O Darma Sombrio
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| Buda em jejum, estátua greco-budista da região de Gandhara (Paquistão), do século II |
Ajahn Buddhadasa foi um monge theravada tailandês do século XX reverenciado e controverso. Ele faleceu em 1993, com 87 anos, e continua bastante controverso, principalmente entre budistas do ocidente, pelo menos quando observamos fóruns sobre budismo na internet. Há uma espécie de reverência perante seus ensinamentos ao mesmo tempo que o chamam de "causador de confusão" e outras coisas piores. Essas mesmas pessoas em fóruns de internet, todas ocidentais, também tentam emplacar que Buddhadasa teria ensinado a noção tradicional de renascimento — coisa que ele claramente não ensinou e contra a qual tinha explícita ojeriza, basta ler seu livro, intitulado Paticcasamuppada, que significa originação dependente ou gênese condicionada na língua páli, língua litúrgica utilizada pelo budismo theravada.
O livro é baseado em aulas que ele deu e lida justamente com o ensinamento da gênese condicionada de maneira totalmente diferente da que é ensinada pelo budismo tradicionalmente, seja ele theravada ou não. Nele, Buddhadasa se opõe ao grande mestre theravada do século V, Buddhaghosa, indiano radicado no Sri Lanka, que escreveu o Visuddhimagga, ou Caminho da Purificação, um grande manual de prática, meditação e filosofia budista. Ao menos monges theravada ocidentais notórios, como Ajahn Brahm e Bhikkhu Bodhi, deixam claro que Buddhadasa não é ortodoxo, sendo mais honestos consigo mesmos do que parte considerável dos budistas de internet.
Para alguém como eu, a leitura do Paticcasamuppada do Buddhadasa é um alívio. Já para quem gosta de e acredita no renascimento literal em outras vidas, a interpretação de Buddhadasa é horrível. Mas, claro, essas pessoas geralmente nem sequer sabem que foi ele e, quando sabem, ou ignoram seus ensinamentos, ou, no máximo, minimizam a sua influência, tomando por verdade a ideia difundida em fóruns de que ele apenas focou na prática da meditação e do desapego para se contrapor ao misticismo que havia tomado o budismo tailandês naquela altura da história, no começo e meados do século XX. Isso é completamente falso. Sim, Buddhadasa se opôs ao misticismo, mas a questão toda do foco na meditação e nas práticas de desapego para ele não tinha a ver com uma mera tática para se livrar do misticismo que reinava entre budistas na Tailândia; a própria noção de renascimento era, para ele, misticismo e interpretação incorreta das escrituras em páli.
Para Buddhadasa, não há nenhum tipo de transmigração metafísica. Para ele, a própria doutrina do anatta, que quer dizer não-eu ou não-alma em páli, negaria qualquer possibilidade de algo que vai de uma vida à outra. Buddhadasa possui uma interpretação theravada forte do anatta: esse ensinamento não serve apenas para apontar para o que não é o eu verdadeiro, não é apenas pedagogia do desapego, mas diz que literalmente não há um eu, uma alma ou centro metafísico. O eu ou a alma é uma fabricação que causa enorme sofrimento, segundo Buddhadasa — e segundo o Buda, também. A noção de que o eu é uma ilusão perniciosa é algo que a vasta maioria de todo budismo tradicional que crê em renascimento literal também concorda, ao ponto delas próprias chamarem de charlatão qualquer autoproclamado budista que ensine que há um "eu verdadeiro". A única exceção a essa regra seriam as poucas escolas mahayana cujo foco são as sutras do tathagatagarbha, surgidas pelo século III d.C., que ensinam que dentro de todos os seres sensíveis que habitam o samsara há uma natureza búdica sendo gestada, e essa natureza seria, quem sabe, o eu verdadeiro. Mas mesmo essas escolas divergem se isso seria eu verdadeiro ou se isso seria uma tática para atrair pessoas que acreditam num eu verdadeiro ao budismo.
