesmo saco da negação da vida das religiões, sejam elas ascéticas ou não, além de colocar tudo isso no mesmo saco do racionalismo socrático que definiu toda a história da filosofia e que, de acordo com Nietzsche, tratava o devir como algo defeituoso, um absurdo na visão dele. O próprio Nietzsche via sua filosofia como afirmação trágica da vida ou visão trágica de mundo, no sentido da tragédia grega, que serve como uma aceitação sem reservas dos horrores da existência. É o amor fati, amor ao destino, seja ele qual for. Nietzsche usa o termo "pessimismo dionisíaco" na Gaia Ciência para definir sua filosofia, em contraposição ao pessimismo rejeitador da vida de Schopenhauer.

Quando Nietzsche traz a Sabedoria de Sileno em O Nascimento da Tragédia, ele faz isso no começo da obra para mostrar como os gregos mais antigos tinham uma ideia bem deprimente da existência. Essa ideia depois foi suplantada na Grécia pela visão apolínea de mundo, na qual a vida era desejável ao ponto de que o melhor seria não morrer nunca, como ocorre com os heróis que se tornam imortais nos mitos gregos. O apolíneo, depois, é contrabalançado pelo dionisíaco, postura diante da vida que não nega a morte e dor. O trágico seria essencialmente a união entre o apolíneo, o ordeiro, o civilizado, com o dionisíaco, o caótico, o extático, e que se aproxima da noção de Vontade em Schopenhauer. O homem trágico, para Nietzsche, diz sim a tudo o que o mundo do devir proporciona: seja prazer, seja dor, seja ordem, seja caos. Isso é interessante, porque nos mesmos textos tão afirmadores da vida, Nietzsche reclama mais dos outros homens do que Schopenhauer e Cioran reclamam da existência nas suas respectivas obras. Pelo menos é assim que vejo. E posso dizer que isso é o que torna a leitura de Nietzsche tão interessante para mim. Se ele fosse apenas afirmador que desconsiderasse completamente os horrores, se tivesse uma postura absolutamente ingênua sobre o devir e sobre os homens, ele seria insuportável.

Do jeito que é, porém, eu gosto de ler Nietzsche e vejo valor em determinadas posturas dele, principalmente em O Nascimento da Tragédia, mas não só. E digo isso muito embora eu discorde totalmente da ideia de que devemos dizer um sim incondicional à vida com todos os seus horrores, dizer sim ao devir com sua completa falta de sentido cósmico. Pelo menos há em Nietzsche um reconhecimento, mesmo que demasiadamente festivo, do lado sombrio e caótico da existência. Realmente, se fosse para abraçar a existência como um bem inquestionável o qual não se pode julgar por sempre estarmos dela, por não existir nada fora dela, poderia até ser que fosse nietzscheano. Já considero que vivo a vida meu dia a dia de uma forma um tanto quanto dionisíaca, ou talvez epicurista, se considerarmos o vinho, então não seria um pulo muito grande. Mas eu não vejo a existência como um bem inquestionável. Pelo contrário. Considero ela da mesma forma que Cioran considerou em Do Inconveniente de ter Nascido. Lá, Cioran escreve que a vida é uma tara, um desvio, uma corrupção da matéria, assim como o tempo é um desvio da eternidade.

Mas, então, o que diz a Sabedoria de Sileno que circulava entre os gregos antigos? Citando a forma como Nietzsche a coloca no Nascimento da Tragédia:

Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu na floresta, durante longo tempo, sem conseguir capturá-lo, o sábio Sileno, o companheiro de Dionísio. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe o rei qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, o demônio calava-se; até que, forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: — Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.

Na mitologia grega, Sileno foi o preceptor do jovem Dionísio, o deus do vinho e do êxtase, chamado de Baco pelos romanos — de onde vem o termo bacanal, que são festas regadas à vinho, champanhe, Schincariol e nudez (perdão pela tentativa de ser cômico). Sileno serviu de figura paterna a Dionísio, tendo ensinado a ele sobre a bebida, música e os saberes extáticos. Ele era tido como profundamente sábio, razão pela qual o rei Midas quis capturá-lo. Outra versão do encontro entre Sileno e o rei Midas é mais benevolente. Nessa versão, Sileno se perdeu na floresta e foi encontrado pelos serventes de Midas, que o tratou muito bem. Dionísio, sabendo que seu tutor fora bem tratado por Midas, disse que o rei poderia ter o poder que quisesse em recompensa. Midas escolheu o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. Pouco depois, ele percebeu a merda que fez quando não conseguia mais comer, nem beber, e quando transformou sua própria filha numa estátua de ouro, matando-a. Depois, Dionísio deu um jeito e o rei Midas voltou ao normal. Tudo acabou bem, até o momento em que provavelmente aconteceu alguma outra desgraça, como de praxe na mitologia grega.

