A triste ‘patologização’ do pessimismo
![]() |
| Filósofo em contemplação, de Rembrandt |
Existe algo que considero ser triste, para não dizer patético, sempre que surge o assunto do pessimismo cósmico, pessimismo filosófico, ou como quer que queiram chamar. É a patologização escancarada do pessimismo, tolerada e até mesmo incentivada, mesmo quando se discute o tema na academia. Absolutamente todas as pessoas que patologizam o pessimismo pensam da seguinte maneira: "se você concorda com a tese de que, dada as estruturas do universo, não ser é melhor do que ser, você não tem apenas uma filosofia diferente da minha, você é um doente mental que precisa cuidar da cabeça." Se isso soa ridículo, é porque é. E não adianta virem agora dizer que não fazem isso, porque fazem, e isso sim é de enlouquecer. Não à toa, pessimistas, tanto na academia quanto fora dela adquirem o hábito de tomar cuidado para não pisar em ovos. E é mentira que críticas construtivas sejam oferecidas regularmente. Não são.
Nessas horas, fico até com saudade de quem acha a crítica feita por Luckács ao pessimismo de Schopenhauer algo bem elaborado. Perto da patologização do pessimismo feita comumente, até que Luckács é bem fundamentado mesmo. Está anos-luz à frente. Basicamente, se você chega à conclusão de que a vida sensível é efêmera e inevitavelmente repleta de dores porque o universo em que vivemos se dá de tal forma, então você é dodói da cabeça e precisa de tratamento. Mas dos grandes pensadores pessimistas da história recente, apenas dois tiraram a própria vida: Philip Mainländer e Albert Caraco. Mainländer tirou a própria vida como testamento à sua filosofia. Para ele, o cosmos é a fragmentação de um uno primordial — leia-se: Deus — que, cansado da própria eternidade, resolveu aniquilar-se. Ao invés do mundo do devir ser a manifestação de uma vontade de vida indivisa, como é em Schopenhauer, ele é uma manifestação de uma vontade de morte fragmentada para Mainländer. Mainländer não tirou a vida por ser deprimido, tirou porque seguiu à risca a sua filosofia.
Mas ele nem precisava ter seguido à risca. Seguiu porque quis. Bom para ele. Já Schopenhauer jamais viveu como asceta, muito embora a figura do asceta que nega a vontade em si próprio fosse o suprassumo da sua ética. Até o fim dos seus dias, Schopenhauer viveu mais como um epicurista do que qualquer outra coisa: recebia amigos em sua casa e aproveitava a fama que conseguiu após a publicação dos Parerga e Paralipomena. É engraçado isso. Virou um truísmo bobo dizer que Schopenhauer e pessimistas no geral só são assim porque eram deprimidos, rabugentos e tinham uma má disposição psicológica ou até fisiológica. Nisso, há uma grande contribuição da parte de Nietzsche, para quem a fisiologia da pessoa realmente influencia na sua filosofia. Para ele, Sócrates era um doente, fracote, e por isso sua filosofia que rebaixava o devir em favor de um mundo ideal inexistente. Platão, seu seguidor, deixou-se enfraquecer e continuou o seu projeto de fraqueza rebaixadora da existência concreta. Mas tem um problema nisso tudo. É sabido que tanto Sócrates quanto Platão não eram nada fracos. Um tinha treinamento militar e lutou na guerra do Peloponeso, o outro era literalmente um marombeiro que lutava como esporte. Mesmo Schopenhauer não era disposto à fraqueza, doenças, nem nada do tipo.
