Misantropia e Compaixão
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| O misantropo, de Pieter Bruegel, o velho |
Eu dormi cedo e não assisti ao jogo do Brasil e Haiti, no dia 19 de julho. Estava num sono profundo quando o celular tocou, na hora nem me atentei que era o tom da defesa civil, de quem já tinha recebido alertas outras poucas vezes por conta de chuvas fortes. Inclusive achei que pudesse ser algum alerta maluco de gol do Brasil em cima do Haiti. Mas como foi no início de madrugada e naquela hora a partida já tinha acabado, percebi que não. "Misantropi4" dizia a mensagem. Olhei aquilo e voltei a dormir. Minha namorada também recebeu, assim como meus pais e vários amigos. Parece que investigaram e descobriram que foi alguém (não se sabe quem) com o login de contas de agentes da defesa civil lá do cafundó do Judas. Foi esse alguém que lançou a misantropia para geral. Que transgressor. Enfim, voltei a dormir, sem pensar muito naquilo. Só nos dias seguintes é que fui me ligando nos detalhes. Foi aí que vi que algumas pessoas e veículos jornalísticos comentaram sobre o que seria misantropia. Fizeram todo aquele blábláblá que se segue quando uma palavra dessas sai das sombras coletivas da humanidade e aparece para nos assustar.
O que é misantropia? Simples, é um termo que junta as palavras gregas misos (ódio) e anthropos (humano), e significa ódio ou aversão ao ser humano. Schopenhauer, de quem eu vivo falando e falarei até o dia em que eu não existir mais, é considerado um belo exemplo de pensador misantropo. Misantropia não é o mesmo que pessimismo filosófico, mas os dois podem andar juntos, eles não são necessariamente excludentes. Aliás, apesar da sua atitude misantropa com relação à humanidade, Schopenhauer ainda assim considerava a compaixão, o reconhecer-se na dor do outro, a verdadeira base da ética. Enquanto que, para Kant, é a razão prática que dita o que devemos considerar como sendo ético ou moral, para Schopenhauer, não é a razão, mas o sentimento da compaixão. O fato de ser um sentimento a base do que consideramos certo ou errado está longe de anular a validade da ética para Schopenhauer. Os sentimentos são necessários para fundamentar uma moral real para ele. Antes de Kant, Hume reconheceu isso, mas não foi longe o suficiente para Schopenhauer: faltava a Hume a justificativa de uma conexão metafísica imanente entre o "eu" que sofro e o "outro" que sofre.
Como o substrato mais íntimo de todas as coisas para Schopenhauer é o que ele chama de vontade, e ela é a mesmo em mim e nos outros seres capazes de sofrer, então a ligação é feita. Na contramão de Schopenhauer, porém, eu diria que isso nem sequer é necessário existir realmente, muito embora eu conceda que por trás de todos os fenômenos, provavelmente há uma origem única para tudo. Afinal, segundo modelos cosmológicos contemporâneos, o universo observável, nos seus primórdios, era menor do que uma partícula subatômica, coisa de 10⁻³⁵ metros. Sua densidade tendia ao infinito. Isso significa dizer que as partículas que compõem o seu corpo já estiveram próximas da galáxia mais distante que o telescópio espacial James Webb consegue fotografar. Se toda essa vastidão quase que incomensurável que hoje é o universo já foi tão compactada, então somos todos parte da mesma bosta desde os primórdios, independentemente de como queira chamá-la: vontade, uno primordial, ou o que quer que seja. Queiramos ou não, estamos ligados de alguma forma com a vítima de canibalismo, desmembramento e chacina que ocorrem nos guetos do mundo. A compaixão não é algo mágico ou ilusório, é o reconhecimento íntimo em nós mesmos de que aquela criatura é o mesmo que nós.
Mas isso não nos impede de enxergarmos nela todas as falhas que enxergamos em nós mesmos. Daí Schopenhauer ter aversão à humanidade ao mesmo passo que toda a sua ética se fundamenta na compaixão. Um misantropo que não se reconhece nos outros está mais para um supremacista de si próprio. Ele acha que todos os outros humanos são uma merda menos ele, que foi milagrosamente salvo do resto pela natureza, e merecem mais é chafurdar na lama. Só ele foi dotado do intelecto supremo e das virtudes que ninguém mais tem, só ele é verdadeiramente humano, ou até mais do que humano. Um misantropo que não sente pena dos outros, apesar da raiva ou da aversão, é como um rebeldezinho de internet, desses que justificam ou até acham bacana quando virjões promovem massacres em colégios e outros locais públicos. São a figura do ser patético, burro, animalesco, nada mais. Esse tipo de gente costuma inclusive se apropriar de termos e filosofias sem saber o que significam para validar suas fantasias de supremacia de si próprio.