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A principal obra do filósofo norueguês falecido em 1990, Peter Wessel Zapffe, mais conhecido pelo seu brilhante ensaio, O Último Messias, chama-se Sobre o Trágico. Só muito recentemente esse livro foi traduzido do norueguês para o inglês. Ele é a tese de doutorado de Zapffe, na qual ele busca definir o conceito de trágico de maneira precisa, sem as ambiguidades da escrita ensaística e aforística, que são tipos de escrita que Nietzsche preferia. Cioran também preferia o aforismo e o ensaio livre, aliás. Eu também. Enfim. Dá para ver os conceitos de O Último Messias aqui e ali em Sobre o Trágico, mas o cerne da questão não é exatamente o mesmo, embora haja interseções em vários momentos, ao ponto de que é possível dizer que O Último Messias resume os principais pontos da grandiosa tese de Zapffe. Porém, Sobre o Trágico, embora essencialmente pessimista e contendo pitadas de antinatalismo, não é um livro que faz uma defesa da rejeição do mundo tão direta quanto o ensaio O Último Messias faz. Nesse sentido, Sobre o Trágico é um livro que pode acabar decepcionando quem procura a mesmíssima mensagem que Zapffe traz em O Último Messias, já que demora muito para essa mensagem aparecer e ela não aparece o tempo todo.

O trágico, para Zapffe, é definido como a destruição da principal possibilidade de luta de uma pessoa após uma catástrofe. Na §75 de Sobre o Trágico, ele escreve:

O objetivamente trágico, definido com a maior concisão possível, é, portanto, a destruição da principal perspectiva de luta. De outras maneiras que não as descritas acima, tal destruição, sob a dinâmica terrena atual, não pode ocorrer. Uma definição mais elaborada poderia ser a seguinte: o curso trágico acontece de tal forma que uma pessoa busca realizar um modo de vida representativo por meios representativos e, com isso, obtém um veto que destrói sua fé na vida.

Pela definição de Zapffe, nem toda catástrofe pode ser vista como trágica, mas toda tragédia será precedida de algum tipo de catástrofe. O curso trágico se dá quando um indivíduo (ou mais de um) busca concretizar um tipo de vida que contém algo de relevante ou grandioso em termos culturais, mas tem a sua busca vetada por algum fator externo ou interno a si próprio, mas que é necessariamente ligado à essa grandeza, o que destrói a fé dela na vida em si. Outra característica do curso trágico é que ele sempre é em vão. Caso não seja em vão, ele deixa de ser trágico e, em certas ocasiões, pode ser visto como realmente heroico. O adjetivo "grandioso" aqui não significa riqueza, fama, reconhecimento, pelo menos não diretamente. A grandeza está relacionada às qualidades do próprio indivíduo, que se apresentam como algum tipo de rigidez (e.g. a fidelidade inabalável à uma causa perdida) ou a alguma capacidade (e.g. uma potência intelectual que se vê confrontada por sociedade burra e violenta). Lealdade a um princípio que passou a ser mal visto, ou ter uma mentalidade curiosa que busca verdades em tempos de censura, podem resultar em catástrofe e, caso essa catástrofe destrua a fé na vida do indivíduo ou indivíduos que passam por ela, ou caso a catástrofe abale a fé na vida de um observador, ou caso ambas as coisas aconteçam, essa catástrofe será trágica.

Zapffe escreve na §93:

Definimos tragédia como a destruição da principal possibilidade de luta; no curso trágico, a ruína se encontra no caminho da esperança. Assim, no início do curso, a esperança deve estar presente, e no fim do curso, a esperança deve ser destruída — o trágico tem seu lugar no caminho entre a esperança e a ausência de esperança.