Pois então, o que diabos é paticcasamuppada? Na tradição theravada, que é encarnada nos ensinamentos do mestre Buddhaghosa, o processo de gênese condicionada leva três vidas. Ele explica o renascimento no reino do samsara, o mundo do devir, onde há decadência, dor e morte, e onde nada é constante. É disso que devemos nos libertar praticando o budismo e alcançando, depois de muitas vidas, o nibbana, em páli, ou nirvana, em sânscrito. Essa é a interpretação clássica do budismo. Existem doze elos da gênese condicionada que são divididos em três vidas. Aqui estão os elos: (1) ignorância (avijja, em páli); (2) formações volitivas ou mentais (sankhara); (3) consciência (vinnana); (4) nome e forma (nama-rupa); (5) seis bases sensoriais (salayatana); (6) contato (phassa); (7) sensação (vedana); (8) desejo (tanha); (9) apego (upadana); (10) vir a ser (bhava); (11) o nascimento (jati); (12) velhice e morte (jara-marana).
E como que esses elos ocorrem entre três vidas?
Bom, na vida passada, fomos ignorantes e realizamos ações carmicamente eficazes. A ignorância e as ações da vida passada engendraram uma nova vida, a atual, na qual surgiu uma nova consciência. Essa, por sua vez, deu luz ao nome e forma ou à mentalidade e materialidade da nossa pessoa. Nome e forma, então, engendraram as seis bases sensoriais, das quais surgiram o contato com o mundo externo, que então deu origem à sensação, que por sua vez deu origem ao desejo, desejo esse que pariu o apego, que por sua vez pariu o vir a ser. Se não nos libertarmos da ignorância que engendrou a nossa vida atual e começarmos a praticar o darma (i.e. ensinamento) budista, retornaremos ao samsara na próxima vida, onde os últimos elos da cadeia se darão; isto é, nós vamos nascer e enfrentar a velhice e a morte novamente, passando por todo o processo da gênese condicionada de novo. Essa é a forma clássica ensinada pelo budismo theravada, principalmente a partir de Buddhaghosa no século V. O budismo mahayana também ensina a gênese condicionada e também fala dos doze elos, mas seu foco é diferente. O budismo mahayana tende a tratar o conceito de gênese condicionada a partir dos ensinamentos de Nagarjuna, mestre do século II d.C., que ensinou que todas as coisas são condicionadas por outras, portanto vazias de substância independente e permanente.
Já Buddhadasa enxerga a ideia de separar os elos da gênese condicionada em três vidas distintas como um grande equívoco, ao ponto de apontar para as origens não budistas de Buddhaghosa. Para Buddhadasa, Buddhaghosa, que era originalmente um brâmane hinduísta, ajudou a trazer o eternalismo para dentro do budismo — digo "ajudou" porque Buddhadasa reconhece que o eternalismo já estava presente desde pelo menos a época do terceiro concílio budista, ocorrido em 250 a.C., séculos antes de Buddhaghosa. Segundo Buddhadasa, quando se distribui a gênese condicionada em várias vidas, fica impossível de praticá-la, exceto através da fé cega de que existem várias vidas, e através de experiências místicas dúbias ou até mesmo equivocadas a respeito de vidas passadas.
O Buda notoriamente disse que sua doutrina não era nem aniquilacionismo, isto é, a nossa vida não acaba com a morte, nem eternalismo, isto é, nós não continuamos para sempre. Isso é ligado à doutrina do anatta, do não-eu. No budismo tradicional, seja theravada ou mahayana, o que continua entre uma vida e a outra não seria exatamente uma mesma coisa, uma alma imutável que habita corpos, mas algo muito mais sutil, maleável, que jamais poderíamos reconhecer como nós mesmos se investigássemos cada parte do nosso ser. Para todo o budismo tradicional, isso significa que, embora seja difícil ou impossível falarmos sobre o que exatamente vai de uma vida a outra, a ponto de tudo ser mera especulação que não impede a prática meditativa, há sim algo metafísico indeterminado que migra entre vidas. Esse algo é, como falei, sutil, mutável, inconstante. O que quer que seja, não é um eu permanente. Mas, a bem da verdade, continua servindo ao mesmo propósito que uma alma: essa coisa vai de uma vida a outra, carregando as sementes do nosso carma.