Um exemplo recente foi um virjão redpill no Twitter que há uns dois anos atrás escreveu no seu perfil que era, ao mesmo tempo, Übermensch nietzscheano, nazista, "estoico" e "antinatalista". Ele próprio, depois de algumas semanas, tirou o termo "antinatalista" de sua descrição, muito provavelmente por ter sido muito zoado e esculachado por neonazistas, nietzscheanos e estoicos mais experientes do que ele, e para quem ele abaixa a cabeça. Nenhum neonazista, nem nenhum nietzscheano, nem nenhum estoico que sejam coerentes com os princípios das suas visões de mundo jamais se descreveriam como "antinatalistas". Só um descerebrado, que se recusa a ler e estudar, só alguém sem amigos reais, um virgem de internet, faria isso. E foi exatamente isso o que ele fez, até ser repreendido por pessoas que estão acima dele na hierarquia dessas ideologias e filosofias. Quando se trata dos estoicos, não acho que seja necessário falar o quão ridículo foi essa garotagem do revoltadinho de ligá-los ao antinatalismo. Mas falar da filosofia nietzscheana e do nazismo.
Do seu primeiro livro, O Nascimento da Tragédia, ao último, Ecce Homo, Nietzsche jamais poderia ser descrito nem como pessimista no sentido Schopenhaueriano, nem muito menos como antinatalista em qualquer sentido, pelo contrário: seu mote é que a vida é a régua que deve medir tudo. Para ele, ser antivida, ser condenador da existência, é sinal de erro, é sinal de fraqueza. No caso do nazismo nem se fala: enquanto o regime nazista cometia genocídio contra aqueles que considerava inferiores, promovia a natalidade forçada daqueles que considerava superiores. O pessimismo filosófico que rejeita a existência e que dá origem ao que hoje se chama de antinatalismo é essencialmente pautado na universalidade de uma compaixão extrema, que visa poupar outros seres sensíveis de uma existência sem sentido e cujo estofo imutável é o atrito. Ter compaixão suficiente para negar a reprodução por se ter pena de pessoas que nem sequer existem não tem a ver com os pseudoideais de rebeldes de internet, revoltadinhos que usam foto de cavaleiros templários, fotos de anime, do Cartman do South Park ou do Rick do Rick and Morty.
Não só Schopenhauer, Cioran é considerado misantropo, também. E mesmo Cioran escreveu o seguinte nos seus Cadernos:
Com aquilo que sei, com aquilo que sinto, eu não poderia ter dado vida à alguém sem cair em total contradição comigo mesmo, sem ser intelectualmente desonesto e sem cometer um crime moral.
Cioran faz coro à filosofia de Schopenhauer expressa, por exemplo, na famosa passagem dos Parerga e Paralipomena:
Imaginemos por um momento que o ato de procriação não fosse uma necessidade nem viesse acompanhado de intenso prazer, mas sim uma questão de pura deliberação racional; será que a raça humana poderia realmente continuar a existir? Será que todos não sentiriam tamanha compaixão pela geração vindoura que prefeririam poupá-la do fardo da existência ou, pelo menos, não gostariam de assumir, a sangue-frio, a responsabilidade de lhe impor tal fardo?
Já o "misantropo" metido a cavaleiro templário de internet, que gosta de chocar, odeia a si mesmo ao odiar os outros. Quando machuca os outros, seja ofendendo ou promovendo massacres, machuca a si, devora a própria carne, mas sendo burro, não percebe isso. Eles vivem para odiar, têm caráter ruim segundo a concepção schopenhaueriana. São maus, vis, são pessoas que seriam desprezadas por Cristo, quer era doação pura, compaixão pura. Cristo não era esse rei cruzado ridículo no qual eles fingem acreditar e seguir ao mesmo tempo em que colocam "Christ is king" e "Deus Vult!" nos seus perfis de rede social. Aliás, outra incongruência dessa gente nojenta é juntar Nietzsche e supremacismo cristão europeu. Fariam Nietzsche vomitar se ele retornasse e visse o que fizeram com a filosofia dele. E olha que eu não sou nietzscheano. Acreditam ser Übermensch mas são o seu oposto, são fracos, não aguentam 30 segundos de porrada com um cadeirante que viva a vida real, fora de ambientes online como Discord, Reddit e 4chan. São adolescentes, mesmo aqueles que já têm seus 20 anos de idade.
