Crônica vascaína da vida
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| Nau portuguesa, de Alfredo Roque Gameiro |
Aqui no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca ao que tudo indica, lá pela região da Barra Olímpica, dos condomínios Península e Rio2, um sujeito encerrou a própria existência saltando do terraço de um daqueles edifícios residenciais de 12 a 14 andares mais ou menos. Uma cena terrível, dantesca, apavorante. Ele usava camisa do Vasco, saudoso e conturbado time de futebol carioca. Seu olhar vidrado estava fixado no céu, parado, assim como todo o seu corpo. Sua boca levemente aberta. Sua feição estava levemente deformada, já que os ossos do rosto estavam fraturados por dentro da pele, que por sorte não se rompeu na frente, embora atrás seu crânio estivesse totalmente afundado. Em volta, pedaços de ossos, miolos e vísceras que vazaram de seu abdômen que rompeu. Aparentava ter entre 30 e poucos e 40 e poucos anos, talvez mais um pouco, ou talvez até menos. Um homem. Há algumas décadas atrás, esse cara nasceu. Talvez seus pais tenham ficado emocionados, lágrimas de felicidade em seus rostos vendo aquele bebê. Depois vieram as brigas, lógico, e as reconciliações. Uma vida de lutas, desafios, problemas, amores, que se resumiu nesse final dele estourando no chão de concreto pulando do 14º andar de um prédio na Barra da Tijuca com camisa do Vascão.
Sua vida vai daquele momento lindo de amor e ternura que deve ter sido o seu nascimento, de sonhos e planos, da ideia de um futuro em aberto, um futuro cheio de possibilidades, para esse saco de carne estourado com miolos e tripas e sangue e fezes ali no chão duro e sujo do condomínio, sendo perscrutado pelos olhos e câmeras curiosas. Que dó. Quanta tristeza! A vida é uma piada. E nós somos aqueles que estão sendo zoados. A vida ri de nós, ela não está rindo conosco. Somos as vítimas da piada maldosa e o melhor que fazemos é dançar para esse tirano insano rir por algumas décadas. Depois, começamos a apodrecer por dentro e nos tornamos inúteis ao tirano. Uns vão mais cedo, outros mais tarde, a maioria não vai por vontade própria, alguns vão por vontade própria, mas no final das contas a vida continua rindo, ela só faz rir, é uma maníaca. É difícil imaginar que, no começo do Homo sapiens, nascimentos tenham sido carregados de tanta emoção como ocorre com nascimentos atualmente. Mesmo na antiguidade clássica, as pessoas basicamente cagavam vários filhos até ver qual deles sobrevivia à primeira infância. Histórias bonitinhas, como as do nascimento de Jesus, com direito à dezenas de milhares de ícones religiosos e pinturas renascentistas, são exceção.
Na antiguidade clássica, o que mais havia era abandono de criança. Era tido como uma forma não tão bárbara de se livrar delas. O que me leva a crer que o assassinato dos próprios filhos era comum e aceitável em diversas sociedades e agrupamentos humanos antigos. As coisas tendem a ser proibidas porque sua prática era difundida, vide o caso das diversas proibições a sacrifícios humanos no Velho Testamento. Sacrifício esse que era feito não somente a outros deuses, mas também a Yahweh. Pensemos em Jefté, um dos juízes de Israel, que viveu por volta de 1100 a.C. Ele jurou sacrificar a primeira coisa que saísse da porta de sua casa a Deus caso os israelitas vencessem a batalha contra os amonitas. A batalha foi vencida e a primeira coisa que saiu da porta de sua casa foi sua filha, a quem ele sacrificou e Deus aceitou de bom grado. Se há proibição, é porque havia a prática. Antes de Jefté, o livro do Levítico já proibia os judeus de sacrificarem crianças a Molech. Mas a prática de sacrificar pessoas a Yahweh continuou aqui e ali. Ela só foi encerrada mais veementemente com as reformas do rei Josias, que governou o reino de Judá entre 640 e 610 a.C.
Se pensarmos no neolítico e no paleolítico, então, a coisa fica ainda muito mais estranha e bizarra. O desapego certamente era a norma. Humanos anatomicamente modernos existem há pelo menos 200 mil anos, sendo que descobertas mais recentes colocam essa data mais próximo de 300 mil anos. Mas digamos que seja 200 mil anos. Isso significa que se pegássemos uma máquina do tempo e transportássemos um membro da espécie H. sapiens para os dias de hoje, por mais diferente que pudesse parecer em alguns traços, ele passaria por um de nós tranquilamente. Ele seria um de nós, na verdade. Inclusive poderia procriar com um de nós sem sombra de dúvida. Ele está mais perto de nós geneticamente do que do neandertal, com quem conviveu e até procriou em diversas ocasiões. A pergunta que faço é: esse homem de 200 mil anos atrás chorava de emoção quando defecava sua prole no mundo? Ele enxergava um futuro em aberto com novas possibilidades, novos rumos? Ou era tudo no automático, como fizeram os outros animais que o precederam na escala evolutiva? Aliás, não seria também a atual choradeira emotiva que ocorre quando colocamos alguém novo no mundo uma coisa que fazemos "no automático"?