É aí que entra a pseudo-análise tosca contemporânea. "Sim," dizem, "pode até ser que os rejeitadores do devir, os idealistas e pessimistas, não fossem fracos corporalmente, mas eles certamente tinham algum problema mental! Eram fracos mentalmente!" Se isso soa patético, é porque é patético. E não adianta agora dizerem que não falam nesses termos, com essas exatas palavras, porque falam. Ao menos assumam, será mais digno. Podia encerrar o texto aqui, mas estou só começando. Peter Zapffe, filósofo pessimista e antinatalista norueguês do século XX, era montanhista, trilheiro e vivia com um sorriso no rosto. Há uma montanha no norte da Noruega que leva o seu nome: Monte Zapffe. Ele casou duas vezes: a primeira com Bergljot Johnsen, de 1935 até 1941, a segunda com Berit Christensen, de 1952 até a sua morte em 1990. Apesar dessa boa disposição toda, Zapffe, no documentário O pessimista bem-humorado, exibido pela NRK, empresa pública de rádio e televisão norueguesa, disse o seguinte:
De acordo com a minha concepção de vida, escolhi não trazer filhos ao mundo. Uma moeda é examinada e, somente após cuidadosa deliberação, entregue a um mendigo, enquanto uma criança é lançada à brutalidade cósmica sem hesitação.
Esse documentário foi gravado e exibido em 1990, o ano de sua morte. Já Emil Cioran, o pessimista franco-romeno, vivia encontrando amigos como Samuel Beckett para trocar ideias, além de viajar de bicicleta pela Europa com a sua parceira, Simone Boué, com quem viveu de 1942 até a sua morte, em 1995. Ele exibiu o mesmo tipo de pessimismo antinatalista de Zapffe, escrevendo um livro intitulado Do Inconveniente de Ter Nascido, de onde tiramos a seguinte citação:
Ter cometido todos os crimes, exceto o de ser pai.
Certamente, algum espírito de porco dirá que um deles foi divorciado e o outro possivelmente teve problemas no relacionamento de décadas com sua parceira, ignorando que pessoas que afirmam a vida como um bem inquestionável continuarão compondo a esmagadora maioria dos divorciados, dos pais e mães ausentes, dos assassinos, drogados, deprimidos, suicidas, e, também, continuarão compondo a esmagadora maioria das pessoas que são escrotas seus parceiros, e escrotas no geral, também. Quando pais ou mães aniquilam suas próprias famílias e depois tiram suas próprias vidas, quando homens assassinam suas parceiras, fala-se muito sobre como tais pessoas buscam o controle absoluto, ou sobre como eram maus, eram demônios, entre outras coisas. Não vejo nada disso. Vejo pessoas que amam tanto a vida e, para usar o linguajar de Schopenhauer, pessoas que afirmam tanto a própria vontade de vida, que elas estão dispostas a machucar o outro "por amor". Sim, por amor mesmo. Amam tanto que não conseguem viver sem. Amam apaixonadamente, sem o menor desapego, pelo contrário. Essa abundância de amor e afirmação é fonte infinita de desgraças. Eremitas do deserto e monges enfurnados em monastérios na floresta ou na montanha causam menos dano do que os bem ajustados amantes da existência.
É o "sim" incondicional à vida que é fonte de todo o sofrimento, de toda a desgraça, e não a negação, que começa com a diminuição de si próprio diante do mundo. E isso não é só no humano. Somos apenas um dentre vários animais; o que tem maior liberdade aparente de escolha. Há centenas de milhões de anos, as florestas e os oceanos estão cheios de vida animal que, por conta da sua programação natural, dizem um "sim" incondicional à vida. Basta ver o matadouro que são as travessias de rios na savana africana, as cenas grotescas de zebras tentando matar a sede em águas infestadas de crocodilos gigantes. Algumas escapam com as tripas balançando para fora da barriga, apenas para serem devorados vivos por hienas e leões. Não há uma quebra entre essa desgraça natural e a nossa desgraça humana, é ingenuidade acreditar que há, visto que viemos do mesmíssimo lugar. Somos obra da mãe natureza, obra da Mama Gaia. E ela não está nem aí para o sofrimento. Se pudesse, ela nos mataria todos. Ela não é Gaia, a mãe que nutre e quer o bem de sua incontável prole. Está mais para Medeia. E isso na melhor da hipóteses. Pode muito bem ser que ela não seja uma assassina, mas uma torturadora sádica, que tenta preservar a vida no sofrimento e na dor o máximo possível, como a figura de Pandora no delírio de Brás Cubas.
