Teologia da Prosperidade: a 5ª coluna do burrismo
I.
Antes de tudo, tenho certeza que preciso explicar o que significa a expressão "quinta coluna", porque muita gente não sabe. Quinta coluna é um termo usado para designar pessoas pertencentes a um grupo que praticam ações que favorecem um grupo rival. Ele foi popularizado na guerra civil espanhola, mas talvez tenha sido criado antes. Há várias versões da história e seus detalhes não interessam aqui. O que é importante é o seguinte: todas as versões giram em torno de um general das forças nacionalistas que estava prestes a entrar na cidade de Madri com quatro colunas de soldados fortemente armados. O general, que dependendo da versão foi Francisco Franco, Emilio Mola ou algum outro, teria dito que esperava ser saudado por uma quinta coluna de apoiadores dentro da cidade. Madri era um reduto republicano, mas lá havia um amplo contingente de pessoas dispostas a apoiar os fascistas. Isso ocorreu poucos meses depois do começo da guerra civil, ainda em 1936.
E o que eu quero dizer com "burrismo"? Burrismo é o termo informal que eu e alguns outros têm dado à total ausência de pensamento crítico nas pessoas. E o que é pensamento crítico? É a capacidade de analisar, interpretar e avaliar alegações feitas pelos outros antes de aceitá-las como verdade. Aquele que pensa criticamente questiona se existem evidências que dão suporte à alegação, se as fontes para tal alegação são confiáveis, a quem interessa fazer a alegação e a origem dela. Pensamento crítico é a capacidade de julgar uma informação de forma lógica, cética e sem viés; ou, pelo menos, julgá-la da forma mais lógica, mais cética e menos enviesada possível. Dada essa definição, o leitor (ou ouvinte) inteligente deste meu texto percebe que nós estamos fodidos. Estamos no olho do furacão do burrismo. Vivemos na era do zap-zap há um bom tempo, e ela potencializa grandes imbecilidades, como, por exemplo, conspirações antivacina, conspirações de Terra plana, Illuminati, entre outras tantas teorias conspiratórias burríssimas.
A teologia da prosperidade e outros movimentos religiosos afins são a quinta coluna do burrismo. Veja, quinta coluna não significa aquilo que dá origem, mas sim uma coluna de suporte, que vem ao auxílio. O burrismo, a ausência e até aversão ao pensamento crítico, é algo que a coluna da teologia da prosperidade e outros movimentos religiosos afins ajudam a suportar. Ela foi parida no século XX, durante um dos vários movimentos revivalistas evangélicos nos Estados Unidos da América, país que tem como um dos seus pilares, desde a sua fundação, a aversão ao pensamento crítico. Essa teologia caiu como uma luva nas mãos do ocidente durante a guerra fria. Os Estados Unidos, cuja educação já havia emulado a educação prussiana no século XIX e implementado a eugenia no começo do século XX, ficaram virtualmente blindados de influências socialistas e comunistas graças em grande parte aos evangélicos envolvidos com a teologia da prosperidade e outras ideias relacionadas.
A educação puramente utilitarista do pós segunda guerra, que reservava o ensino do senso crítico apenas para os filhos das elites, agora tinha como aliada uma religião que, diferentemente do catolicismo e do protestantismo tradicional, era escancaradamente pró-grana, pró-ricos e pró-poderosos, uma religião que defecava no seu próprio texto sagrado, a Bíblia, corrompendo ele descaradamente. O brilhante nisso foi o apaziguamento da população. Poucas décadas antes, sindicatos e movimentos trabalhistas nos Estados Unidos foram capazes de fazer pressão suficiente para que legisladores criassem o seguro social, folgas e condições mínimas de dignidade. Agora, porém, a população estava dócil e pronta para agir emocionalmente contra qualquer um que falasse mal dos ricos e poderosos. Claro, também ajudou que, entre o New Deal dos anos de 1930, até meados dos anos de 1970, impostos sobre grandes fortunas eram altíssimos e o governo federal americano financiava a classe média, cujo crescimento não se deu por conta de políticas econômicas liberais, muito pelo contrário. Não é a toa que desde que essas políticas foram desmanteladas por completo no começo da década de 1980 a classe média americana tem encolhido década após década.
Mas como isso tudo foi possível? Para entender, precisamos estudar a história americana para além da propaganda e dos mitos.
II.
Tirando meia dúzia dos seus fundadores, principalmente Benjamin Franklin, o resto dos Founding Fathers já representava bem o burrismo. Veja: burrismo não impede um grupo de se tornar muito forte e muito poderoso. Até porque ele consegue parasitar aqueles inteligentes o suficiente, que criam as tecnologias sem as quais o poder não se sustenta. Os Estados Unidos ainda são o país mais poderoso da Terra. Apesar da sua clara decadência econômica, social e cultural, decadência essa que tem origem justamente a partir de 1980, a China, hoje a segunda maior potência econômica e militar do mundo, não chega perto do poderio do império americano. Eles ainda têm muita gordura para queimar antes disso acontecer. Porém, é um fato que os Estados Unidos, desde a sua fundação, foi guiado para ter aversão ao pensamento crítico. Isso, inclusive, até ajudou a se tornar o império que se tornou. De certa forma, se esse era o objetivo, parabéns. Não dá para dominar quase o planeta todo com soldados que pensam criticamente; e eu não falo só de soldados militares, mas soldados diplomatas e empresários, também.