É por isso que, para Zapffe, a situação humana como um todo é trágica. Nós, como espécie, temos uma grandeza que está relacionada à nossa capacidade cognitiva, que é profunda, superequipada. Ele traz em alguns trechos do livro uma comparação que também utiliza em O Último Messias: assim como o Megaloceros giganteus, uma espécie de cervo gigante que desenvolveu galhadas enormes — galhadas que inicialmente eram benéficas biologicamente para os indivíduos da espécie mas que depois pesaram demais e contribuíram para a sua extinção —, o humano desenvolveu uma mente demasiadamente vasta e que pesa à medida em que o tempo passa, razão pela qual necessitamos de pseudossoluções para cobrir as catástrofes que destroem nossas possibilidades de luta, pseudossoluções como distrações banais e ancoragens seculares e metafísicas. Para piorar, somos rígidos na nossa falta de rigidez. Isso quer dizer que, através da nossa capacidade cognitiva, nossas mãos podem criar um mundo onde podemos voar como os pássaros, atravessar oceanos como os peixes e por aí vai. Somos capazes de muita coisa que vai além da nossa aparente insignificância física, menos capazes de inventar um propósito metafísico real e satisfatório para as nossas existências, algo que desde os primórdios buscamos como espécie; não é à toa que em todas as culturas a necessidade por respostas metafísicas sempre esteve presente.

Nossa situação é trágica para Zapffe, porque, seja para um humano que sofre ou para outro que o observa (ou para ambos), nós possuímos uma grandeza de espírito que busca uma justificativa cósmica satisfatória para o mundo do devir e para as nossas próprias vidas, mas recebemos um "veto" do universo, que vem na forma do seu total silêncio, sua indiferença monstruosa para com os nossos anseios. Nesse caso, a catástrofe é o silêncio do universo e o que torna a situação trágica é que nós possuímos uma grandeza que é a causa da catástrofe: a grandeza de querermos ser mais do que meros animais efêmeros desprovidos de um propósito maior. Uma catástrofe não precisa ser um desastre físico necessariamente, embora desastres físicos também ocorram múltiplas vezes todos os dias com diversos membros de nossa espécie. A catástrofe, no caso da tragédia humana, é uma catástrofe metafísica: o silêncio do cosmos destroça todas as âncoras metafísicas que forjamos. Não é a toa que as religiões, pelo menos a partir de um dado ponto, buscam fazer com que nós tapemos os ouvidos, fechemos os olhos e berremos coisas sem sentido. Destruir o senso crítico é um mecanismo de defesa potente da pseudossolução para a questão metafísica que é a ancoragem num dogma religioso. E não tem para onde correr com Zapffe: religiões são pseudossoluções que ajudam a afastar de nós o desespero que nos levaria ao autoaniquilamento como espécie. Os ideais seculares, e as distrações da cachaça e da esbórnia, têm a mesma função, embora esses não finjam suprir respostas metafisicas.

Na §55 Zapffe escreve:

Diante do problema metafísico em sua totalidade, qualquer pessoa que não abra mão da exigência de honestidade intelectual provavelmente sentirá sua posição dominada pela impotência e pela dúvida.

Para Zapffe, das duas, uma: ou abrimos mão da honestidade intelectual e abraçamos alguma ancoragem metafísica, ou somos tomados pela impotência e pela dúvida diante do silêncio do cosmos. Claro, depois disso, podemos desenvolver outros tipos de ancoragens não metafísicas. Podemos, também, distrairmo-nos com outras coisas, mas tudo não passará de pseudossolução. Mais para o final do tratado, Zapffe faz uma breve análise do conceito nietzscheano do trágico. Isso ocorre na §109. Zapffe deixa claro que a ideia do trágico em Nietzsche não tem a ver com o trágico da forma como ele, Zapffe, define o conceito. Para Zapffe, excetuando algumas partes de O Nascimento da Tragédia, Nietzsche tem uma ideia do trágico muito própria e muito mutável com o passar do tempo. Mas, ainda que déssemos o braço a torcer e admitíssemos que Nietzsche possui sim uma noção mais ou menos bem definida do que seria o trágico, o fato é que, realmente, ela não é a mesma daquela definida por Zapffe ao longo da sua tese de doutorado.