Contudo, Buddhadasa interpreta o processo de gênese condicionada não através de uma lente cósmico-metafísica, mas através de uma posição psico-fenomenológica. Não há um atta (ou atman), um eu ou alma, portanto, a gênese condicionada explicaria não a migração de uma essência metafísica entre vidas, mas o nascimento do eu ilusório nesta nossa única vida. Enquanto que a ênfase do budismo tradicional é a libertação ao longo de múltiplas vidas, o que incentiva a maioria dos leigos a focar em acúmulo de mérito para renascimentos melhores, até que um dia se tenha mérito suficiente para virar monge ou monja numa vida futura, Buddhadasa dizia que o foco real do Buda é o aqui e o agora, o livrar-se do sofrimento na vida presente. Para ele, os elos da gênese condicionada acontecem não através de várias vidas ligadas metafisicamente, mas na nossa mente. E por incrível que pareça, estudiosos da história remota do budismo não descartam que os ensinamentos originais tivessem grande ênfase psicológica e fenomenológica, muito embora também não descartem a linguagem metafísica do Buda.
Aliás, Buddhadasa também não nega que Buda falasse de vidas, de reinos celestes, fantasmagóricos, animalescos e infernais que nossas essências podem migrar dependendo do nosso carma — mas Buddhadasa trata isso como "renascimentos" em diferentes estados mentais nesta nossa vida. Por exemplo, poderíamos renascer como animais nesta vida, quando nosso estado mental se aproximasse da violência e volúpia animalesca. Poderíamos ser como fantasmas famintos nesta vida, quando nossos estados mentais nos trouxessem sede e fome insaciáveis. E assim por diante. Para ele, o Buda teria ensinado através da linguagem da verdade relativa e através da linguagem da verdade última: a primeira cheia de mitos e histórias sobrenaturais, a segunda focada na realidade prática do aqui e do agora.
Podemos colocar a forma como Buddhadasa explica os elos da gênese condicionada através do seguinte exemplo genérico. Primeiro, está presente a ignorância, ignorância essa que condiciona as formações mentais ou volitivas, que por sua vez condicionam a consciência, que por sua vez condiciona nome e forma (ou mentalidade e materialidade) e as suas seis bases sensoriais: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. Dado esse aparato cognitivo e sensorial, ao vermos algo desagradável, há o contato sensorial desse algo com os nossos olhos. Surge então uma sensação desagradável produzida por esse contato, que engendra o desejo de que essa experiência pare, além de tomarmos a experiência para nós, mesmo que ela seja negativa, através do apego. O vir a ser identifica o eu ilusório ofendido conosco. Esse eu ofendido nasce para nós. Sentimos raiva, tristeza, sofremos, passamos dias, meses ou anos pensando naquilo, até que um dia esse eu definha e morre dentro de nós, deixando o trauma, o estresse, a dor.
Agora, pensemos numa experiência positiva. Por exemplo, surge a possibilidade de comprarmos algo. Dada a base cognitiva e sensorial, há um contato, do qual surge uma sensação agradável. Essa sensação engendra um desejo por aquela experiência, que então produz um apego por ela, pois toma ela para si. Nasce então um eu que precisa ter aquela experiência e está sempre à mercê dela para se realizar. Todo o processo da gênese condicionada ocorre mais rápido do que um relâmpago segundo Buddhadasa, e o melhor lugar para interrompê-lo é entre os elos do contato, sensação e desejo, através da atenção e do cultivo da sabedoria. Os elos da gênese condicionada se iniciam pela ignorância de não termos um eu ou uma alma permanente e estável. Sabendo disso, podemos interromper o processo, por não sermos mais ignorantes do que ocorre. Um praticante apto do darma conseguirá interromper esse processo antes que ele se torne desejo, depois apego e todo o resto, através da atenção plena. Ele verá as coisas como agradáveis, desagradáveis ou neutras. Quando deixamos de ser ignorantes, quando meditamos a respeito do não-eu, do anatta, somos capazes de nos livrar do sofrimento gerado pela ilusão de que temos um eu estável e permanente. Como afirma Buddhadasa no seu Paticcasamuppada:
Se alguém está com calor e tem dor nas costas, mas nada mais, se simplesmente sente e sabe que está com calor sem se apegar ao conceito de "eu" [...] então o sofrimento da gênese condicionada não surgiu. Observe isso atentamente e esclareça a distinção entre esses dois tipos de sofrimento. Se houver apego, trata-se de sofrimento segundo a gênese condicionada. Suponha que você corte a mão com uma faca afiada ou lâmina de barbear e o sangue jorre. Se você simplesmente sente a dor, mas não se apega a nada, então seu sofrimento é natural e não está de acordo com a gênese condicionada.