O rei George III, que era o monarca inglês durante a guerra de independência dos Estados Unidos, foi chamado de tirano pelos líderes das treze colônias. Até hoje ele é chamado de tirano nos textos escolares americanos. Contudo, embora ele não fosse um grande iluminista, George III tinha o seu poder limitado pelo parlamento britânico, além de ser um grande fomentador da educação e das artes, não só na metrópole, mas também nas colônias norte-americanas. A independência ficou marcada pelo grito de "sem representação, não há tributação", que significa que eles queriam ser representados no parlamento da metrópole, algo que é válido, mas a declaração de independência, documento histórico assinado por pessoas ilustres como Franklin, John Adams e Thomas Jefferson, acusa o monarca britânico de algumas coisas muito estranhas, que estão além de cerceamento da representação política, a não ser que se considere genocídio e escravidão direitos políticos das treze colônias. Um trecho da declaração diz que o rei George III:
Provocou insurreições internas entre nós e procurou trazer contra os habitantes das fronteiras os índios selvagens e impiedosos, cuja regra sabida de guerra é a destruição sem distinção de idade, sexo e condições.
As insurreições internas às quais a declaração de independência dos Estados Unidos se refere são revoltas de africanos escravizados. Não é brincadeira. A declaração de independência dos Estados Unidos declara que uma das razões para a independência foi a monarquia britânica incentivar a revolta de escravos, incentivar que eles buscassem a libertação. Em 1775, o lorde Dunmore prometeu liberdade aos escravizados que fugissem de seus donos, donos esses que estavam se rebelando contra a metrópole. É por isso que a declaração de independência, escrita em 1776, fala que o rei da Inglaterra estava incentivando "insurreições internas". Segundo os Founding Fathers, escravos eram propriedade de seus donos e deveriam obedecê-los. Rebeliões, mesmo de seres humanos subjugados à força por outros, eram consideradas "insurreições" pelos líderes da independência americana.
Já a alusão racista às fronteiras e aos indígenas toca num outro ponto. A coroa britânica reconheceu territórios de nações indígenas ao oeste dos montes Apalaches após a guerra dos sete anos entre as principais potências europeias. Ela não fez isso por bondade, claro, mas porque as colônias norte-americanas também fizeram parte daquele conflito mundial. Muitos indígenas participaram, aliando-se ou à França, ou à Inglaterra. A Inglaterra foi vitoriosa, mas revoltas indígenas contra os colonos fizeram com que os ingleses buscassem apaziguar a situação, com o intuito de não terem mais gastos que consideravam desnecessários. Portanto, a partir da proclamação de 1763, só a coroa britânica teria direito a negociar compra e venda de territórios com os indígenas. Os colonos, principalmente os donos de terra que viriam a liderar a independência americana, achavam isso uma bosta. Eles queriam poder expandir suas terras por meios não muito legais, sem o consentimento da metrópole.
Ou seja: dois dos principais aspectos trazidos pelos arquitetos da independência das treze colônias foram a manutenção da escravidão dos africanos e a invasão e roubo de terras indígenas. A coisa já começou mal. Mas, até aí, podemos dizer que praticamente nenhuma nação, se é que há alguma, tem origens nobres e bondosas, mesmo as nações nascidas recentemente. A questão toda é que aquela elite que liderou a independência contra os ingleses não ferrou somente negros e indígenas, mas seus próprios filhos, através de uma cultura de obediência quase que cega à autoridade e uma mitologia nacional de desconfiança para com a intelectualidade. Sim, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e outros Founding Fathers eram intelectuais próximos dos iluministas europeus, mas eles eram também escravocratas, racistas, assassinos de indígenas. Para piorar, apesar de honrados pela história americana, eles foram logo jogados para escanteio. Pessoas como Andrew Jackson — um populista anti-intelectual — tomaram as rédeas do país na geração seguinte.
Andrew Jackson foi o sétimo presidente. Ele teve dois mandatos seguidos, governando entre 1829 e 1837. E nele já se encontra o arquétipo do cabra que desconfia dos experts, dos intelectuais e das elites sociais, grupos que cada vez mais queriam a abolição da escravidão dos negros. Embora Jackson se vendesse contra as elites sociais, ele era um dono de terras, escravocrata e absurdamente rico. Sua mansão tinha colunas de estilo grego e papel de parede vindo da França. Jackson entrou logo após John Quincy Adams, que foi visto como intelectual esnobe. Sim, esse é mesmo John Quincy Adams que, anos depois, na presidência de Martin Van Buren, advogou a favor dos africanos escravizados que se rebelaram e tomaram o navio Amistad. O caso ganhou notoriedade porque Martin Van Buren, que fora vice de Jackson e era seu aliado, queria devolver os escravos à Cuba, então colônia espanhola. Já Adams advogou a favor da liberdade deles na suprema corte americana e conseguiu fazer com que eles fossem libertos. Eles retornaram à África, para a região de Serra Leoa, de onde foram sequestrados. O governo dos Estados Unidos se recusou a pagar pela viagem, que foi financiada por grupos abolicionistas americanos.