Em nenhuma das três fases da obra de Nietzsche, tais como Zapffe as apresenta, há uma definição do trágico que seja amplamente compatível com aquela definição dada por Zapffe. Zapffe apresenta as três fases da seguinte forma: (1) a fase do Nascimento da Tragédia, na qual Nietzsche ainda vê como "aliados" Schopenhauer e Wagner, embora já se distancie do pessimismo schopenhaueriano, enxergando na tragédia grega uma saída para a afirmação da vida através da união entre o dionisíaco e o apolíneo; (2) a fase das obras Humano, Demasiado Humano, Aurora e A Gaia Ciência, na qual Nietzsche se alia à psicologia, rompe com Wagner e prestigia o guerreiro forte que ama tudo o que a vida tem para dar, inclusive a dor, através da fórmula do amor fati; (3) a fase do Assim falou Zaratustra, Alem do Bem e do Mal e outras obras, na qual Nietzsche teria retornado a alguns pressupostos metafísicos puramente imanentes à mente humana, a fase do eterno retorno do mesmo, em que Dionísio volta, mas agora ele é um Dionísio nobre, que está para além de todos os valores e serve de protótipo máximo do além-homem que afirma o mundo do devir. Claro que essas fases não são totalmente rígidas. O conceito do eterno retorno, por exemplo, já dava as caras na segunda fase, principalmente no aforismo 341 de A Gaia Ciência.

Em suma, o trágico na visão nietzscheana acaba sendo uma postura diante da vida que recusa o pessimismo rejeitador da existência de Schopenhauer e o pessimismo filosófico em geral, algo que já se encontra lá no Nascimento da Tragédia. É algo que Nietzsche chama de "pessimismo dionisíaco" no aforismo 370 da Gaia Ciência, justamente para diferenciá-lo do pessimismo filosófico de Schopenhauer, a quem ele nomeia e se opõe no aforismo. Já Zapffe tem uma definição que ele acredita ser mais precisa do fenômeno trágico, que é definido por ele como uma catástrofe que destrói a crença fundamental na vida das pessoas afetadas. Para Zapffe, como disse antes, quando algum tipo de evento catastrófico destrói a principal perspectiva de luta, isto é, quando alguma catástrofe externa ou interna destrói aquele "algo" fundamental que faz uma pessoa acordar para ganhar o dia, dia após dia, isso pode ser visto como trágico quando tal perspectiva de luta possui algo de relevante ou grandioso culturalmente falando. Por cultura, Zapffe considera todos os esforços humanos voltados para os objetivos centrais da vida individual e coletiva. O trágico, portanto, estaria sempre ligado às formas de aspiração culturalmente relevantes na visão de Zapffe.

Mas seria possível viver sabendo da situação trágica do humano de acordo com Zapffe? Sim, claro. Ele fala isso sobre isso na §91, mas não só. Vivemos através das inúmeras pseudossoluções ou soluções substitutas. Até mesmo a noção de vida heroica e as formas de sublimação artísticas e estéticas são soluções substitutas que desviam o olhar, já que elas não podem mudar a realidade da tragédia humana. Um curso verdadeiramente trágico pode ser sobrevivido, claro, os afetados não precisam perecer. Mas sobreviver biologicamente a um curso trágico não faz com que a tragédia em si nunca tenha ocorrido e deixado sua marca inalterável. A tragédia aconteceu, o curso trágico ocorreu, ele apenas não foi capaz de obliterar a vida em si. Aliás, no caso da tragédia da condição humana, o curso trágico ocorre todos os dias desde que a autoconsciência despertou no ser humano, ou seja, desde os primórdios da nossa espécie. É por isso que o humano precisa sempre de âncoras, distrações, etc. Caso contrário, ele enlouqueceria e acabaria extinto. A consciência pesaria demais, assim como a galhada do Megaloceros.

Embora Zapffe trate bastante de catástrofes que não são tragédias, o que interessa mesmo aqui são as catástrofes que são de fato trágicas. Essas não têm soluções reais, diferentemente do que acontece no caso de situações terríveis que não necessariamente destroem a esperança na vida daqueles que são afetados direta ou indiretamente por elas. Dois exemplos rápidos são dados pelo próprio Zapffe na §55: uma pessoa que tem fome consegue comida e uma pessoa que se afoga consegue respirar após ser salva. Essas são situações que podem acabar em tragédia, claro. Elas podem destruir a fé na vida daqueles que são afetados direta ou indiretamente. Mas, nesse caso, elas tiveram soluções reais: o homem faminto comeu e o que se afogava foi resgatado e respira. Tragédias qualificadas, no entanto, só possuem pseudossoluções ou soluções substitutas, "soluções" mentirosas que nunca saram realmente a ferida. Essas soluções mentirosas são incapazes de restaurar no espírito humano a vontade de perseverar na vida. E esse é o caso da tragédia humana como um todo: não há soluções reais.