No meu último texto, eu trouxe uma citação de A conspiração contra a raça humana, livro de Thomas Ligotti sem tradução para o português, embora haja tradução para o espanhol. A citação é a seguinte:
O otimismo sempre foi uma política não declarada da cultura humana — uma política que surgiu de nossos instintos animais de sobrevivência e reprodução — em vez de um corpo de pensamento articulado. É a condição padrão do nosso sangue e não pode ser efetivamente questionada por nossas mentes nem posta em grave dúvida por nossas dores. Isso explicaria por que, em qualquer época, existem mais canibais do que pessimistas filosóficos.
É a mais pura verdade. Por isso é tão fácil para qualquer um dizer que o pessimismo é uma doença mental, uma condição psicológica que requer tratamento: porque o estado "normal" é otimismo, a afirmação. De certa forma, estão certos, mas não no sentido em que acreditam. Eles acertam sem querer, e só no sentido de que algo em nós nos faz enxergar o mundo da forma como ele realmente é, sem os óculos otimistas que a seleção natural e cultural implantou na maioria dos homens. Nós vemos que o mundo é um inferno travestido de paraíso, ou, pelo menos, travestido de um paraíso em potencial. Sim, estamos "quebrados", mas não temos um problema psicológico a ser tratado e curado. O que quebrou em nós foram os óculos da ingenuidade, esses que funcionam a mil maravilhas em tantos milhões de afirmadores da vida — milhões esses que, apesar de dizerem um "sim" incondicional à vida, vivem entrando em depressão, desespero, angústia, e em estados de violência homicida; tudo isso sem que precisem da ajuda do pessimismo filosófico. Aliás, se perguntarem a eles, vão dizer que acham os pessimistas "doentes". É o fim da picada um negócio desses. É escancaradamente óbvio que, quanto mais otimista, quanto mas afirmador da vida e de si próprio, maior o rastro de desgraça, lágrimas e sangue que se deixa. Mas não. O problema é o pessimista, insistem.
Em Sobre o Trágico, Zapffe escreve:
A esperança autotélica, enquanto valor imaginário positivo, é sustentada pelo ocultamento (isolamento mental) como complemento negativo. Faz parte das "boas maneiras" não se falar muito sobre decepções e perdas, doenças e dores, a vacuidade do casamento e o sofrimento da velhice, o lado sombrio da vida sexual, os detalhes da digestão e o horror da morte. [...] O "funcionário que veste a camisa" sempre sabe como evitar ou reescrever, e contribui positivamente para a higiene autotélica comum gritando coisas como: Vai ficar tudo bem! Continue sorrindo! Seja otimista! Mantenha a cabeça erguida! Tempo, tempo! Anime-se, velho marinheiro, etc. Os jornais são cautelosos ao descrever casos de infortúnio, e indivíduos suficientemente lamentáveis são removidos de locais públicos com auxílio policial.
Por toda a crítica que posso fazer a Nietzsche, ao menos ele escreveu, nos fragmentos póstumos publicados como A Vontade de Poder:
A verdade é feia. Nós temos a arte para que não pereçamos de verdade.
Ele escreve isso muito embora ele tenha escrito antes, na mesma seção 822, que a bondade é sinal de falta de dignidade, decadência, fraqueza, etc, remontando à velha ideia dele do homem superior dionisíaco como afirmador da vida. Tudo bem, é um direito dele e de qualquer um afirmar a vida e achar que essa postura é superior à do pessimista. De novo, nada anormal: está remando a favor da corrente, pelo menos de acordo com a minha perspectiva. Mas ao menos ele faz isso sem o subterfúgio da crença de que tudo é lindo e sem acusar o pessimista de ser um doente mental que necessita de tratamento simplesmente por enxergar que a vida é desgraçada. Sim, para Nietzsche, o pessimista é doente, mas não por enxergar as dores do mundo. Pelo contrário, nesse aspecto, Nietzsche considera os pessimistas corretos, enxergam o que otimistas ingênuos não enxergam. O pessimista é doente, para Nietzsche, porque ele tem uma postura errada perante a vida, uma postura que diminui a sua própria potência. Porém, o diagnóstico do mundo como uma desgraça que é suportada pelas pessoas está em Nietzsche. Na Gaia Ciência, ele escreve:
Se não tivéssemos aprovado as artes e inventado essa espécie de culto do não verdadeiro, a percepção da inverdade e mendacidade geral, que agora nos é dada pela ciência — da ilusão e do erro como condições da existência cognoscente e sensível —, seria intolerável para nós. A retidão teria por consequência a náusea e o suicídio. […] Como fenômeno estético a existência ainda nos é suportável.