Enquanto vivemos o nosso dia a dia achando que as nossas emoções e choradeiras relacionadas ao "empreendimento da vida" são aspectos culturais que existem para além do nosso maquinário biológico, enquanto imaginamos que nós humanos transcendemos o resto dos nossos irmãos fedidos da floresta, pode ser que a nossa choradeira emotiva seja, toda ela, pura biologia mesmo, pura adaptação. Pode ser que essas emoções todas sejam parte do maquinário, o que torna a vida ainda mais insidiosa quando paramos para pensar. Até mesmo nossos mitos e crenças religiosas e filosóficas seriam uma forma da nossa biologia nos manter na linha, continuarmos com a programação, uma programação que não tem finalidade alguma e que, inclusive, está matando a própria biosfera que a gerou, visto que nós humanos estamos liberando uma quantidade absurda de CO2 na atmosfera em pouquíssimo tempo, coisa de um século e meio, e gases desse tipo perduram por muito tempo, fazendo com que o calor que a Terra recebe do Sol fique preso dentro dela sem conseguir retornar ao espaço.
Brincam que seres humanos são como um vírus, já que o vírus entra num organismo e o adoece e mata. Mas a vida inteira se comporta assim, não só o homem, ela só não teve até hoje a oportunidade que nós tivemos. Acreditar que só nós somos malvados enquanto que o resto dos nossos irmãos do reino animal não possuem dentro de si o mesmo potencial para a destruição é um tanto quanto risível para mim. Não falo isso para absolver o humano, nada disso. Digo isso apenas porque não gosto de idealismos. Há um que de falácia de petição de princípio quando alguém defende uma dicotomia radical entre o ser humano e o resto do mundo natural, porque nós somos filhos e filhas da natureza tanto quanto todos os outros organismos. Cioran escreve o seguinte em Do Inconveniente de Ter Nascido:
Um pulgão consciente teria de fazer frente exatamente às mesmas dificuldades, ao mesmo gênero de insolúvel com o que o homem se vê confrontado.
Eu vou além de Cioran. Acho ele muito humilde nessa colocação. Ao meu ver, se você desse às drosófilas inteligência e autoconsciência suficientes, elas não apenas enfrentariam as mesmas dificuldades existenciais e filosóficas do homem, como elas também acabariam provavelmente acumulando conhecimento e se desenvolvendo a ponto de ameaçar a biosfera, assim como nossa espécie fez e faz com o planeta Terra. A vida é um maquinário de aceleração da entropia disfarçada de mecânica que nega a entropia. Enquanto que, localmente, no tempo e no espaço, parece que os seres vivos se organizam, acumulam energia para realizar trabalho e, portanto, negam a entropia, no geral, dado prazos de tempo suficiente, somos como cupins que destroem as vigas de madeira da casa onde vivem. Ou não. Pode muito bem ser que a vida seja mesmo esse milagre do acaso mesmo. Ou até mesmo, o que seria muito pior, um milagre de fato, algo quase que sobrenatural ou pampsiquista, o que dá no mesmo. Nada disso mudaria o horror ao qual ela submete os seus incontáveis filhos. Só mesmo os teólogos e filósofos que propuseram teodiceias é que acreditam que um "propósito maior" justificaria tudo isso pelo qual passamos ao ponto de fazer tudo ficar bem.
É aqui que eu acho que Schopenhauer pecou feio na sua filosofia. Ele fiou demais o seu pessimismo na ideia de que o mundo poderia não ter existido. Essa não é a única justificativa para o seu pessimismo, ele também alude às assimetrias entre estados positivos e negativos. Mas um dos seus pontos centrais é justamente que a vontade cósmica poderia não ter engendrado esse mundo tão terrível, que ela poderia ter simplesmente "ficado na vontade", para usar uma expressão escrotíssima da nossa linguagem comum. Schopenhauer torna a noção de que o mundo não precisava ter existido em algo central, o que faz com que, caso fosse demonstrado que o mundo é necessário, então sua rejeição do mundo cairia por terra. Foi tolice de Schopenhauer. As desgraças e a dor em si bastam para condenar o mundo, independentemente se há alguma força maior, alguma força cósmica racional que as demanda. Volto aqui ao personagem de Ivan Karamazov, do livro Os Irmãos Karamazov, que já trouxe outras vezes (e continuarei trazendo). Ivan diz para o seu irmão mais novo, o noviço Aliócha, que as desgraças do mundo jamais poderiam ser justificadas num paraíso maravilhoso vindouro, e que ele respeitosamente devolve o bilhete da existência para Deus. Eu concordo. E digo mais: a condição desgraçada enfrentada pela senciência no mundo é menos ainda justificada pelo mundo em si. De certa maneira, é ainda mais tolo achar que o mundo em si justifica essa condição desgraçada do que é acreditar num paraíso após a morte que justificará o mundo depois que sairmos dele.