Segundo Zapffe afirma ao final da §91, tirando pseudossoluções como ancoragens metafísicas ou seculares, e tirando as distrações e o isolamento, o mais próximo de uma solução real e efetiva para a tragédia humana seria o suicídio ou, melhor, a recusa da reprodução. O curso trágico coletivo da humanidade nada mais é do que a sua falta de sentido cósmico. Na §59, ele escreve:

Somos prisioneiros da vida; somos reféns de um tirano desconhecido.

Pouco mais à frente na mesma seção, ele traz a mais explícita menção ao antinatalismo da obra e, também, menciona a inevitabilidade da extinção da espécie. Ele traz tanto a recusa da reprodução quanto o fato de que a espécie será extinta um dia como soluções reais para a tragédia que é a nossa existência, ainda que elas sejam soluções tristes e sombrias. É uma passagem bastante longa, mas que acho importante citar na íntegra:

Meu tirano é a vida, diz a dor metafísica, a vida e o impulso de viver. Nos contorcemos nas correntes da vida, e quando ela nos retorce até a última gota, somos atirados no moedor do horror para sermos transformados em novas vidas. Para lá! gritamos de vez em quando, num lampejo de lucidez. Então o tirano sorri e nos oferece uma nova esperança na qual nos lançamos de corpo e alma — e quando não é mais esperança, mas posse, então ficamos perplexos com seu vazio e gritamos novamente Para lá! Mas em troca de sermos portadores de sofrimento da mais alta ordem, de sermos devastados não apenas pela fome, pelo frio e pelos buracos nos tecidos, mas também pelo próprio desespero divino, pela angústia da escolha, recebemos a capacidade que chamamos de livre-arbítrio. Esta é a única porta que a vida deixou aberta para seu prisioneiro, para que ele possa ter a esperança e a inspiração da ideia de libertação para perseverar: Perseverar mais até que não se possa mais servir à vida através da procriação e dos meios para procriar. Então, a pessoa fica sem recursos e sem princípios estimulantes, e a vida não se importa com os movimentos corporais que a pessoa ainda realiza a caminho da sepultura comum. A vida deixou uma única capacidade desacorrentada, uma que se sente agora, o arbítrio — atrelado num relacionamento à pulsão vital.

E é contra isso que me rebelo agora, no limiar da aniquilação. Você me pegou, mas meu filho você não pegará! Você cometeu um erro fatal ao permitir que a procriação ficasse sob a minha vontade. E não foi por amor que você fez isso, mas para que eu enfrentasse essa pior das responsabilidades concretas, depois de ter me libertado dos detalhes: devo continuar com esse mal ou não? E, agora, eu não pergunto mais o que você quer, mas você precisa perguntar o que eu quero, e eu não quero mais sacrificar ao deus da vida. Eu o atingirei com a capacidade que você liberou para me atormentar; usarei minha intuição contra você e roubarei a sua presa. E os milhões de abusados ​​ficarão atrás de mim como um arado enquanto eu sacrifico minha esperança mais preciosa no altar da justiça, da rebelião e da retribuição, tornando-me o último da minha geração. E se você ainda pensa que vencerá porque minha esposa e eu não podemos ficar sem um filho, a quem daremos nosso amor, então você ainda terá que passar fome e perecer, pois haverá dois procriando, e quando tiverem um, terão aperfeiçoado suas habilidades. Então terão um que receberá seu amor e seus bens, e levará seus sonhos adiante. E sempre dois procriarão um, e eu estabelecerei esse total como um denominador sob o número da vida, e ela não será como as estrelas ou a areia do mar, mas como o rio que se torna nada na grande seca. Então você conhecerá a sua impotência e me implorará, um humano, de joelhos ensanguentados. Mas eu serei implacável, assim como você foi implacável ​​em todas as minhas horas de angústia. E por um instante eu, um ser humano, serei seu igual, sua cruel generosidade, antes que você me atinja com a noite negra enquanto eu ainda estiver vivo — a noite negra na mente que remove todas a esperança.

Vemos aqui o eco daquela antiga sabedoria grega, a sabedoria de Sileno, que nos dizia que o melhor é não nascer e que, uma vez nascidos, a melhor coisa é a extinção, a descontinuação do ser. Tantas voltas que demos desde o antigo pessimismo grego que, ao que parece, existiu antes mesmo do nascimento da filosofia pré-socrática. Tantas voltas para chegarmos às mesmas conclusões sobre a vida. Tantas voltas. Para nada.
 

por Fernando Olszewski