Para Buddhadasa, mesmo que isso só ocorra em apenas uma vida e mesmo que o nosso sofrimento se encerre com a nossa morte, o ensinamento do Buda continua válido. O budismo serve para que paremos de sofrer nesta vida, segundo Buddhadasa, e não daqui várias vidas, que não existem de verdade e não serão nossas. Ao entendermos e internalizarmos o anatta, ao percebemos como se dão os elos da gênese condicionada, interrompemos o processo que produz um eu e deixamos de sofrer "além das dores naturais" que compartilhamos com os outros animais. Mas então, a visão de Buddhadasa não seria aniquilacionismo, o outro extremo do eternalismo que o Buda também rejeitou? Não, porque segundo Buddhadasa, anatta ensina que não há um eu que nasce, logo, não há um eu que morre. O que morre é apenas uma casca vazia, um boneco de ventríloquo cujas cordas são puxadas por ninguém, ou melhor, são puxadas por fatores naturais, dos quais nós fazemos parte efêmera, mas que nos iludem ao produzir a ideia de um eu permanente, ideia essa que é a base do sofrimento.
Embora seja theravada, ele usa o conceito de sunnata (ou shunyata em sânscrito, que significa vacuidade de substância), que é muito importante para o budismo mahayana. Buddhadasa usa sunnata para apontar para a vacuidade do eu. Ele considera errado ensinar gênese condicionada através de três ou mais vidas justamente porque, para ele, isso impede de por em prática o fim da ignorância aqui e agora, nesta vida, fixando uma noção eternalista de eu-verdadeiro dentro do budismo. Para ele, o ponto central do darma budista é e sempre será a origem do sofrimento (dukkha em páli e sânscrito), a possibilidade de cessar o sofrimento e o caminho ensinado pelo Buda para tal fim.
Para que isso serve, então, se é apenas um truque psicológico para não sofrer mais do que naturalmente se sofre? Para que ligar para o ensinamento da gênese condicionada ensinado pelo Buda, se não há outra vida? Penso que essa citação de Buddhadasa que eu trouxe ilustra bem. Mas, claro, não muda tudo. Buddhadasa ensina o seguinte:
A gênese condicionada demonstra o fato do sofrimento, seu surgimento e seu desaparecimento. Ela não demonstra o dono do sofrimento, aquele que o carrega através das existências e nascimentos. Não há dono do sofrimento. O sofrimento surge sem um dono.
Tudo bem, mas isso não nos salva da realidade concreta da dor, realidade esta que a vida, mesmo sem um eu verdadeiro, é capaz de proporcionar, realidade essa que compartilhamos com o resto do reino animal, como já disse. Mesmo nos desapegando do eu, a dor física em si já pode nos levar ao paroxismo do desespero, sem a necessidade de formularmos, através da gênese condicionada, um eu que irá sofrer mentalmente para além da conta. A outra metade da questão, o que começa a delinear o darma sombrio (ou o ensinamento sombrio) é trazida pelo jurista, reformador social e estudioso indiano, Hari Singh Gour, que viveu do final do século XIX até meados do século XX. Já o citei em outras ocasiões, mas, como de costume, continuarei fazendo isso com todas as citações que considero boas (aliás, como de costume, continuarei trazendo essa explicação). No livro, O Espírito do Budismo, Gour escreve o seguinte:
O Buda declarou suas proposições no estilo pedante de sua era. Ele as joga na forma de sorites; mas, como tais, elas são logicamente imperfeitas, e tudo o que ele deseja comunicar é o seguinte: "Alheios ao sofrimento ao qual a vida é submetida, o homem gera crianças e, portanto, a causa da velhice e da morte. Se ele apenas entendesse o sofrimento que adicionaria por seu ato, ele desistiria da procriação de crianças; e então encerraria a operação da velhice e da morte."