Só de uma maneira bastante complexa e bastante instável poderíamos viver algum tipo de "pessimismo dionisíaco" ou "niilismo da força" proposto por figuras como Nietzsche, eu penso. Interessantes noções, mas difíceis. Tanto é que, no final da sua sanidade, antes de ser totalmente acometido pela doença que o deixou acamado até a morte, ao ver um cavalo sendo açoitado sem piedade por um cocheiro em Turim, Nietzsche teve um acesso de piedade pelo fraco e inofensivo animal e foi protegê-lo com seus braços. Inúmeras tentativas foram e são feitas até hoje para justificar esse ato. Algumas com mais, outras com menos méritos. Eu fico com a simples explicação de que ele reconheceu o mesmo em-si dele no cavalo, tornando-o compassivo e fazendo com que ele fosse tentar salvar o pobre animal, algo que foi contra boa parte daquilo que formulou na sua obra. Isso, contudo, costuma ser deixado em segundo ou terceiro plano por seus seguidores, para quem a coisa é sempre mais complexa: não, dizem eles, ele não era contra toda a compaixão, apenas aquela ligada à universalização da moral dos fracos, entre outras coisas. Respeito os especialistas e os fãs, mas discordo. E, novamente, a sua defesa do cavalo torna Nietzsche um personagem muito mais interessante para mim. O verdadeiro afirmador da vida ali era o cocheiro. Toda a retórica da força e da afirmação de vontade própria se dissolveram num último ato de compaixão.
A mesma compaixão que sinto pelo pobre coitado daquela cena tenebrosa ocorrida na Barra da Tijuca, aqui no Rio de Janeiro. Compaixão que tenho apesar do pobre coitado estar morto há um bom tempo, apesar dos seus problemas, pelo menos do seu ponto de vista, terem se dissipado para sempre. Compaixão que me fez refletir sobre como aquele pobre coitado deve ter sido tão amado, tão abraçado pelos seus pais quando nasceu, sobre como eles devem ter tido tantos momentos efêmeros de felicidade, apenas para terminar daquele jeito, por conta do desespero, enquanto ele usava a camisa do seu time do coração. Uma tristeza sem fim entre tantas outras, uma tristeza tão pequena perto do oceano profundo de tristezas que ela se torna menos do que uma gota. Ela é menor do que um plâncton, comparativamente falando. Ou não. Talvez ele tenha sido defecado pelos seus pais como faziam os humanos na antiguidade e na idade da pedra, e depois maltratado sua vida inteira, e aquele momento final tenha sido sua resposta a um mundo que só cuspiu na sua cara desde muito cedo. Talvez ele tenha sido um escroto. Ou talvez ele tenha sido uma pessoa complexa, como todos nós, anjo para alguns, demônio para outros. De qualquer forma, tenha sido ele amado ou não, espero que ele tenha conseguido encontrar a paz verdadeira agora, deixando de existir como aquele indivíduo e tendo sua consciência evaporado com a morte e decomposição do seu sistema nervoso. Maldita vida!
Para encerrar, acho interessante trazer uma informação inusitada. No artigo sobre figuras de linguagem da Wikipedia em português, na seção sobre "disfemismo", um tipo de eufemismo que consiste em utilizar uma expressão chula para atenuar humoristicamente um acontecimento terrível, o exemplo que utilizam é literalmente o seguinte: "Ele foi jogar no Vasco" (morreu). Pois é, meus senhores. No longo prazo, todas as espécies que já existiram e foram extintas jogaram no Vasco, assim como nós que existimos e um dia deixaremos de existir assinamos contrato para jogar no Vasco. Vasco deixou de ser um explorador português e deixou de ser um time de futebol, ele se tornou um símbolo existencial-metafísico não só da condição humana, mas de toda a vida no universo. Estamos todos na fila para jogar no Vasco e não há nenhuma possibilidade de escaparmos. Mas, sinceramente, chegar lá no Vasco, digo, na morte, não é a pior coisa do mundo. É o desenlace do nó que foi atado quando nos geraram, é a libertação total do eu, o fim eterno do maior dos pesos que é a imposição da vida. O inferno seria a vida eterna. O nada que virá depois, o Vasco, é o verdadeiro nirvana, o verdadeiro paraíso.
por Fernando Olszewski
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