III.
Ao longo desse tempo todo, principalmente ao longo de todo o século XIX, do seu início ao fim, os Estados Unidos expandiram seu território muito além do que originalmente era, através de negociações legítimas, mas, também, através da anexação forçada. Foi esse século que moldou de vez o mito do americano como self-made man, o homem que constrói a sua vida através do seu próprio esforço e mérito. O mito do homem da fronteira, que desbrava territórios e acumula uma fortuna veio dessa época, fundindo-se com a própria mitologia do velho oeste na segunda metade do século XIX. Aquela época e lugar formam o paraíso dos libertários: uma terra quase sem lei, onde tudo é (supostamente) negociado de igual para igual por agentes econômicos livres das pressões do estado malvado. Esse homem da fronteira não precisa de um estado regulador para tocar a sua vida, não precisa de experts, ele compra xarope expectorante de médicos autodidatas (charlatães) na trilha do Oregon.
Muitos dos movimentos revivalistas evangélicos tomaram força nos Estados Unidos durante o século XIX. Porém, bem antes da independência, quando os puritanos ingleses estavam supostamente fugindo da Inglaterra e colonizando a América do Norte no século XVII, aquela já era uma terra que dava voz a todo tipo de maluquice teológica. Os puritanos, na verdade, não vieram para América porque eram perseguidos descabidamente. Se fossem realmente perseguidos dessa forma, se o objetivo da coroa inglesa fosse exterminá-los ou convertê-los à força, ela não teria ajudado a financiar suas jornadas à América, e eles não seriam mais considerados sujeitos ingleses quando chegassem no Novo Mundo. Mas não, tanto eram considerados, que muitos voltaram depois não aguentar a vida de merda que levavam na América. Os puritanos assumidamente vieram para estabelecer pequenas sociedades teocráticas na América. Leiam seus documentos, as coisas que eles próprios deixaram escrito. Liberdade, para eles, era liberdade de governar da forma como eles achavam que Deus queria.
Vemos aqui o caldo cultural que acabou possibilitando a produção dessa desgraça que é teologia da prosperidade do século XX e XXI, uma praga que a partir (principalmente) da década de 1980 passou a se espalhar por muitos países da América Latina e da África. Foi graças a esse tipo específico de protestantismo que houve a explosão do número total de protestantes no Brasil de 1980 para cá — um tipo protestantismo que conseguiu a façanha de tornar a religião cristã profundamente esvaziada de qualquer intelectualidade; e olha que sou ateu. Sim, apesar de ateu, apesar de considerar as formas mais tradicionais do cristianismo como sendo inimigas do pensamento crítico, não as considero inimigas da intelectualidade por completo. Não faço isso porque, durante séculos, milênios até, embora cristãos perseguissem e matassem hereges, eles desenvolveram todo um arcabouço teológico diverso para defender a sua fé desses "inimigos" que prendia e matava. Mas esse aborto de teologia surgida nos Estados Unidos durante o século XX, esse aborto que hoje se espalha por parte do mundo e pelo Brasil, não tem nem pensamento crítico, nem intelectualidade, nem nada. Ele é fruto de uma cultura do homem que se faz só, sem a ajuda de experts, sem abaixar a cabeça para intelectuais e para o estado — esses, na verdade, são seus inimigos e devem ser dominados e amordaçados pelos homens de Deus.
Todo o curso da história americana acabou parindo essa praga, esse dejeto ideológico desprovido de alma, um verdadeiro niilismo que cultua Mamom, o deus do dinheiro, uma praga que hoje nos assola dia e noite, noite e dia. Essa é a quinta coluna do burrismo, que está perpetuando e ajudando a aumentar o número de pessoas que jogam seus cérebros fora e têm zero pensamento crítico, aceitando tudo o que seus líderes religiosos falam. Não é algo exclusivo do Brasil. Mesmo os Estados Unidos, que apesar de tudo o que descrevo sobre a sua história, teve e ainda tem muita coisa maravilhosa, sofrem desse mal. Eu me atreveria a dizer que ele é um dos principais responsáveis pela atual decadência americana. Há muitas décadas, pastores de mega igrejas que pregam o evangelho da prosperidade acumularam um poder imenso para elegerem presidentes, presidentes que então ajudam a garantir que os jatos particulares desses pastores não serão taxados e que eles poderão usar o dinheiro de doações para comprar ações na bolsa de valores de Nova York com o auxílio de informações privilegiadas. Qualquer semelhança com o que está acontecendo com o Brasil de Daniel Vorcaro e com outros países da América Latina e África não é coincidência.
por Fernando Olszewski
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