Isso, claro se aproxima do pessimismo cósmico e a visão da reprodução como a perpetuação de uma situação trágica que seria melhor evitada, o pessimismo cósmico proposto por filósofos e escritores de literatura como Abu al-Ala al-Ma'ari, Giacomo Leopardi, Arthur Schopenhauer, Philipp Mainländer, Machado de Assis, Peter Wessel Zapffe, Emil Cioran, Julio Cabrera, Thomas Ligotti e David Benatar, autores dos quais vivo falando, uns mais outros menos. Confesso que, apesar de gostar muito de Buddhadasa e ver nos seus ensinamentos o mais próximo do que seria mesmo os ensinamentos do Buda num sentido último, certamente penso que o Buda provavelmente ensinou sim o que imaginou ser uma metafísica. No mínimo, ele teria recheado os seus ensinamentos principais a respeito da realidade e origem do sofrimento e o caminho para extingui-lo de mitos; mitos que o cercavam e com os quais ele cresceu e era familiarizado. Mitos como reencarnação ou renascimento em reinos celestes, reinos animalescos, reinos fantasmagóricos e reinos infernais. No final das contas, fico com a imagem do darma sombrio, o darma pessimista, pois é aquela imagem que a investigação do mundo me apontou ser a mais correta, infelizmente. Não tenho prazer nenhum em dizer isso. Nem toda força de vontade pôde me fazer crer realmente que há algum tipo de ordem sobrenatural por trás de tudo, ordem sobrenatural essa que seria passível de ser manipulada para a nossa salvação, seja através do budismo, do cristianismo ou qualquer outra religião.
A vida humana é, ela inteira, ou uma distração dos sofrimentos e da finitude, ou o entrar e sair em desespero incessantes por causa dos sofrimentos e da finitude, ou uma longa — e às vezes não tão longa — meditação sobre os sofrimentos e a morte. Frequentemente é as três coisas ao mesmo tempo, principalmente as duas primeiras, visto que a terceira, a meditação sobre a finitude e o sofrimento, não parece ser algo tão comum. Essa meditação parece, na verdade, ser algo sempre mal visto. Mesmo na contemporaneidade, onde se fala tanto da liberdade do homem como indivíduo, contemplar a dor e a morte é visto como um nicho, relegado a manifestações estéticas particulares a determinados grupos, como fãs de black metal ou góticos, isso quando não é logo considerada uma patologia mental.
Nada contra o black metal, nem contra o gótico, até porque gosto de ambos os gêneros musicais e artísticos, mas acho triste que a contemplação da morte e do sofrimento seja mais associada a eles do que com os filósofos. Mas é de se esperar, porque boa parte dos filósofos é sempre seduzida pelo otimismo que reina na espécie humana, dada a seleção natural e cultural que favorece sempre aqueles que afirmam e nunca aqueles que negam, seja a negação involuntária, o que é mais comum e ocorre no caso de debilidades naturais, seja a negação voluntária, filosófica da vida. É por isso que Thomas Ligotti escreveu o seguinte em A Conspiração Contra a Raça Humana:
O otimismo sempre foi uma política não declarada da cultura humana — uma política que surgiu de nossos instintos animais de sobrevivência e reprodução — em vez de um corpo de pensamento articulado. É a condição padrão do nosso sangue e não pode ser efetivamente questionada por nossas mentes nem posta em grave dúvida por nossas dores. Isso explicaria por que, em qualquer época, existem mais canibais do que pessimistas filosóficos.
Além de góticos, metaleiros e meia dúzia de filósofos, a contemplação da morte está nos mosteiros cristãos, e, de forma ainda mais assídua, nos mosteiros budistas, que frequentemente têm, além de ossadas, corpos frescos, mutilados e em decomposição para que os monges observem o seu fim e desapeguem da sua casca de carne, sangue e ossos. A contemplação do sofrimento, da impermanência e da morte de todas as coisas, inclusive de nós mesmos, estava presente ainda mais num monge como Buddhadasa, para quem a morte era sim o final da nossa estadia no universo, o retorno ao incondicionado natural do esquecimento sem um bilhete de volta para a vida, como ocorre de acordo com a crença budista tradicional, que postula um ciclo sobrenatural de nascimento, morte e renascimento, que termina no incondicionado fantasmagórico abençoado do nirvana após inúmeras vidas de acúmulo de mérito e práticas ascéticas.
O nirvana do qual Buddhadasa falava está disponível agora para todos nós. Podemos tê-lo hoje. E para estancar o sofrimento, devemos fazer o que o Buda quis realmente dizer, pelo menos segundo Hari Singh Gour: devemos desistir da procriação e, assim, encerrar a operação da velhice e da morte de uma vez por todas.
por Fernando Olszewski
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