O misantropo da aversão à humanidade, aquele que quer dar as costas para a humanidade, faz isso não por um ódio infantil e uma mentalidade pseudo-guerreira patética, mas por estar cansado. Ele não quer causar ainda mais caos, machucando os outros. Ele apenas não quer conviver com sofrimento. Daí a imagem na pintura de Pieter Bruegel, o velho, e na cópia modificada por seu filho, Pieter Bruegel, o novo, colocar o misantropo como um asceta, um monge. Ele quer escapar do sofrimento, mas não consegue, obviamente, porque o sofrimento é inescapável. O misantropo dos Bruegel têm aversão, seu ódio, se é que podemos chamá-lo assim, não é ativo. Ele não é um incel que machucaria os outros, como fazem os pseudo-guerreiros que vivem cronicamente online falando baboseiras de redpill e derivados não menos escrotos.
Mas mesmo esse tipo de misantropia, que pode ser descrita como antropofobia, ainda assim não traz a paz. Aquele que adota esse tipo de atitude, o misantropo antropofóbico, pode até se iludir por um tempo, mas a não ser que sua mente seja treinada a tal ponto que ela é absolutamente exaurida de qualquer vontade de vida, ele continuará sofrendo. A realidade é que se isolar da humanidade pode sim trazer um certo conforto, mas não trará a paz total, porque o estrago já foi feito no momento em que nascemos. O isolamento não garante a ataraxia, a tranquilidade da alma, porque o devir em si é atrito, mesmo quando não há outros humanos à nossa volta. Devir é aflição, é vontade de manifestação que não dá a mínima para ninguém, mesmo quando buscamos nos afastar do mundo. O máximo que a isolação promove é a paz de não ter que lidar com outros da nossa espécie, geralmente iludidos. Inclusive, a paz de não ter que lidar com incels que se consideram super-homens nietzscheanos e cavaleiros templários ao mesmo. Nas ainda temos que lidar com necessidades fisiológicas, doenças, e o inferno que é a nossa própria mente, a porta-voz da vontade de vida, que sempre sussurrará tentações e absurdos.
Mas qual dos tipos de misantropos deve ter sido o responsável por hackear o sistema da defesa civil e enviar para todo o Brasil a palavra "Misantropi4" escrita com "4" ao invés de "a" no final? Acho que é óbvio. É aquele tipo zueiro, do hue, cronicamente online, do tipo que seria capaz de se definir de formas absurdas e contraditórias só para parecer diferentão e revoltado. Fosse misantropo mesmo, não encheria o saco dos outros dessa forma. Voltando às pinturas dos Bruegel: o misantropo está tentando escapar do mundo humano, não tentando interagir mais ainda com o mundo humano. Talvez, quem sabe, escrevesse coisas e publicasse. O que ele não faria é esfregar o membro dele na cara das pessoas como se isso demonstrasse algum tipo de superioridade. Na verdade, mostra apenas o quão pequeno é. Coisa de 14 centímetros para baixo. E estaria tudo bem, é normal que muita gente não seja dotada. Acontece e não se deve diminuí-las por isso. Agora, também não tornem isso um problema para os outros. Se fosse forte mesmo, se fosse um Übermensch, um guerreiro, não ficaria enchendo o saco dos outros como uma criancinha.
Na pintura dos Bruegel, aliás, o misantropo real, vestido de monge, é importunado por um desses tipos, um desses imbecis zarolhas "chatos pra caralho", que vai lá roubar a sua bolsa de moedas. Recomendo muito que vocês apreciem as duas pinturas. Na versão do Bruegel filho, o cenário atrás ainda mostra uma pessoa em vias de ser executada, o que enfatiza ainda mais a desgraça que é o mundo. Na pintura do Bruegel pai, há a inscrição, em língua flamenga:
Como o mundo é pérfido, eu entrarei em luto.
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| O misantropo, Pieter Bruegel, o novo |
As duas pinturas estão na internet para o mundo todo poder ver e apreciar. Mas aposto que menos pessoas veem essas (ou qualquer outra pintura) do que ficam enchendo o saco em fóruns ridículos, choramingando sobre como as mulheres são "hipergâmicas", sobre como "os valores ocidentais foram corrompidos pela pós-modernidade", sobre como "devemos ser guerreiros templários" e outras baboseiras ridículas que só lesmas descerebradas em formato de gente são capazes de levar a sério.
Enfim, encerro por aqui.
por Fernando Olszewski
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