Um texto pequeno, mas importante

Homem cego em Belsen, por Alan Moore

O texto a seguinte foi a resposta que dei a uma pessoa que fez um comentário que considero bem intencionado, mas equivocado. Esse comentário foi feito na leitura que fiz para o YouTube do meu ensaio Pelo direito à eutanásia. Ao meu ver, a pessoa que fez o comentário não o fez com o intuito de defender o clichê da supremacia dos "fortes" perante os "fracos", algo muito comum na internet atual, a ponto de ter virado uma praga que afeta até mesmo eleições presidenciais ao redor do mundo: dos Estados Unidos ao Brasil, passando pela Argentina e outros tantos países.

O comentário permanece exposto e penso que, embora esteja equivocado, ele não vem de um lugar perverso, pelo contrário. Acredito que o comentário dessa pessoa venha de um lugar bom, de compaixão. Caso tivesse sido o contrário, caso achasse que o comentário dele ou dela viesse uma postura perversa, eu nem teria me dado o trabalho de respondê-lo seriamente. Teria tratado ele como trato tantos incels e supremacistas com fotos de cavaleiros templários e de anime no perfil. Isto é, teria o tratado com desdém.

Sem mais delongas, aqui vai a minha resposta, que aqui tomarei a liberdade de modificar um pouco, mas de forma mínima:

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Eu discordo totalmente da sua tese. Digo isso sem nenhum julgamento de valor quanto a sua pessoa, não o conheço. Mas acho que deveria reconsiderar a forma como você pensa. Vou explicar a razão pela qual discordo, talvez assim entenda por que nada do que eu escrevo e falo tem a ver com a ideia de que "os fortes merecem viver enquanto que os fracos não", nem com ideias que gravitam em torno disso. Tentarei ser direto. Você afirma que pessoas fortes, "superiores", etc, são aquelas que conseguem viver sem sofrer tanto, e portanto só elas seriam realmente dignas de vida. Isso está completamente equivocado segundo o que eu penso.

Essas pessoas das quais você fala, pessoas que conseguem "viver numa boa" sem muito sofrimento existencial aparente (mas é só aparente), embora possam parecer ter alguma vantagem, não estão acima de ninguém. O que ocorre é o seguinte: elas são brutas, tocam suas vidas com pouca ou nenhuma reflexão a respeito do porquê de tudo e do valor da existência. Mesmo algumas delas possuindo bastante inteligência, geralmente é um tipo de inteligência concentrada, porém útil (e.g. o engenheiro brilhante, que ganha muito bem, mas que têm orgulho de dizer que nunca leu um livro na vida). Ninguém acha aqueles sujeitos broncos e sem educação superiores. Sempre imaginam o engenheiro, o médico, o advogado ou o empresário de sucesso como "superior". Mas todos eles estão no mesmo nível. São todos brutos — salvo aqueles que, de fato, refletem sobre a vida (e nesse caso mesmo o "cabra bronco" sem educação não será um bruto).

Ninguém é superior simplesmente por "não sofrer", até porque isso não existe em termos reais. Em termos aparentes, sim, a vida pode estar uma merda completa que, ainda assim, esses brutos dos quais falo vão "tocar o barco". Mas não é que eles não sofram. Eles sofrem pra caramba, também, muitas vezes mais do que nós. Inclusive a vasta maioria dos suicidas são pessoas assim, pessoas que refletem pouco ou nada sobre a vida, visto que os brutos (e pessoas que não estão muito longe da bruteza) compõem a vasta maioria da raça humana. É por isso que Cioran escreveu de forma um tanto jocosa, o seguinte, parafraseando: "só os otimistas tiram a própria vida". Claro que não são só os otimistas que tiram a própria vida. Mas aposto tudo o que tenho que os pessimistas cometem o ato menos do que os afirmadores da vida.

E aqui está o ponto crucial: a maioria de nós, inclusive a maioria daqueles de nós que vive de forma horrível em zonas de guerra, pobreza, doença, etc, é composta de brutos e pessoas que não estão muito longe do estado de bruteza, justamente porque tocam seu dia a dia sem refletir sobre nada que vá além das suas necessidades materiais e fisiológicas. Não é a toa que a grande maioria das pessoas terceiriza a metafísica na qual acreditam, comprando-a de charlatões, pastores multimilionários, etc. Segundo esse tipo de visão de mundo em que a sua tese se baseia, visão de mundo que coloca determinadas pessoas como "superiores" por elas serem capazes de viver sem (aparentemente) sofrer, certamente um cara como o pastor Valadão da Igreja da Lagoinha configuraria como grande exemplo de um "indivíduo superior". Mas, perdoe-me, não há nenhum universo no qual eu ou qualquer pessoa sã verá nele alguém superior, pelo menos não no sentido em que estamos discutindo. Claro, se for para falar no sentido dele ser um brilhante homem de negócios capaz de vender a preço de ouro um produto que não existe, podemos então dizer que ele é um expert, muito à frente de nós. De resto, não.

Tendo dito isso tudo, não quero dizer que eu, por ser pessimista, sou superior. De certa forma eu invejo quem não é pessimista porque, na minha concepção, essa pessoa não tem os olhos abertos para a triste realidade de que a existência sensível é como se fosse um campo de tortura e trabalhos forçados sem razão de ser. Mas a minha inveja acaba quando lembro que eu já fui assim. Eu já fui um desses brutos do qual eu falei. Eu já me vi e me descrevi durante anos como otimista, como amante e afirmador inquestionável da vida. E lembro muito bem de que sofria muito mais quando era afirmador da vida do que sofro hoje que sou pessimista. Não há nem comparação. A minha vida, embora longe de ser perfeita hoje, mudou da água para o vinho depois que meus olhos se abriram.

No final das contas, ninguém é superior, inferior, etc. Uns são apenas menos azarados do que outros, porque uns são mais ricos (por um tempo) e uns são mais saudáveis (por um tempo). Uns não morrem desmembrados ou de doença terrível e dolorosa. Uns morrem sedados, no conforto de uma cama. Aliás, que bom para eles. Quem dera todos nós tivéssemos esse direito de morrer sedados e confortáveis. Foi por isso que a professora Célia Maria Cassiano lutou e fico muito feliz que ela tenha conseguido realizar a eutanásia na Suíça. Mas, no final das contas, todos estamos sim no mesmo campo de tortura e trabalhos forçados que é a existência sensível, sem sabermos ao certo o que o amanhã trará. Nossa única certeza é que uma hora a vida acaba.


por Fernando Olszewski