Nietzsche não diz que pessimistas são doentes e devem ser tratados porque enxergam o mundo como um vale de lágrimas, ele diz que os pessimistas são doentes e devem ser tratados porque, ao invés de se adaptarem a este mundo que é o único que existe, rejeitam-no, demonstrando fraqueza entre outras coisas; coisas que apontei não terem sido atributos de pessimistas e idealistas como Schopenhauer, Mainländer, Zapffe e Cioran. Continua sendo torpe acusar eles de fraqueza sem que de fato eles sejam fracos? Sim, mas é muito menos torpe do que o comum e grosseiro apontamento de que, só por eles verem as estruturas da existência da forma que elas são, os pessimistas têm depressão profunda, são doentes que, quando tratados, veem que as coisas são lindas e possuem um propósito maior. As coisas não são lindas e possuem um propósito maior. Qualquer propósito que elas possuem são propósitos menores, fisiológicos, químicos e físicos, sem nenhum finalidade significativa perante o todo do cosmos. Durantes mais de cem milhões de anos, o clado Dinosauria dominou a Terra. Uma rocha de cerca que tinha entre 10 e 15 quilômetros acabou com isso. A que grande propósito racional serviram? Nada.
Penso que se não fazem isso com Marx, se não fazem com Nietzsche, se não fazem com Deleuze, se não fazem com o diabo a quatro, então que não façam com os pessimistas — não julguem suas conclusões a respeito do mundo, da existência, a partir das suas predisposições mentais. Não os patologizem, transformando o que é um pensamento legítimo em doença. Caso contrário, fica aberta a temporada para todos se utilizarem desse artifício. Um pessimista poderia chegar e dizer coisas como: "afirmadores da vida são doentes eufóricos que se refestelam e riem mesmo chafurdando na miséria e na dor; são delirantes, têm alucinações visuais e auditivas que os fazem acreditar que, por trás do mundo, há um espírito, ou acreditam que a arte é capaz de nos salvar, ou que há um Deus no céu que os escuta. Precisam de tratamento." Não faço isso. Posso achar que estão equivocados, que são ingênuos muitas vezes, que projetam padrões onde eles não existem, como na história, ou até que acreditam em ilusões. Mas nada disso faz com que os afirmadores da vida sejam pessoas enfermas da cabeça que precisam de tratamento, independentemente se eles são nietzscheanos, hegelianos, marxistas, heideggerianos, deleuzianos, losurdistas, ou o que quer que seja.
Mas a quem estou enganando? Isso nunca vai acabar, porque é uma forma de varrer para o canto uma ideia que desagrada sem que se aborde ela. Mesmo quando se confronta a ideia mais diretamente, já utilizam subterfúgios ridículos, como no caso da análise de Schopenhauer feita por Luckács que mencionei antes, análise essa que em nenhum momento trata realmente da conclusão pessimista de que a existência é estruturalmente problemática para além dos nossos melhores esforços de torná-la melhor. Mesmo quando confrontam mais diretamente a ideia do pessimista de que o não ser é melhor do que ser, ainda o fazem através de sofismas sobre a inexistência ser impossível e sobre como supostamente não temos como saber se uma vida futura terá sofrimentos, algo que é risível. Quando vejo que até mesmo os poucos que não simplesmente patologizam o pessimismo tratam ele de forma tão aquém do que deveriam, não tenho nenhuma esperança de que a vasta maioria irá parar de tratá-lo como doença mental.
por Fernando Olszewski
Copiar link
Twitter
Facebook
Whatsapp
Telegram
